De Alcântara ao Jamor, Lisboa e Oeiras projectam alternativa ao metro

Vereador da Mobilidade de Lisboa diz que não se justifica prolongar o metro à zona ocidental para lá de Alcântara. Em entrevista, afirma que o 24 pode chegar ao Cais do Sodré no próximo ano e defende faixa bus na Segunda Circular.

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Miguel Gaspar é vereador da Mobilidade há um ano Rui Gaudêncio

As câmaras de Lisboa e Oeiras estão a preparar um projecto de transporte público entre Alcântara e o Jamor que, no fundo, funcionará como alternativa ao metro que muitos moradores desta zona vêm reclamando há anos.

A intenção das duas autarquias é construir uma linha de eléctrico ou pôr a funcionar um autocarro rápido (BRT) que passe por Alcântara, Ajuda, Restelo, Miraflores, Linda-a-Velha e Jamor, onde se fará a ligação ao eléctrico 15 da Carris, cujo percurso termina actualmente em Algés. “Estamos em conversações muito boas e avançadas com a Câmara Municipal de Oeiras para garantir que o 15 vai até ao Jamor”, diz o vereador da Mobilidade de Lisboa.

Em entrevista ao PÚBLICO, Miguel Gaspar explica o projecto que une os dois municípios. “Há uma preocupação da câmara com a zona ocidental – Ajuda, Alcântara, Belém. A orografia é difícil, clivosa, a rede viária não é fantástica, a densidade também não é das maiores da cidade. Existe uma oferta de autocarros, mas sentimos que falta ali um transporte público estruturante, que na nossa opinião não é o metropolitano. Não se justifica o dinheiro que custa o metro pesado para estruturar ali o transporte público”, afirma.

Assim, do lado lisboeta, a ideia é o novo corredor de transporte iniciar-se em Alcântara e seguir “pela meia encosta, passando pelo Pólo Universitário da Ajuda, acabando no São Francisco Xavier”, precisa o autarca. “Estamos a conversar com Oeiras para este projecto descer a Miraflores, subir a Linda-a-Velha e fechar o anel no Jamor, com o 15”, acrescenta. Segundo Miguel Gaspar, já há mais do que simples conversas: “Estamos em fase de projecto mesmo, já com algum detalhe sobre onde é que ele passa, onde é que começa, onde acaba, onde fica a estação”.

O vereador afirma que este projecto decorre do acordo político entre o PS e o BE – que previa um Plano de Mobilidade da Zona Ocidental “concluído até final do primeiro trimestre de 2018” – mas que tem igualmente uma importância que extravasa os limites da cidade. “Há dois concelhos na área metropolitana que ganham população durante o dia: Oeiras e Lisboa. Oeiras ganha um bocado, Lisboa ganha dois terços. Aquela é uma zona de forte emprego no concelho de Oeiras. Portanto, de facto, esta linha é muito importante no contexto metropolitano”, argumenta Miguel Gaspar.

O presidente da câmara de Oeiras, Isaltino Morais, já tinha dito ao PÚBLICO em Maio que este projecto estava a ser desenhado e, na altura, deu como certo que ele será uma linha de eléctricos. Miguel Gaspar não confirma. “Só há duas opções: ou um BRT [bus rapid transit] ou um eléctrico. Não quero adiantar neste momento qual é a opção, mas será mesmo algo diferente de um autocarro, muito melhor do que um autocarro: transporte em sítio próprio, com validadores do lado de fora. Ou seja, vai mesmo mudar a mobilidade daquela zona.”

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E prazos? “Eu espero que seja uma obra para este mandato. Se termina este mandato, vai depender das soluções – se for eléctrico é mais demorada do que o BRT. Mas temos todos a ambição de concretizar ou, pelo menos, iniciar durante este mandato”, diz o vereador lisboeta.

O ‘amarelo’ da Carris pode mudar de aspecto

Miguel Gaspar chegou à câmara de Lisboa com as autárquicas do ano passado. Depois de 12 anos numa empresa de consultoria de transportes, o agora vereador ainda passou dois anos no Ministério do Ambiente (onde negociou a chamada “Lei Uber”), até Fernando Medina o convidar para liderar o gabinete da Mobilidade, de que o presidente da câmara tem feito uma grande bandeira política.

Entre outras pastas, o vereador tem a Carris a seu cargo. Os primeiros seis novos autocarros da empresa começam a andar nas ruas este mês, seguindo-se “uns 10 ou 15 por mês até Julho”, perfazendo um total de 203, entre articulados e normais. “Pedi à Carris para fazer um exercício sobre como será o reforço da oferta e isso está a ser ultimado. Mas há coisas que não temos dúvidas: parte dos novos autocarros vai para os sítios onde temos mais questões de [falta] de qualidade do ar”, diz Gaspar.

Apesar de grande parte dos utentes da Carris ainda não sentir melhorias significativas no serviço, o eleito diz que já muito foi conseguido. “Quando a Carris veio para a câmara havia praticamente um em cada dez autocarros que não saía. Neste momento já estamos a cumprir cerca de 98%. É uma melhoria extraordinária. Esta recuperação temos vindo a conseguir essencialmente através do reforço dos motoristas. Ainda havia folga de autocarros, já não tínhamos pessoal. Agora estamos a chegar a um ponto em que, para crescer, precisamos dos autocarros.”

De autocarros e de eléctricos. Miguel Gaspar estima que “ainda este ano” seja lançado o concurso para a compra de eléctricos articulados (os que servem a carreira 15), o que vai permitir “duplicar a frota” e concretizar a extensão do percurso a Santa Apolónia e ao Jamor.

Quanto aos eléctricos tradicionais, para as carreiras 18, 24, 25 e 28, ainda não há previsão sobre quando poderão vir. E o vereador dá a entender que os veículos que vierem podem não ser exactamente iguais aos ‘amarelos’ que estamos habituados a ver: “A Carris tem estado a visitar fábricas que têm capacidade de produzir um eléctrico mais pequeno. É um projecto um pouco mais demorado, em que é preciso conceber o eléctrico, que tenha a ver com o património histórico do eléctrico lisboeta.”

Apesar desta incerteza sobre os novos eléctricos, o vereador diz que é “muito provável” que a obra que vai permitir a extensão do 24 ao Cais do Sodré “se faça no próximo Verão”.

Faixa bus na Segunda Circular?

Outro dos projectos de transportes que ultrapassam a escala lisboeta é o que diz respeito à criação de uma faixa bus na A5, que afinal pode vir a ser também uma faixa bus na Segunda Circular. “Encher um autocarro em Cascais ou Carcavelos, entrar na A5, fazer ligação directa a Lisboa e, aqui, amarrar-se à rede de transportes públicos e fazer a distribuição. Havia uma ideia inicial de fazer esta amarração em Sete Rios, mas a câmara entende que há aqui uma oportunidade de pensar se não ficaria melhor na Segunda Circular”, descreve Miguel Gaspar.

As obras que estiveram previstas para aquela estrada de 10 quilómetros não tinham uma vertente vincada de transporte público, o que foi criticado antes e depois do seu cancelamento. Helena Roseta, por exemplo, disse ao PÚBLICO no ano passado que via com bons olhos a introdução de BRT na Segunda Circular. Essa é também a visão de Miguel Gaspar. “Parece-nos uma grande oportunidade. A Segunda Circular tem a estação de comboios de Benfica, com ligação ao Rossio; a estação do metro do Colégio Militar e o Colombo; as Torres de Lisboa; o Campo Grande onde vai estar a linha circular; o aeroporto; o Oriente. Portanto conseguimos ligar Oeiras e Cascais ao Oriente, que é onde está a rede nacional ferroviária”, diz.

Linha de Cintura, “uma linha igual” às do metro

Defensor da linha circular do metro – uma opção muito contestada política e tecnicamente –, Miguel Gaspar diz ainda que um dos próximos desafios é pôr os lisboetas a usarem a Linha de Cintura da CP, que “podemos encarar como mais uma linha de metro”. Propõe um exercício: “Pergunte a alguém que esteja na Av. Columbano Bordalo Pinheiro como é que vai para a Expo. A pessoa se calhar vai começar a pensar ‘bom, vou de metro para ali, tenho autocarro aqui’ e ninguém se lembra que tem ali uma ligação directa de Sete Rios para o Oriente. As pessoas ainda não interiorizaram que existe uma linha de comboio, que está integrada no passe Navegante, e que está ali disponível.”

A culpa é dos utentes? “A culpa disso é nossa, dos gestores do sistema, que temos de mostrar essa linha às pessoas. Aquela linha tem de aparecer bem marcada no mapa do metropolitano, não é a cinzento. Tem de ser apresentada como uma linha igual às outras.”

Mas, para que seja mesmo utilizada, a linha precisa de comboios. “Entre Sete Rios e Roma/Areeiro temos uma frequência extraordinária de comboios, até ao Oriente há uma frequência de comboios muito próxima da do metro. Se nós tivermos comboios em Alcântara-Terra de 15 em 15 minutos em vez de meia em meia hora, isso faria toda a diferença”, defende Miguel Gaspar. A CP disse ao PÚBLICO em Agosto que não prevê reforçar a oferta em Alcântara-Terra brevemente.