Torne-se perito

A Carris é "um dos melhores exemplos de descentralização"?

Um ano depois de ter passado para a gestão municipal, a Carris assinou contratos para 165 novos autocarros e anunciou um aumento de passageiros. "É só o começo", garante Medina. O PCP não está convencido e diz que este primeiro ano "defraudou expectativas".

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LUSA/MÁRIO CRUZ

Pode ser uma daquelas sortes tremendas que de vez em quando acontecem na vida de um utente da Carris. Ou então é o sistema que abre semáforos quando se aproxima um autocarro atrasado. Uma ou outra, certo é que o autocarro em que a Carris pôs o presidente da câmara, vereadores e jornalistas para assinalar o primeiro ano de gestão municipal desceu do Campo Grande ao Marquês de Pombal sem que aparecesse um sinal vermelho.

A viagem, para além de marcar a efeméride, serve para “testar os semáforos prioritários para autocarros”, cujo funcionamento começou na Avenida da República. Sorte ou sistema, a bonança dos semáforos verdes termina logo no Marquês e, daí até à estação de Santo Amaro, em Alcântara, o veículo não tem outro remédio que não sujeitar-se ao trânsito habitual de Lisboa em manhã de quinta-feira.

Fernando Medina e Tiago Farias, presidente da Carris, vão dizendo que o sistema se alargará a outras zonas da cidade, que o número de faixas bus vai aumentar e que elas serão mesmo exclusivas para transportes públicos. O líder da empresa sublinha a importância de esta estar na esfera da autarquia, o que permitiu ter equipas da EMEL e da polícia municipal a controlar, por exemplo, os carros parados em segunda fila.

Indiferentes ao facto de os utentes ainda terem dificuldade em reconhecer melhorias visíveis no serviço prestado, os discursos em Santo Amaro festejam um ano de municipalização da Carris e prometem um futuro mais risonho. “O que nós fizemos até agora é só o começo”, diz Medina, assumindo o compromisso de trabalhar para fazer dos transportes públicos “a espinha dorsal da mobilidade da cidade e da área metropolitana”. O autarca afirma que “a Carris inverteu o seu ciclo de declínio” e que “começou a ganhar passageiros”. Em 2017 houve mais 1,3 milhões de viagens do que em 2016, anuncia Fernando Medina, que antevê que a empresa acabe este ano com “cinco a seis milhões de passageiros a mais” do que actualmente.

A cerimónia serve igualmente para serem assinados os contratos de compra de 165 novos autocarros movidos a gás natural, dos quais 100 entram em funcionamento no segundo semestre. Diz Tiago Farias que o seu objectivo, até 2021, é “passar dos actuais 500 para mais de 700 autocarros” e assegurar “a renovação da frota, que tão precisa é”. “Não me recordo de alguma vez ter ouvido falar de termos feito uma aquisição de tantos autocarros de uma só vez”, congratula-se Fernando Medina.

O ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, elogia a câmara lisboeta. “Este é um dos melhores exemplos, dos que mais me orgulho, de descentralização”, diz. Para o governante, “não fazia sentido algum guardar para um ministério” a gestão de uma empresa de transportes. “É tão evidente que devem ser as autarquias” a fazê-lo, acrescenta.

Em 2018, a câmara e a Carris prometem lançar concursos para comprar mais autocarros (alguns deles movidos a electricidade) e 30 eléctricos, contratar trabalhadores, lançar uma app e pôr wi-fi em todos os veículos. “Um plano ambicioso, mas realista”, nas palavras de Tiago Farias.

Um ano que “defraudou as expectativas”

“Se cada anúncio de compra de autocarros desse para somar, nós já íamos em mais de 500 autocarros”, ironiza João Ferreira. Pouco depois da cerimónia em Alcântara, na outra ponta da cidade olha-se para o primeiro ano da municipalização da Carris com muito menos simpatia. “Praticamente nenhum dos problemas que eram identificados há um ano foi resolvido”, afirma o vereador do PCP, que elenca “as supressões e limitações de carreiras” e as “alterações de horários” que “vieram agravar os problemas de mobilidade”.

Na óptica do eleito comunista, pouco mais houve do que propaganda. A Rede de Bairros é um exemplo. “Tendo funcionado como eficazes elementos de propaganda, estas carreiras correspondem na prática à reposição de carreiras que já existiam e foram suprimidas, embora muito limitadas em número e frequências”, atira João Ferreira.

Mesmo a compra dos novos autocarros serve “sobretudo para substituir as viaturas em fim de vida” e “não corresponde a um acréscimo de serviço”, afirma. Para piorar, diz o vereador, “esta aquisição realiza-se com recurso a financiamento da banca, dando início a um novo período de endividamento da empresa”, quando devia ser o Orçamento do Estado a provir.

O PCP continua a defender que a Carris deve ser gerida pela administração central e não pela autarquia, uma posição reforçada agora que se percebeu que “foram defraudadas as expectativas” criadas em torno da municipalização, considera João Ferreira. “Fica claramente demonstrado que nunca uma solução desligada das realidades metropolitanas e da capacidade de financiamento do Estado poderá ser a solução que a mobilidade em Lisboa necessita”, diz.

Se a panóplia de promessas de Medina para a Carris é grande, a dos vereadores comunistas não é menor – garantem que vão voltar a levar à câmara todas as propostas de redução de tarifários e prolongamento de carreiras que foram chumbadas no mandato passado.

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