Utentes pedem mais comboios em Alcântara-Terra

Um grupo de utentes lançou uma petição na qual pedem mais comboios em Alcântara-Terra. Dizem-se mal servidos numa estação e numa linha que caiu no esquecimento dos lisboetas, que não a tomam como uma opção para se deslocarem para o centro da capital. CP diz que, para já, não está previsto o reforço de oferta.

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João Pedro Fernandes, de 46 anos, apanha todos os dias o comboio em Carcavelos, seguindo até à estação terminal da linha de Cascais, o Cais do Sodré. É lá que pega na bicicleta e pedala até Santa Apolónia para apanhar outro comboio que o vai transportar até ao Parque das Nações, onde trabalha como Engenheiro de Telecomunicações.

Mas a viagem que lhe costuma demorar perto de uma hora e que faz com diversos meios de transporte, poderia ser encurtada — ou pelo menos mais cómoda — se saísse em Alcântara-Mar e seguisse para Alcântara-Terra, apanhando o comboio que percorre um arco pelo centro da cidade, levando-o até ao Oriente. Só não o faz porque, diz João Pedro Fernandes, ambas as estações de Alcântara estão degradadas e, no caso de Alcântara-Terra, os dois comboios que dali saem por hora não servem os utentes. 

João Pedro faz parte de um grupo de utentes que decidiu, há cerca de um ano, lançar uma petição dirigida ao ministro do Ambiente, à CP - Comboios de Portugal e à Infra-estruturas de Portugal a pedir que se dê mais atenção à estação de Alcântara-Terra, que dizem estar esquecida pelos lisboetas, que não a tomam como opção para deslocações dentro da cidade.

“A estação de Alcântara-Terra é utilizada diariamente por milhares de passageiros. A Linha de Cintura é uma linha fundamental para quem mora na zona de influência daquela estação, mas também para muitas pessoas provenientes da linha de Cascais”, escrevem os peticionários. 

Por ser uma linha urbana que atravessa a cidade por zonas como Sete Rios, Avenidas Novas, Areeiro e Parque das Nações, — e que garante a ligação com as linhas de Cascais (com travessia pedonal até Alcântara-Mar), de Sintra (em Campolide) e do Norte (Braço de Prata) e ainda o transbordo para as linhas Azul, Amarela e Verde do metro —, os subscritores do documento acreditam que seria uma opção para “distribuir os passageiros que chegam da linha de Cascais por todos estes destinos de trabalho”. 

As partidas desta estação são de meia em meia hora. "Esta frequência contrasta de forma gritante com os comboios a cada seis minutos [a partir de Oeiras], na hora de ponta, na linha de Cascais", notam os peticionários. E "tudo piora" se se perder um comboio, acrescentando mais meia hora ao trajecto. 

Isto porque estes utentes acreditam que se a linha de Cintura fosse melhor interligada com a linha de Cascais em Alcântara-Terra retiraria milhares de passageiros da Estação do Cais do Sodré e das linhas de Metro e Carris que servem sobretudo as zonas do centro da cidade. No fundo, o que João Pedro Fernandes e os outros subscritores sugerem é que “tire proveito de uma infra-estrutura que já está feita”.

"Aquela linha é uma linha de metro. É um arco que complementa as outras, que coloca as pessoas rapidamente no centro de Lisboa e até à Expo", nota o peticionário. A própria câmara de Lisboa, pelo vereador da Mobilidade, Miguel Gaspar, já revelou a intenção de querer fazer da Linha de Cintura uma “quinta linha do metro”, que fizesse a ligação a Cascais.

Questionada pelo PÚBLICO, a CP diz que a estação de Alcântara-Terra (que tem neste momento em curso obras de substituição da cobertura das plataformas, a cargo da IP) recebe, por dia, cerca de 2500 passageiros por cada sentido, sendo que a maioria provém da linha de Cascais. A empresa diz ainda que disponibiliza uma oferta de 35 comboios por dia útil, por sentido. “Assim, a oferta disponível dá resposta à procura existente não estando previsto, no momento actual, o reforço de oferta”, lê-se na resposta escrita que foi enviada ao PÚBLICO.

O grupo de utentes sugere ainda que se aumente a frequência para um comboio a cada 15 minutos. “Esta frequência adicional, a intercalar nos horários actuais Alcântara-Terra - Castanheira do Ribatejo, para ser eficaz deverá circular até ao Parque das Nações, cobrindo toda a zona urbana de Lisboa”, pedem. 

Na impossibilidade de o comboio seguir até ao Parque das Nações, propõe que o comboio circule pelo menos até ao Areeiro ou que volte a ser utilizado o cais de Entrecampos Poente, actualmente desactivado, permitindo assim o transbordo para a linha de Sintra. E queriam ainda ver os comboios a circular ao fim-de-semana nesta estação, sobretudo no Verão, para quem tem como destino as praias da linha de Cascais. 

A CP refere que, em anos passados, durante o mês de Agosto, disponibilizou alguns comboios aos fins-de-semana, sendo que a média de clientes por dia rondou os 50, justificando assim a não circulação das composições nestes dias. 

Degradação no túnel de Alcântara

Quem vem de Cascais e quer chegar a Alcântara-Terra precisa de transpor a linha para o lado de lá. A opção é atravessar o túnel pedonal que liga as duas estações. Por lá, a degradação é uma constante. Depois de, em 2013, a Associação Portuguesa de Arte Urbana (Apaurb) ter posto nas paredes as paisagens de Lisboa, o túnel voltou a cair no abandono. As tags sobrepuseram-se às pinturas, o odor a urina é recorrente, assim como a água e o lixo que se acumulam no chão.

Quem anda de cadeira de rodas ou transporta um carrinho de bebé ou uma bicicleta também não têm a vida facilitada, porque não há elevadores e as escadas rolantes que ali estão não funcionam há anos. “Isso está abaixo de terceiro-mundista. Aquilo é uma vergonha. É talvez a pior estação da linha de Cascais”, repara João Pedro Fernandes. 

Questionada sobre estas críticas, a câmara de Lisboa disse que a lavagem e varredura da passagem inferior pedonal (túnel de Alcântara-Mar) está a cargo da Junta de Freguesia da Estrela. Quanto à acessibilidade, está a ser estudada a melhoria das suas condições”. O PÚBLICO aguarda ainda esclarecimentos da Infra-estruturas de Portugal. 

A petição, lançada no ano passado, tem, neste momento, 216 assinaturas. O abaixo-assinado continua e os peticionários querem fazer chegar, no futuro, este documento ao Parlamento, depois de terem recebido “respostas pouco estimulantes” por parte das entidades responsáveis a quem dirigiram o texto.