Aproximação de Costa ao PSD provoca tensão na bancada do PS

Carlos César nega "guerra" com Vieira da Silva: "Nunca me passaria pela cabeça". Nestes dias fez finca-pé nas leis laborais, mas acabou por ceder a António Costa na estratégia de debate.

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Carlos César é líder parlamentar e presidente do PS. Foi obrigado a ceder a Costa na questão da votação das leis laborais nuno ferreira santos

Nas últimas semanas, vários têm sido os sinais de desagrado e de tensão na bancada do PS, protagonizados pelo líder parlamentar Carlos César, em relação a alguns episódios com o Governo. O socialista tem querido passar para dentro e para o público a ideia de que não é mera caixa de ressonância do executivo e a discussão das leis laborais foi a oportunidade para mostrar que discorda dos sinais de aproximação do Governo a acordos com os sociais-democratas. Mas acabou a semana a ter de ceder a António Costa na estratégia quanto ao "como" e ao "quando" ocorreria o debate sobre as leis de trabalho no Parlamento.

César não gostou que a proposta de lei do Governo para alterar normas da legislação laboral lhe tivesse chegado fechada, quase que a pedir assinatura de cruz à bancada do PS. À saída da reunião do grupo parlamentar com o ministro do Trabalho, Vieira da Silva, depois da assinatura do acordo de concertação social a meio de Junho, fez saber, à revelia do governante, que chegara a hora da "concertação parlamentar". A partir de então, Carlos César tem feito finca-pé na ideia de que o partido tem de ter margem para alterar algumas medidas - o que deixou o ministro do Trabalho preocupado -, de forma a torná-las mais conformes com aquilo que alguns dos seus deputados, mais próximos do BE e do PCP, defendem.

Além disso defendeu uma estratégia de debate no Parlamento que passaria por a proposta não ser votada, evitando assim um momento de tensão com os parceiros à esquerda. Na quinta-feira à hora de almoço, quando saiu da reunião da bancada, disse isso mesmo, que o PS entendia que seria "mais útil" que todos os 18 diplomas "pudessem baixar à comissão sem votação" e até sinalizou que votaria favoravelmente algumas medidas dos dois partidos à esquerda.

Mas horas depois tudo mudou. O Governo queria uma clarificação à partida, para não dar aos patrões a ideia de que o acordo de concertação social poderia estar em risco, e foi do próprio primeiro-ministro que partiu a indicação de que se deveria forçar a votação, levando César a ceder. Vieira da Silva nunca foi favorável a que todas as propostas baixassem à comissão sem votação, porque havia certas propostas do BE e PCP em que não haveria espaço para negociação - aliás, o PS só aprovou três diplomas do PCP e do BE esta sexta-feira. 

O líder parlamentar, que acabou por ter de mudar de posição depois de uma conversa com o primeiro-ministro, nega que tenha entrado em "guerra" com Vieira da Silva: "Essa é mesmo uma guerra que não me passaria pela cabeça", respondeu ao PÚBLICO, sem mais respostas sobre a forma como tem lidado com o Governo e sobre os sinais que tem passado aos seus deputados.

É que no grupo parlamentar há quem lembre que foram vários os momentos em que César fez ver que não é "correia de transmissão" do Governo e em que passou a ser um dos maiores defensores da aproximação à esquerda - ou melhor, da não aproximação ao PSD e ao CDS. "César está estruturalmente contra a estratégia de aproximação ao PSD. Não o diz abertamente, mas mostra isso nas acções e como gere o grupo parlamentar", diz um deputado que acrescenta que o líder parlamentar tem criado um espaço próprio de intervenção, agora com um discurso mais "vigoroso", porque sente "que o Governo tem sido injusto" com o grupo parlamentar. Juntando esse cansaço sobre o modo como se relacionam os dois lados da maioria, Governo e grupo parlamentar, à "discordância da estratégia" de aproximação a Rui Rio, César tem feito transparecer mais vezes as divergências, de forma evidente.

Um dos primeiros sinais, notado por alguns deputados, foram as declarações sobre José Sócrates. Depois, foi a defesa, contrária à ideia do Governo, de que a Lei de Bases da Saúde tinha de ser debatida nesta legislatura. E já nesta semana, o facto de responder de forma ríspida sobre o porquê de não levar ministros às jornadas parlamentares do partido. "Não me lembrei", disse. A notícia do PÚBLICO com essa frase foi partilhada por alguns deputados, que se regozijaram pela resposta dada. Resposta que era acompanhada por uma explicação que resume a maneira como César tem querido sublinhar a autonomia dos deputados na Assembleia da República: "Temos o hábito de discutir os problemas, com ou sem ministros". 

No caso de César tem sido mais sem ministros. A articulação é feita com António Costa e com o secretário de Estados dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, de quem está mais próximo. E foi nas jornadas parlamentares que os deputados sentiram que Carlos César e Pedro Nuno Santos ganharam algum respaldo de António Costa, quando este foi frisar que está virado para a esquerda e que quer revalidar a "geringonça". 

Mas Costa fê-lo estrategicamente, uma vez que estava a dias do debate sobre as leis laborais e teria um encontro dois dias depois com a delegação do PCP e outro com a do PEV, por causa do início das negociações para o Orçamento do Estado. Aliás, foi na reunião com Jerónimo de Sousa que Costa soube que os comunistas queriam forçar a votação das leis laborais, não evitando o confronto no Parlamento e deitando por terra a estratégia de levar tudo para discussão na especialidade.

Na prática, Costa tem neste momento uma bancada mais à esquerda do que o Governo, um secretário de Estado com palco mediático e um líder da bancada, que sempre geriu com mão de ferro o grupo parlamentar, a fazer a força para que o Governo não procure no PSD o apoio que poderá precisar para, por exemplo, aprovar o pacote laboral, que é tão importante para os socialistas. O desfecho dessa tensão será conhecido no dia 18, quando a proposta for a votos na generalidade.