47 formas de resistir a Trump (e só passou um mês)

Tínhamos a alt-right. Agora temos a alt-fight. A luta contra a Administração Trump serve-se em doses e pratos variados. Da justiça às manifestações de rua, passando por brincadeiras na praia, há dezenas de formas de resistir. No primeiro mês, encontrámos 47.

Os apelos aparecem como cogumelos: é preciso "persistir" e "resistir" a Donald Trump, às suas ideias e às suas instruções e directivas políticas. A resposta não se fez esperar e está a ser transversal. Os tribunais contrariam o Presidente, os consumidores boicotam os seus produtos, as petições para um impeachment têm adesão imediata, a função pública estuda formas de desobediência civil e os espiões escondem os segredos ao Governo. Sem estado de graça, Trump termina o primeiro mês na Casa Branca a dizer que "everything is working fine". Mas o mundo inteiro sabe que isso não é verdade. Nestas primeiras quatro semanas, a resistência a Trump não parou de aumentar.

Dia 1
Sexta-feira, 20 de Janeiro

Petição recorde sobre impostos de Trump

Horas depois de Donald Trump tomar posse como Presidente, nasce uma petição a pedir que Trump revele “imediatamente” as suas declarações de impostos. A petição é colocada no site We the People, criado por Barack Obama para abrir um canal directo entre os cidadãos e a Casa Branca. Em menos de 24 horas, 100 mil pessoas assinam o pedido – um recorde em cinco anos de vida do canal. Hoje, a petição já tem quase um milhão de nomes.

Dia 2
Sábado, 21 de Janeiro

Mulheres marcham com gorros cor-de-rosa

O mundo acorda com Marchas das Mulheres um pouco por todo o lado. Há jornais que falam em 600 manifestações e três milhões de pessoas na rua. E há quem note que esse número equivale, justamente, aos votos que Hillary Clinton teve a mais no voto popular nas presidenciais. A Marcha das Mulheres de Washington terá tido a maior, com centenas de milhares de pessoas, um gigantesco mar de gorros cor-de-rosa para simbolizar a ira contra um Presidente misógino que chocou o mundo com a frase “grab by the…”.

Dia 3
Domingo, 22 de Janeiro

Petição nº. 7117 contra Trump no change.org

Chal McCollough junta-se ao batalhão de anónimos que mobiliza os cidadãos contra Trump e lança uma petição no change.org para pedir que, dadas as “circunstâncias invulgares” das relações do novo Presidente com as autoridades russas, seja o próprio Supremo Tribunal a acusar Trump do crime de traição. Tem 70 mil assinaturas. No site, já há mais de 7100 petições contra Trump. A pedir que a Nike, a Gucci e a Starbucks fechem as lojas que alugam nos edifícios de Trump; que a Kitchen Aid deixe de fazer o PGA Senior Golf Championship numa herdade de Trump; que o congressista republicano Jason Chaffetz, presidente do comité da Reforma e Fiscalização do Governo (que investiga fraude), investigue os possíveis conflitos de interesse do novo Presidente; ou simplesmente de apoio à proposta de lei T.R.U.M.P. (Tax Returns Uniformly Made Public), apresentada pelo senador Brad Hoylman. E, claro, há pedidos de impeachment. Um deles já tem 220 mil assinaturas. Trump é acusado de violar a Patriot Act (por causa da Rússia), mas também de cometer cyber bullying (por causa dos tweets) e incitamento à violência — possíveis “high crimes and misdemeanors”, os critérios para um impeachment.

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Shannon Coulter cria no Twitter a campanha Grab your Wallet. A adesão é imediata e esta especialista em marketing digital ganha dimensão de heroína nacional washington post/getty images

Dia 6
Quarta-feira, 25 de Janeiro

Grab Your Wallet ganha força

O número de pessoas que adere à campanha de Shannon Coulter no Twitter não pára de aumentar. Em Outubro, esta especialista em marketing digital de 45 anos ficou de boca aberta ao ouvir as gravações onde Trump diz a chocante frase “grab by the…”. Coulter não consegue tirar a frase da cabeça e inicia um apelo ao boicote aos produtos de Trump no Twitter. Chama-lhe Grab Your Wallet. A adesão é rápida. Em pouco tempo, tem meio milhão de “engagements”. Mas ainda faltam uns dias para Shannon Coulter tornar-se uma heroína nacional.

Dia 7
Quinta-feira, 26 de Janeiro

Demissão de chefias no Departamento de Estado

“Toda a equipa de gestão de topo do Departamento de Estado demite-se” em protesto contra a política de Trump, noticia o Washington Post. Já era público que o Presidente despedira todos os embaixadores “políticos” nomeados por Obama.

Dia 8
Sexta-feira, 27 de Janeiro

Trump assina ordem executiva e enfurece milhões

Às 16h42, sem aviso nem debate, Trump assina a ordem executiva que suspende a entrada de refugiados no país durante 120 dias, de sírios por tempo indeterminado e de cidadãos de sete países muçulmanos por 90 dias. E instala-se o caos. À noite, a Casa Branca ainda está a enviar esclarecimentos aos aeroportos e companhias aéreas, mas a conta de Shannon Coulter no Twitter, Grab Your Wallet, deixa de ser um protesto contra a misoginia de Trump e transforma-se num protesto global contra o Presidente. Coulter conta mais tarde que esteve afastada das questões políticas desde a universidade e que agora, 20 anos depois, Trump a acordou.

Dia 9
Sábado, 28 de Janeiro

Advogados correm para os aeroportos

Às primeiras horas da manhã, a American Civil Liberties Union (ACLU) e outros grupos de defesa de direitos cívicos já estão em vários aeroportos do país, onde estão a ser detidas várias pessoas. A ACLU processa o Governo logo de manhã, alegando que a ordem executiva de Trump é ilegal e inconstitucional. Pelo menos quatro procuradores estaduais também apresentam processos para bloquear a ordem.

Duas juízas suspendem ordem de Trump

Antes das 9h, a juíza Ann Donnelly do Tribunal Federal do Distrito de Brooklyn suspende temporariamente a ordem do Presidente. Donnelly, nomeada por Obama, decide que deportar refugiados acabados de chegar aos EUA para os países de origem iria causar-lhes “prejuízos irreparáveis”. Para a decisão terá sido decisivo o facto de um dos detidos estar naquele preciso momento a embarcar para ser deportada para a Síria. Na rua, à porta do tribunal, centenas de pessoas gritam “Libertem-nos! Libertem-nos!”. Minutos depois, no Tribunal Federal do Distrito da Virgínia, a juíza Leonie Brinkema (nomeada por Bill Clinton), decide no mesmo sentido e suspende a ordem de Trump por uma semana.

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Protestos em vários aeroportos (na fotografia, o de São Francisco) após a ordem executiva de Trump para limitar a entrada de refugiados e imigrantes reuters

Protestos nos aeroportos americanos

Milhares de pessoas saem para a rua e protestam contra a ordem de Trump à entrada de vários aeroportos.

Dia 10
Domingo, 29 de Janeiro

Voluntários ajudam estrangeiros nos aeroportos

À porta do JFK, uma manifestação não arreda pé e grita contra Trump sob o olhar das forças de segurança, reforçadas por troopers (com os seus chapéus de abas largas raras vezes vistos por ali). Lá dentro, mais de 40 advogados de imigração, intérpretes e voluntários continuam a trabalhar sem parar. Às 21h, John Sifton, do Human Rights Watch, diz que só naquele aeroporto foram detidas 52 pessoas e que duas já foram deportadas (um estudante iraniano a fazer um MBA e uma médica sudanesa com visto de “trabalhador especializado”). A boa notícia: os advogados conseguiram libertar 30 detidos. Os voluntários criam turnos e trabalham toda a noite no aeroporto.

Dia 11
Segunda-feira, 30 de Janeiro

Advogados voluntários passam noite no aeroporto

Às sete da manhã, os advogados que passaram a noite no JFK dizem que mais 11 estrangeiros detidos por causa da ordem de Trump foram libertados. Faltará só um, diz o HRW. Mesmo assim, os advogados passam todo o dia no aeroporto, de vigília.

Democratas prometem filibuster histórico

O senador democrata Jeff Merkley anuncia que fará um filibuster na audição para confirmar a escolha de Trump para o lugar vago no Supremo Tribunal — a acontecer, será a segunda vez na história moderna americana. Filibuster vem de “pirata” e é uma manobra parlamentar para arrastar o debate ao ponto de impedir, ou pelo menos adiar, uma votação. A técnica é simples: falar muito sem parar. Nos anos 1950 e 60 houve fillibusters de 75 horas, incluindo intervenções individuais de 15 horas consecutivas. Chamam-lhe a “alma do Senado”. Não é claro quantos democratas vão apoiar Merkley. Mas mesmo que o seu filibuster bata um recorde, poderá não passar de um gesto simbólico. Os republicanos têm 52 senadores e os democratas 46 e ainda não é claro se vai ser imposta a regra da maioria de 60 votos.

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Sally Yates, ministra da Justiça interina, diz aos procuradores federais que não cumpram a ordem de Trump. Horas depois é demitida GettyImages

Procuradora Sally Yates desafia ordem de Trump

Sally Yates, ministra da Justiça interina, diz aos procuradores federais que não cumpram a ordem de Trump. “Não tenho a certeza”, escreve numa nota interna, que a ordem seja “consistente com a obrigação do Departamento da Justiça de procurar sempre a justiça e defender sempre o bem”. Horas depois, à noite desse mesmo dia, Trump demite-a.

Nordstrom solidária com os imigrantes

A Nordstrom, uma cadeia de armazéns de luxo fundada há mais de um século e com 400 lojas em 40 estados, envia nota interna para todos os funcionários de solidariedade e apoio aos imigrantes nos EUA.

Dia 12
Terça-feira, 31 de Janeiro

Trump inundado de processos judiciais

A Administração já acumula 42 processos judiciais a questionar a ordem executiva do Presidente. Dos processos, quatro são dos estados de Nova Iorque, Massachusetts, Virgínia e Washington.

Funcionários públicos ponderam desobediência

Numa atitude rara nos primeiros dias de um novo governo, multiplicam-se os sinais de oposição a Trump na administração pública. O Washington Post faz um ponto da situação: muitos funcionários federais mantêm contactos diários com as ex-chefias de Obama para saberem o que fazer se quiserem ignorar ou boicotar as instruções de Trump; muitos perguntaram aos novos chefes se podem protestar contra Trump em manifestações públicas ou contactar congressistas; os sindicatos recebem perguntas sobre o que devem os funcionários públicos fazer se receberem “ordens ilegais da chefia”. Logo a seguir às presidenciais, o gabinete de ética do Departamento do Estado já tivera também de esclarecer que os funcionários públicos podiam usar roupa com mensagens políticas visíveis – tal a vontade de o fazer. Há quem sublinhe que isto acontece em todas as passagens de poder. Mas ninguém se lembra se serem criadas contas nas redes sociais para, de forma anónima, os funcionários públicos revelarem que mudanças Trump está a tentar fazer. Vários gabinetes e departamentos de diferentes ministérios já decidiram que vão trabalhar menos e mais devagar de modo a adiar a implementação das medidas de Trump. Alguns estão dispostos a apresentar queixa formal se considerarem as ordens do Presidente “inadmissíveis”. O Post escreve: “A resistência é tão precoce, tão transversal e tão profunda que já há altos funcionários que receiam a paralisação dos serviços e a desobediência frontal dos trabalhadores.”

900 diplomatas juntam-se no “canal dos dissidentes”

Novecentos diplomatas de carreira assinam um texto muito crítico da ordem executiva de Trump sobre refugiados e estrangeiros. O texto segue pelo “canal dos dissidentes” do Departamento de Estado, criado durante a Guerra do Vietname para garantir a contestação de políticas sem retaliação profissional. No mesmo dia, a American Foreign Service Association emite uma nota interna intitulada “What You Need To Know When You Disagree With U.S. Policy” sobre as protecções legais que os funcionários do Departamento de Estado têm e, pelo caminho, avisa que o protesto contra a política do governo, mesmo que temporário, pode levar ao despedimento.

Manifestação à porta de Chuck Shumer

Trump escolhe Neil Gorsuch para o lugar vago no Supremo Tribunal e uma hora depois já há protestos nas escadarias do Supremo e à noite o senador democrata Chuck Shumer, líder da minoria democrata no Senado, tem uma manifestação à porta da sua casa no Brooklyn. Em tempos normais, Gorsuch seria recebido como uma escolha razoável de um Presidente republicano: é conservador, anti-aborto e anti-eutanásia, mas defensor convicto da separação de poderes prevista na Constituição. Mas estes não são tempos normais.

Dia 13
Quarta-feira, 1 de Fevereiro

MoveOn.org mobiliza milhões

A MoveOn.org pede aos oito milhões de membros que escrevam aos senadores que estão indecisos sobre como vão votar na audição de Neil Gorsuch. “Os democratas que não se levantarem contra Trump”, disse à Time o director do grupo em Washington, “vão ser inundados por uma onda de indignação com a força de um tornado”.

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São várias as cadeias de lojas por todo o país que cancelam vendas de todos os produtos com a etiqueta Ivanka Trump

Dia 14
Quinta-feira, 2 de Fevereiro

Nordstrom cancela produtos de Ivanka Trump

A Nordstrom deixa de vender produtos da marca Ivanka Trump. Empresa diz que é por causa da baixa performance das vendas e que “fazer mudanças faz parte do ritmo normal do nosso negócio”. Mas ninguém acredita que o gesto não seja político. Trump confirma a suspeita com o seu tweet de protesto contra a Nordstrom.

Onda inédita de fugas de informação

Nunca vimos nada assim. Ao 14º dia da nova Administração, sem o clássico estado de graça, as fugas de informação são constantes e desconcertantes. Especula-se sobre o que esta inédita intensidade de fontes anónimas representa: são aliados de Trump que lutam pela sua atenção (e só o conseguem se os temas aparecerem nas notícias) ou são funcionários hostis ao novo inquilino da Casa Branca?

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Travis Kalanick, CEO da Uber, demite-se do fórum de empresários criado por Trump GettyImages

CEO da Uber demite-se do conselho de empresários

Ele próprio alvo de apelos ao boicote à sua empresa, o CEO da Uber demite-se do fórum de empresários criado por Trump. A explicação de Travis Kalanick: ter entrado no grupo não foi um endorsement ao Presidente, mas porque, “infelizmente, foi interpretado como sendo exactamente isso”, não vai poder participar.

Cardeal convida muçulmanos para a “sua” catedral

O cardeal Sean O’Malley de Boston — cidade de Harvard e do MIT, onde estudam 50 mil estudantes estrangeiros — sai à rua rodeado por líderes e membros da comunidade muçulmana do Massachusetts em protesto contra Trump. “É muito importante que as pessoas nos vejam aqui juntos, à mesma mesa, como amigos”, diz na cerimónia pública que organizou na Catedral de Santa Cruz.

South Park deixa de fazer humor com Trump

“A sátira tornou-se realidade”, diz Matt Parker, um dos criados da série South Park. Por isso vão deixar de fazer humor sobre Trump. “Eles já estão por todo o lado a fazer comédia.”

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600 manifestações e três milhões de pessoas na rua no segundo dia da presidência Trump GettyImages

Dia 15
Sexta-feira, 3 de Fevereiro

Juiz federal trava ordem de Trump

James Robart, um juiz federal do estado de Washington nomeado por George Bush-filho em 2003, suspende a ordem executiva de Trump. A sua decisão tem impacto nacional. Este é o agora famoso so-called judge (citando o tweet presidencial). Robart diz que não há provas de que a ordem sirva para “proteger os EUA de indivíduos vindos” dos sete países muçulmanos abrangidos e que o motivo invocado pela Administração – proteger o país do terrorismo – só seria admissível “se fosse baseado em factos, não em ficções”. O juiz argumenta ainda que a ordem de Trump prejudica os interesses do Estado e causa “danos irreparáveis” no “trabalho, educação, negócios, relações familiares e liberdade de viajar”. E que, não devendo os juízes interferir nas decisões políticas, são obrigados a garantir que “as acções dos outros dois poderes do Estado seguem as leis do nosso país e, mais importante ainda, a Constituição”. À saída do tribunal de Seattle, o procurador-geral Bob Ferguson é um homem feliz: “Somos uma nação regida por leis. Ninguém está acima da lei, nem o Presidente.”

Neiman Marcus cancela produtos de Ivanka Trump

A cadeia de lojas Neiman Marcus, que tem o nicho da moda de luxo, cancela a venda de jóias da marca Ivanka Trump, entre as quais uma pulseira de diamantes de 12 mil dólares.

Dia 16
Sábado, 4 de Fevereiro

Desobediência civil é tema de workshops

Numa igreja nos arredores de Washington D.C., 180 funcionários públicos participam num workshop organizado para dar aconselhamento sobre direitos laborais e desobediência civil.

Dia 17
Domingo, 5 de Fevereiro

Juízes negam pedido de Trump

Logo de manhã, os juízes da 9ª Circunscrição do Tribunal Federal de Recurso negam o pedido do Departamento de Justiça — entregue na véspera à noite — para a reintrodução imediata da ordem executiva de Trump (temporariamente suspensa por Robart).

Dia 18
Segunda-feira, 6 de Fevereiro

Cash para senador anti-Trump

O Comité para a Campanha pela Mudança Progressiva inicia uma campanha de angariação de fundos e reúne em poucos dias dezenas de milhares de dólares para apoiar Jeff Merkley, o senador que promete fazer um filibuster na confirmação para o Supremo Tribunal.

Democratas passam noite no Senado

Um grupo de senadores democratas passa a noite no Senado para tentar impedir a confirmação de Betsy DeVos como Secretária da Educação.

Belk retira produtos de Trump

Toda a roupa, sapatos e jóias de Ivanka Trump desaparecem do site da Belk, que tem 300 lojas em 16 estados.

Senado inundado de telefonemas

Uma avalanche de telefonemas cai sobre o Senado: muitos milhares de pessoas telefonam para os senadores dos seus estados a protestar contra a nomeação de DeVos, que promete acabar com o ensino público.

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Juízes Richard Clifton, William Canby e Michelle Friedland: A 9.ª Circunscrição do Tribunal Federal de Recursos ouve os argumentos a favor e contra a ordem de Trump

Dia 19
Terça-feira, 7 Fevereiro

9ª Circunscrição do Tribunal Federal de Recursos questiona ordem de Trump

Às três da tarde, o Presidente enfrenta o primeiro grande teste jurídico. A 9ª Circunscrição do Tribunal Federal de Recursos ouve os argumentos a favor e contra a ordem de Trump. A audiência é feita em conference call entre Seattle, Washington D.C., San José, Phoenix e o Hawai, onde estão os juízes e os advogados das partes litigantes (estado de Washington versus ministério da Justiça). Um juiz (William Canby) foi nomeado por Jimmy Carter, uma juíza (Michelle Friedland) por Obama e um (Richard Clifton) por Bush-filho. O advogado do governo, August Flentje, garante que foi feita uma avaliação dos riscos da medida e defende que os poderes atribuídos ao Presidente pela Constituição permitem-lhe impor a medida. O advogado diz também que foi Obama — e não Trump — quem escolheu os sete países incluídos na ordem e que bloqueá-la causará “danos irreparáveis” ao país. A juíza Friedland pergunta se o governo tem provas sobre esses “danos” e sobre as ligações dos sete países ao terrorismo. No passado, diz o advogado de Trump, o Congresso determinou que nos países em questão “há uma actividade terrorista significativa”. A seguir, o juiz Clifton pergunta se, tendo o país regras e procedimentos de controlo de entrada de estrangeiros, há razões para acreditar que “alguma mudança aconteceu" capaz de "criar um risco real” à segurança americana. A resposta de Flentje surpreende: o Presidente “determinou” que “há um risco real”. Clifton diz que a avaliação dos riscos “é bastante abstracta” e sublinha o paradoxo da tese da defesa: a ordem é necessária porque Obama era soft em relação à entrada de estrangeiros, mas essa mesma ordem baseia-se numa decisão de Obama que dificultou o acesso de estrangeiros desses mesmos sete países. O juiz Canby nota não há provas de actividade terrorista relativas a nenhum estrangeiro dos sete países da lista que tenha entrado nos EUA com um visto. “Poderia Trump escrever na sua ordem: ‘Não vamos deixar entrar muçulmanos’?”, pergunta.

Pence forçado a votar no Senado

Duas senadoras republicanas (Susan Collins do Maine e Lisa Murkowski do Alaska) juntam-se aos 48 senadores democratas no voto contra Betsy DeVos, deixando o Senado empatado. Formalmente, o vice-Presidente dos EUA é o Presidente do Senado e foi aí que Trump encontrou a solução para o desempate — enviou Mike Pence à votação. Na história americana, este poder constitucional foi exercido muitas vezes, mas nunca para nomear um ministro.

Dia 20
Quarta-feira, 8 de Fevereiro

Mais marchas e greves

As organizadoras da Marcha das Mulheres anunciam que vão montar uma greve geral contra Trump. As análises multiplicam-se. Poderá funcionar? Visto da Europa, não deixa de ser divertido ver como os americanos desconhecem o conceito de greve geral e desdobram-se em explicações, gráficos e infografias animadas. Não admira. Há mais de meio século que não há uma greve geral nos EUA. A proposta é chamar-lhe Dia Nacional da Oposição. Ninguém trabalha, ninguém viaja, ninguém gasta dinheiro. Há propostas para uma greve das mulheres a 8 de Março (Dia da Mulher), uma marcha de cientistas em Washington a 22 de Abril (Dia da Terra) e outra greve a 1 de Maio (Dia do Trabalhador).

Dia 21
Quinta-feira, 9 de Fevereiro

TJ Maxx e Marshalls cancelam Ivanka Trump

Os patrões das cadeias TJ Maxx e Marshalls enviam uma instrução escrita às suas duas mil lojas: deitem fora os anúncios e cartazes de promoção aos produtos de Ivanka Trump. "Com efeito imediato”.

9ª Circunscrição do Tribunal Federal de Recursos mantém suspensão

Os juízes da 9ª Circunscrição do Tribunal Federal de Recursos mantêm a suspensão do decreto de Trump, apoiando a decisão do tribunal de primeira instância. A decisão é unânime e os argumentos esmagam a tese do Presidente.

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Mais de mil pessoas juntam-se na praia Ocean Beach, em São Francisco, para desenharem com o corpo a palavra “RESIST!!” GettyImages

Dia 22
Sexta-feira, 10 de Fevereiro

Mensagem na praia

Mais de mil pessoas juntam-se na praia Ocean Beach, em São Francisco, para desenharem com o corpo a palavra “RESIST!!”. Assim mesmo, em letras maiúsculas e com dois pontos de exclamação. O protesto pacífico é organizado por Brad Newsham, um escritor de viagens de Oakland de 65 anos.

Dia 23
Sábado, 11 de Fevereiro

Sears e Kmart cancelam produtos Trump

Os gigantes Sears e Kmart retiram dos sites todos os produtos da linha Trump Home. Entre mobiliário, candeeiros e lustres, desaparecem 31 produtos para quartos de dormir e salas de estar.

Os frutos e as flores de Grab Your Wallet

O Wall Street Journal noticia que as vendas da roupa de Ivanka Trump caíram abruptamente na Nordstrom antes de a empresa cancelar a linha. Os timings da queda apontam para boicote político: os sapatos e roupas Trump caíram 70% na segunda, terceira e quarta semanas de Outubro (comparadas com período homólogo). Ou seja, logo a seguir ao vídeo no qual Trump diz a frase “grab by the…”, que dá origem à campanha Grab Your Wallet.

Dia 24
Domingo, 12 de Fevereiro

Grammys políticos

A noite de entrega dos Grammy foi dominada por referências e alusões a Trump. Jennifer Lopez abriu a cerimónia dizendo que “neste momento da nossa história, as nossas vozes são mais necessárias do que nunca” e as vozes fizeram-se ouvir. James Corden (a pop star do karaoke em car-pool) fez um rap e cantou “Live it all up because this is the best, and with President Trump we don't know what comes next” e disse que se alguém lesse um tweet negativo sobre a cerimónia é porque se tratava de um “fake tweet”. Katy Perry, grande apoiante de Hillary Clinton, usou uma braçadeira no braço a dizer “PERSIST”, numa provável referência à razão dada pelo senador republicano Mitch McConnell para calar a democrata Elizabeth Warren que, apesar dos pedidos para se deixar de falar, continuou a ler uma carta de Coretta King na audiência de confirmação de Jeff Sessions. “Nevertheless, she persisted”, justificou McConnell. Busta Rhymes, que se juntou à banda de hip-hop A Tribe Called Quest, agradeceu, repetidamente, ao “Presidente Agente Laranja” por ter unido o povo americano com a sua “maldade”. E Beyoncé disse que era importante “aprender com o passado” e “reconhecer a nossa tendência para repetir os erros”.

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Elizabeth Warren leu uma carta de Coretta King na audiência de confirmação de Jeff Sessions GettyImages

Espiões escondem segredos a Trump

O militar John Schindler, especialista em defesa, espionagem e terrorismo, ex-analista de contra-informação na Agência de Segurança Nacional e hoje professor no War College, escreve longo artigo no Observer onde diz que os serviços secretos estão a esconder informação à Administração Trump. Razão: desde 20 de Janeiro que há a convicção que o Kremlin “tem ouvidos dentro da Situation Room”, o centro de gestão de informação confidencial na cave da Casa Branca.

Saldos nos afiliados da Sears

Começam os saldos dos produtos da linha Trump Home à venda em lojas afiliadas da Sears. Um espelho Trump Home de mil dólares cai para 600. Os saldos da roupa da sua filha chegam são radicais: as peças são vendidas a um dólar.

Dia 25
Segunda-feira, 13 de Fevereiro

Lojas Burlington cancelam Ivanka Trump

A Burlington Coat Factory, grande cadeia especializada em preços baixos, deixa de vender Ivanka Trump na sua loja online.

Dia 28
Quinta-feira, 16 de Fevereiro

Um dia diferente — sem imigrantes

Por todo o país, restaurantes e cafés aderem ao Dia Sem Imigrantes. A ideia da greve é simples: os empregados estrangeiros não vão trabalhar para que fique claro como seriam os EUA sem imigrantes.

Antigo juiz republicano faz esboço para impeachment

Porque “cada dia que passa é um novo pesadelo”, um juiz reformado do Ohio que votou em todos os Presidente do Partido Republicano desde 1968 oferece-se para ajudar o seu congressista Steve Chabot, republicano, a escrever os artigos para iniciar um processo de impeachment contra Trump. Mark Painter não tem dúvidas: “Em nenhum momento na história, à excepção da nossa era pós-factual, um funcionário público, muito menos o Presidente, escaparia ileso às dezenas de incríveis ilegalidades que Trump fez até agora. Deve ser imediatamente destituído”, escreve.

Vai ser difícil substituir Michael Flynn

Ao fim do dia, mais um sinal da crescente resistência a Trump: Robert Harward, um almirante reformado, agradeceu o convite mas disse a Trump que não aceita o lugar de conselheiro nacional para assuntos de segurança. Entre a humilhação e o embaraço, Trump vai ter de escolher um terceiro nome.

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