“As instituições, regras e normas não funcionam por si próprias”

Jeffrey Anderson, director do centro de Estudos Europeus da Universidade de Georgetown (Washington DC), falou em entrevista sobre a resistência dos americanos a Donald Trump.

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Os americanos estão a encontrar modos de resistir a medidas que consideram injustas com grandes e pequenas mobilizações, diz Jeffrey Anderson, director do centro de Estudos Europeus da Universidade de Georgetown, em Washington DC, e membro do Partido Democrata, numa entrevista por Skype com o Público. Nos EUA, defende, os académicos vão ter de aumentar a sua actividade política para lutar por liberdades – e já deixou de ser possível manter a política fora do meio académico     

Como estão as instituições académicas a reagir à nova Administração, especialmente num centro de política externa?
Estamos muito cientes do que se está a passar e a atmosfera mudou de um modo profundo. Mas há coisas dentro e fora da sala de aula que são significativas e temos de ver como se vão desenvolver nos próximos meses. A maior onda de incidentes aconteceu logo depois de 8 de Novembro [dia das eleições]. Tem sido um verdadeiro desafio para muitos de nós. Dirijo um centro focado na Europa, a relação transatlântica está escrita na nossa carta de princípios, e agora temos um Presidente que questionou elementos chave desta relação.

O que significa em termos práticos?
Tenho a sensação de que vamos ser chamados a ser muito mais pró-activos em termos de debate político. Talvez para alguns colegas seja uma pressão maior, porque até agora tinha sido bastante fácil manter a política fora da sala de aula e fora das iniciativas institucionais, havia uma linha divisória clara. Penso que todos vimos essa linha esbater-se e até desaparecer durante a campanha. Em relação a quem estuda Europa, Médio Oriente ou América Latina, esta Administração está a questionar princípios fundamentais em que acreditamos. Podemos responder ou mantermo-nos calados — e muitos de nós estão dispostos a responder.

Como viu a publicação de um site com uma lista que tinha por objectivo denunciar “académicos liberais”?
Depois da eleição vários professores que parecem ter uma perspectiva crítica mais de esquerda receberam emails de pessoas fingindo ser alunos pedindo cópias dos programas – há sempre cursos destes, mais de esquerda, e devia haver, como deve haver do outro lado do espectro político – e muitos pensaram que havia um novo nível de percepção do que estamos a fazer [nas universidades]. Não acho que ninguém tenha prestado muita atenção a isto, tentámos rir-nos. Muito mais preocupante é a atribuição de verbas para áreas de investigação fundamentais, sobretudo no campo das alterações climáticas, desigualdade ou discriminação; áreas em que será muito mais difícil ter verbas governamentais. E estamos preocupados também com a liberdade académica. Muitos professores têm dado a sua opinião nas redes sociais, e receberam uma enorme reacção, com ameaças…

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E quanto à participação fora do mundo académico?
A marcha das mulheres [no dia a seguir à tomada de posse, a 21 de Janeiro] foi algo muito inspirador, mas todos sabemos que manter esse nível de participação durante muito tempo é impossível. Por isso, as pessoas vão começar a escolher onde vão dar o seu tempo. Conheço muitas pessoas – colegas, alunos, familiares – que estão a pensar a nível local, que podem fazer maior diferença na sua comunidade. Mas há trabalho a fazer também a nível nacional, por exemplo no Partido Democrata, ao qual pertenço. Quem estuda Política a qualquer nível sabe que instituições, regras e normas não funcionam por si próprias, funcionam porque as pessoas que as seguem reforçam-nas activamente, agem de acordo com elas. Se pensamos que podemos ir para um exílio interno nos próximos quatro anos e depois emergir para retomar o país para um futuro melhor – bom, isso não vai acontecer. Todos temos obrigação de nos envolvermos de algum modo.

A democracia americana é suficientemente forte?
Estas são questões que nunca nos colocámos, por isso é difícil responder. E este é um governo minoritário: mesmo que tenha muito poder, a sua base de apoio é menos de metade do público, ainda que se estejam a comportar como se tivessem o apoio de três quartos. Se deixarmos que isto aconteça, merecemos o que possa vir aí. Não devemos passar-lhes um cheque em branco e permitir-lhes liberdade de movimento ao longo do espectro político.     

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