Análise

Uma equipa de rivais

A demissão de Michael Flynn traduz uma derrota pesada dos russófilos “conservadores revisionistas”.

Num livro que se tornou famoso por ter figurado entre as leituras preferidas de Barack Obama na primeira campanha presidencial, Doris Kearns Goodwin explica que Abraham Lincoln criou propositadamente um gabinete constituído pelos seus rivais às primárias republicanas (um Team of Rivals). A ideia era replicar no seu gabinete as diferentes sensibilidades políticas e obrigá-las a chegar a um consenso, depois de longos debates entre posições opostas. Assim, terá pensado Lincoln, seria a forma de governar uma América tão dividida e de gerar concordâncias onde parecia impossível encontrá-las.

Com as devidas diferenças e por razões diversas, o governo de Donald Trump é uma casa tão dividida quanto foi a de Abraham Lincoln, compreendendo três grandes grupos: os “conservadores tradicionais”, os “conservadores revisionistas” e os “conservadores transacionistas”. Cada um representa uma facção política e uma visão da orientação externa dos Estados Unidos radicalmente diferente e em alguns casos irreconciliável.

Os “conservadores tradicionais” representam o consenso bipartidário alcançado no pós-II Guerra Mundial sobre a política externa dos EUA. Assim, consideram prioritária a manutenção da liderança mundial da América, muito em particular na Europa e na Ásia, sem esquecer o Médio Oriente; apoiam as instituições multilaterais criadas no essencial por Washington e que reflectem o seu poder internacional; defendem a manutenção do sistema de alianças permanentes e a presença militar do país no exterior; consideram as potências revisionistas como uma das principais ameaças estratégicas da actualidade — a par com a proliferação nuclear — e logo uma espécie de inimigos naturais dos Estados Unidos; olham para a Rússia — que consideraram a principal potência revisionista — como um adversário geopolítico e uma força desestabilizadora na Europa, no Médio Oriente e em partes da Ásia que tem de ser contida; percepcionam a ascensão da China como uma grande ameaça, mas a longo prazo e não no imediato, além de que esta está desde já rodeada por todos os lados por aliados da América. O nome mais proeminente deste grupo é o secretário de Defesa, James Mattis.

No extremo oposto, estão “os conservadores revisionistas”. Estes pretendem acabar com o referido consenso bipartidário em política externa com mais de 70 anos, o que passa por desfazerem-se completamente do que consideram ser as camisas-de-força que amarram o país: a obrigação de exportar os valores democráticos-liberais no exterior, as instituições internacionais, o direito internacional e as alianças permanentes. Na sua concepção de um mundo onde só contam os interesses — e não os valores —, a América é uma fortaleza — protegida por muros, dois grandes oceanos e o seu arsenal nuclear, que deve ser aumentado — isolada do que se passa nas outras regiões (incluindo a Europa) — e as parcerias devem ser entendidas caso-a-caso, consideram natural e indispensável uma aproximação à Rússia para combater o ISIS e o Islão radical, resolver a guerra na Síria e conter a China. Além disso, admiram Putin, que consideram um líder exemplar e com autoridade, que reconstruiu uma Rússia forte e capaz de defender os seus interesses. O ex-conselheiro de segurança nacional, Michael Flynn, era o cabeça de cartaz deste tipo de conservadores.

De permeio estão os “conservadores transacionistas”, como o secretário de Estado, Rex Tillerson. Estes entendem o mundo sobretudo numa lógica empresarial, e não geopolítica, olhando para os outros Estados mais como parceiros — ou inimigos — comerciais. Assim, não têm uma posição coerente e consistente sobre a política externa norte-americana, variando esta ao sabor das suas contradições. Por exemplo, a Rússia é entendida como um parceiro comercial desejável, mas um aliado geopolítico instável, o que explica a resposta atabalhoada à questão russa. Num dia é preciso trazê-la para o campo americano, no outro é-lhe exigido que saia da Crimeia anexada e que diminua a sua presença militar na região.

Estes três grupos estão actualmente envolvidos numa intensa luta pelo poder, sendo que o resultado final desta vai em larga medida determinar a estratégia externa da Administração Trump, desde logo a sua política relativamente à Rússia, assunto que está no epicentro das divisões entre os eles e que será essencial para determinar os vencedores e os derrotados.

A demissão de Michael Flynn, ao que tudo indica originalmente não por vontade de Donald Trump mas pela pressão conjunta da aliança entre o vice-presidente Mike Pence e os “conservadores tradicionais”, tem de ser entendida no contexto mais vasto desta luta e traduz uma derrota pesada dos russófilos “conservadores revisionistas”. Não por acaso, Flynn foi forçado a demitir-se na sequência de se saber que manteve contactos com oficiais russos, incluindo o embaixador em Washington, Sergei I. Kisliak, quer durante a campanha eleitoral, quer já depois desta, tendo chegado a discutir o levantamento das sanções à Rússia.

Ao contrário da “equipa de rivais” de Abraham Lincoln, que se manteve unida mesmo durante a crise mais grave da história dos EUA — a guerra civil —, a de Donald Trump está envolvida num conflito de facções e em sério risco de fragmentar-se à nascença. Ironicamente, o mesmo factor que contribuiu para a eleição da Administração Trump pode vir a ser o que provocará o seu desmoronar: o factor Rússia.