Centenas de detidos em rusgas a imigrantes indocumentados nos EUA

As entidades oficiais dizem que se trata de operações de rotina. Na última semana foram detidas centenas de pessoas, em rusgas diárias a casas e locais de trabalho.Teme-se que seja uma consequência das políticas anti-imigração de Donald Trump

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As políticas anti-imigração de Donald Trump são alvo de contestação nas ruas e nos tribunais LUSA/MIKE NELSON

Centenas de imigrantes sem documentos foram detidos em rusgas na última semana nos Estados Unidos, naquilo que o serviço de estrangeiros e fronteiras norte-americano descreve como "operações de rotina". Mas para famílias e apoiantes da imigração, dizem meios como o The New York Times (NYT) ou a Reuters, trata-se já de uma consequência das políticas anti-imigração do Presidente norte-americano Donald Trump.

Há, assim, registo de rusgas em casas e locais de trabalho em Atlanta, Chicago, Nova Iorque, Los Angeles e na Carolina do Norte e do Sul afectando centenas de pessoas, diz o The Washington Post (WP), a quem a porta-voz do Departamento de Segurança Interna, Gillian Christensen, disse tratar-se de “rotina”, rejeitando o termo “rusga”.

O jornal diz que activistas relataram rusgas também na Florida, Kansas, Texas e Virgínia, contrariando a versão oficial de que aconteceram apenas em seis estados. Não foram revelados os números totais de detidos, mas a Reuters escreve que o gabinete de Atlanta, que cobre três estados, prendeu 200 pessoas.

A Reuters fala num ressurgimento de operações de prisão de imigrantes sem documentos. O NYT menciona as várias referências em todo o país que têm surgido nas redes sociais e fala com a advogada de um grupo que presta serviços a imigrantes (Ayuda), que diz ter notado um aumento das rusgas que têm como alvo pessoas sem registo criminal a quem o Governo nunca prestou atenção.

Trump emitiu uma ordem para se ir atrás dos estimados 11 milhões de imigrantes sem autorização de residência e ameaçou deportar os cerca de três milhões que têm registo criminal, lembra o WP. O Presidente decretou que as acções do Departamento de Segurança Interna poderiam abranger pessoas sem registo criminal ou acusadas de pequenas ofensas, depois de a Administração Obama ter decidido que apenas iria ter como alvo quem já tivesse sido condenado, acrescenta o Post

Estas detenções são relatadas pouco depois do decreto do Presidente que barra a entrada a refugiados e cidadãos de sete países muçulmanos, cuja execução acabou por ser suspensa por um tribunal federal de Seattle e depois pela 9.ª Circunscrição do Tribunal Federal de Recurso, em São Francisco. Numa tentativa de contornar a decisão, Trump já disse que poderia criar um decreto totalmente novo.

O Immigration and Customs Enforcement, serviço de estrangeiros e fronteiras americano, insiste que as acções de fiscalização não representam um aumento e que só em 2012, ano em que houve mais deportações durante o mandato de Obama, segundo o NYT, foram deportadas quase 410 mil pessoas. As estatísticas desta agência mostram que há 960 mil pessoas com ordem de expulsão que não estão sob custódia, cita aquele diário americano.

Segundo o que o director do gabinete de detenção e deportação para a área de Los Angeles do serviço de estrangeiros e fronteiras americano afirmou à Reuters, apenas cinco das 161 pessoas detidas no Sul da Califórnia não teriam sido consideradas alvos prioritários para a Administração Obama. Dessas, só dez não tinham registo criminal e cinco já tinham tido ordem de expulsão do país.

“O medo que assola as casas dos imigrantes e dos americanos amigos de imigrantes é palpável”, disse entretanto à Reuters Ali Noorani, do National Immigration Forum. "Os registos de rusgas nas comunidades imigrantes são uma preocupação grave”, acrescentou o representante desta associação de defesa dos direitos dos imigrantes.

Medo e ansiedade

Para Michael Kagan, um perito em lei da imigração da Universidade de Nevada, em Las Vegas, ouvido pela Reuters, há a preocupação de que estas detenções sejam o princípio de uma política mais agressiva e de um aumento de detenções. Recentemente, a deportação de uma mexicana, que tem dois filhos e vivia há 20 anos nos EUA, provocou uma onda de indignação e levou o Governo mexicano a alertar aquela comunidade hispânica a permanecer em contacto com os consulados da sua região.

Mas um conselheiro da organização American Civil Liberties  Jonathan Blazer, lembrou ao NYT que as detenções durante o mandato de Obama foram “muito altas”. “O factor distintivo é que sob Trump há medo e ansiedade perfeitamente justificáveis”, disse. “Isso é definitivamente novo.”

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