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A novela russa não acaba com Flynn

Casa Branca sem respostas para as dúvidas levantadas pelas revelações de contactos entre a equipa de Donald Trump e o Kremlin.

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O Presidente dos EUA, Donald trump, criticou as fugas de informação dos serviços secretos Reuters/JOSHUA ROBERTS

Ninguém é mais adepto da táctica “a melhor defesa é o ataque” do que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que esta quarta-feira investiu através do Twitter contra as gargantas fundas dos serviços secretos norte-americanos – o FBI, a NSA?, quer ele saber – que estão a alimentar os jornais com informações “ilegais” sobre contactos entre o seu pessoal e o Kremlin para interferir, “de forma criminosa”, na política nacional. “Este disparate da conexão russa é uma tentativa de encobrimento dos muitos erros cometidos pela campanha perdedora de Hillary Clinton”, justificou o Presidente, que também é adepto de teorias da conspiração.

Até ver, a táctica de Donald Trump não está a resultar. Em vez de pôr fim à polémica, as justificações desconexas da Casa Branca, e as acusações do Presidente no Twitter, só vieram adensar as especulações e suspeitas sobre uma suposta influência de Moscovo sobre a Administração norte-americana – que segundo as notícias dos últimos dias ultrapassará o teor das conversas ad-hoc do ex-conselheiro nacional de segurança, Michael Flynn, despedido na segunda-feira.

O afastamento do ex-general levantou novas perguntas sobre as ligações do Presidente à Rússia – perguntas essas que por enquanto estão a ser feitas nos jornais mas podem, em breve, chegar ao Congresso. Sem respostas da Casa Branca, a liderança republicana pode não ser capaz de resistir à pressão para descobrir se Trump mandatou Michael Flynn para discutir um possível aligeiramento das sanções contra Moscovo com o embaixador russo em Washington.

O Presidente limitou-se a dizer que Flynn, um dos seus primeiros e mais leais apoiantes, foi tratado de forma “muito injusta”. “Ele é um homem maravilhoso e aquilo que lhe aconteceu foi muito, muito injusto, a maneira como ele foi tratado e os documentos e relatórios que foram divulgados ilegalmente e sublinho ilegalmente”, afirmou Trump aos jornalistas da Casa Branca, que logo a seguir notaram como o Presidente reacendeu a sua guerra contra os serviços secretos, ao designar as fugas como “criminosas”, “escandalosas” e “antipatrióticas”.

Em relação à Rússia, o Presidente lembrou que a anexação da Crimeia ocorreu durante a Administração Obama – “Será que Obama foi demasiado brando?”, atirou Trump, que não respondeu à escalada de Moscovo na Ucrânia logo após o seu primeiro contacto telefónico com Vladimir Putin.

O problema para a Administração Trump é que a “novela russa” não acaba com Flynn. Segundo o The New York Times e a CNN, vários outros membros da equipa de Trump estiveram em “contacto permanente” com dirigentes do Kremlin ao longo da campanha eleitoral, como provam chamadas interceptadas pelas agências norte-americanas no âmbito da investigação à interferência da Rússia nas eleições presidenciais. O diário sublinha que não foram encontradas provas de que o pessoal de Trump tenha colaborado, nomeadamente na pirataria ao Comité Nacional Democrata.

O Kremlin descreveu as notícias como “uma anedota” e os democratas do Congresso exigiram imediatamente a abertura de um inquérito. Por enquanto, os líderes da maioria no Senado e na Câmara de Representantes, bem como os presidentes dos comités com autoridade na matéria, têm mantido uma frente unida para travar as investigações que envolvam directamente o Presidente.

Mas começam a aparecer brechas na unidade republicana. O senador Bob Corker, que dirige o comité de Relações Exteriores, defendeu a inquirição de Michael Flynn no Senado. “Com todas estas dúvidas, precisamos de esclarecer exactamente o que se passou, porque obviamente temos um problema que é mais profundo do que suspeitávamos”, disse à MSNBC. O seu correligionário Lindsey Graham foi mais longe e pediu a constituição de um comité especial de investigação que possa punir “exemplarmente” seja quem for que venha a provar-se colaborou com os esforços da Rússia de interferência no processo eleitoral. “Isto é inaceitável”, considerou à ABC.

A instabilidade e o tumulto que se vive na Casa Branca dificulta a tarefa de encontrar um substituto para Michael Flynn. O Presidente convidou para o cargo o almirante na reforma Robert Harward, que foi um dos membros do conselho nacional de segurança do Presidente George W. Bush entre 2003 e 2005, e também serviu como vice do general James Mattis, agora secretário da Defesa, quando este dirigia o Comando Central dos EUA.

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