"Fazer xeque-mate sobre a questão da dívida não resolve os nossos problemas"

Ana Drago quer voltar à Assembleia da República, já não pelo Bloco de Esquerda, mas pelo Livre/Tempo de Avançar, para "influenciar a governação". Neste fim de semana, submete-se às primeiras eleições primárias para escolha de candidatos a deputados em Portugal.

Foto
Ana Drago Nuno Ferreira Santos

Saiu do BE e agora faz parte do Livre/Tempo de Avançar. Fê-lo através do Fórum Manifesto, corrente que se desvinculou do Bloco para, em conjunto com a Renovação Comunista, o MIC-Porto e o partido Livre, formarem a candidatura cidadã Tempo de Avançar. As forças políticas de esquerda não se têm conseguido entender?
Têm encontrado união nos momentos de denúncia. Mas é preciso ter coragem de fazer mais. É necessário assumir uma disponibilidade para encontrar, no próximo ciclo legislativo, uma plataforma para uma governação que perceba que o que está a ser destruído é fundamental para inventar um novo futuro. É necessário ter a coragem de dar um passo e assumir responsabilidades neste contexto. Estar disponível para trabalhar sobre um programa e sobre os compromissos necessários para encontrar um modelo de governo que saiba defender as nossas vidas, uma determinada concepção de país, justo, solidário.

Unir a esquerda contra a austeridade?
Unir e assumir responsabilidades. É um contexto muitíssimo difícil, ninguém tem dúvidas que há escolhas muito difíceis a fazer. Mas é necessário essa coragem neste momento.

O contexto é difícil e assumir responsabilidades também está a ser difícil ao Syriza e à Grécia. Portugal pode realisticamente ter um governo anti-austeridade?
Sim.

Mesmo com a pressão da Europa e depois de o PS ter abandonado o discurso de renegociação da dívida?
É fundamental quebrar um tabu na esquerda portuguesa que é este muro que se criou entre o PS e os partidos e forças políticas à esquerda do PS. Há uma lacuna óbvia na forma como António Costa tem tido dificuldade em falar sobre a questão da dívida e do Tratado Orçamental. Mas tem de haver uma discussão entre os partidos à esquerda para não permitir que o país se fragmente, se quebre em relações de solidariedade. E discutir com o PS o que é que isso significa num confronto com as instâncias europeias. Vamos ter de fazer escolhas muito difíceis e temos de estar disponíveis para esse confronto. Gostava de perceber melhor do lado do PS essa disponibilidade para confrontar a Europa em nome de um projecto de democracia em Portugal. E gostava de ver também nos outros partidos à esquerda a disponibilidade para esse combate. É necessário encontrar esses compromissos, fazer um confronto com a Europa, mas também percebendo que uma ruptura no quadro europeu, agora, não é um caminho fácil. Mas o debate fundamental é em torno do que queremos salvar do nosso modelo de democracia e defender na vida das pessoas.

A questão da Grécia vai prejudicar esta esquerda, mesmo a mais pragmática, no próximo acto eleitoral?
O confronto que existe hoje entre as instituições da União Europeia, o FMI e a Grécia é um confronto no sentido de retirar ao novo governo grego todo o seu espaço e toda a sua identidade. Não é uma tentativa de resolver o problema da dívida ou economia gregas. Vamos ter de tirar ilações desse processo. Mas não creio que se possa, a partir dos acontecimentos da Grécia, determinar todo o futuro da esquerda portuguesa.

Mas os portugueses que estão a acompanhar a situação na Grécia não podem ficar apreensivos?
Estamos todos apreensivos com os riscos de forçar a Grécia a sair do euro. Desde que começaram os chamados programas de ajuda, as instituições europeias mostraram que não estão a controlar a situação. Forçar a Grécia a uma saída da zona euro é colocar em marcha um processo que ninguém sabe como termina. O perigo de contágio e de uma desestruturação do projecto de integração europeia é real. Se a Grécia sai, ninguém sabe o que vai acontecer a seguir.

Não teme, por isso, que os portugueses votem em quem faz menos frente aos credores?
Não, porque estes quatro anos não resolveram o problema. Foi-nos dito que, se tivéssemos um ciclo de brutal austeridade, conseguíamos amortizar ou reduzir o peso da dívida e gerar crescimento económico e emprego. Não aconteceu. Não nos venham dizer que este é o caminho.

Um dos eixos da candidatura do Livre/Tempo de Avançar é a renegociação da dívida. Se não houver um entendimento com PS sobre essa questão, a maioria anti-austeridade não fica inviabilizada?
Uma das maiores dificuldades que temos nesta campanha eleitoral é ouvirmos falar verdade. A direita diz que está tudo bem, apesar do desemprego, da dívida, da emigração, de não haver perspectivas de crescimento económico. O PS diz que é possível não reestruturar a dívida, gerar crescimento económico e que, sem qualquer confronto no quadro europeu, vai correr tudo bem. Não é verdade. À esquerda do PS dizem-nos que há uma varinha mágica: reestrutura-se a dívida e também vai correr tudo bem. Também não creio que seja verdade. Os tempos que vamos passar vão ser muitíssimo difíceis, há escolhas a fazer que passam por um confronto com a política punitiva do quadro europeu.

O que defendem?
Precisamos de sustentar o acesso e qualidade aos serviços públicos. O tem acontecido no trabalho, com uma geração totalmente precária, é esfrangalhar um país. Temos de acertar agulhas para defender isto e fazer todos os confrontos necessários em nome disto. Creio que essas disponibilidades existem no contexto político do PS, do PCP e do BE. Fazer uma espécie de xeque-mate sobre a questão europeia como se fosse uma tentativa de excluir da plataforma de diálogo um ou outro partido, não resolve situação nenhuma na sociedade portuguesa. É preciso ter a coragem de estarmos um bocadinho acima de nós próprios, defender o estado social, sustentar a economia e criar emprego. Em torno disto, quem é que está disponível para conversar?

Portanto nesta questão da dívida, o Livre/Tempo de Avançar está disponível para fazer cedências em nome do Estado Social e da criação de emprego?
Exacto.

Mesmo que o PS mantenha o recuo em relação à reestruturação da dívida?
O que é importante discutir com o PS é se querem verdadeiramente criar emprego ou não. Quando dizem que querem assegurar o acesso e qualidade ao SNS estão a falar a sério ou é só uma bandeira? Criar emprego e sustentar o Estado Social: é em torno destas duas ideias que é necessário criar entendimentos.

Ainda não tiveram reuniões com os restantes partidos à esquerda e com o PS?
Não. 

As primárias do Livre/Tempo de Avançar são neste fim-de-semana. Pode haver surpresas, mas a grande expectativa é saber se será Rui Tavares ou Ana Drago a liderar a lista por Lisboa. Rui Tavares já foi eurodeputado, Ana Drago deputada na Assembleia da República. Está mais bem posicionada para captar votos?
Não. Estamos todos neste momento a caminhar no sentido de construir uma equipa com várias competências, valências. Aquilo que se costumava fazer à porta fechada, em pequenas reuniões dos partidos, que era compor as listas, é agora feito de uma forma participada. As pessoas são donas do processo político.

Em relação às presidenciais, vão referendar a escolha do candidato presidencial antes das legislativas?
Sim. Será necessário perguntar às pessoas se a candidatura deve ou não apoiar um candidato presidencial e, no caso de apoiar, quem deve ser.

Sampaio da Nóvoa?
Isso é uma interpretação sua.

Qual é o objectivo do Livre/Tempo de Avançar para estas legislativas? Quantos deputados querem eleger?
Quantos mais, melhor. Mas o Livre/Tempo de Avançar não surge só para colocar alguns deputados na Assembleia da República. Não vejo grande interesse nisso. Um dos problemas de uma esquerda que não quer assumir de uma forma corajosa uma responsabilidade sobre o futuro do país é discutir se ganha ou perde mais ou menos deputados.

Mas é preciso ter deputados para ter força para governar…
O que se pretende com esta candidatura é alterar a governação. Encontrar uma plataforma política que diga verdade aos portugueses sobre as escolhas muitíssimo difíceis que têm de ser feitas. E encontrar um mandato que defenda a vida das pessoas. Não se trata de ter uns quantos deputados, mas de ter a capacidade de alterar a governação. Nada menos do que isso.

Uma coisa depende da outra.
É para isso que estamos a concorrer à Assembleia da República. Não somos um think tank ou lobby.

É viável a candidatura influenciar a governação, ou seja, estar no governo, sem um mínimo de deputados?
Não se trata do governo, é alterar a governação. É mais profundo do que isso. Obviamente, queremos estar na Assembleia da República que é o órgão soberano das escolhas democráticas dos portugueses. Queremos ter a capacidade de alterar a governação e, em nome disso, queremos eleger o máximo de deputados possível, queremos ter toda a capacidade de influência naquilo que vai ser o novo governo a partir das legislativas de 2015.

Qual é o mínimo a partir do qual poderão ter alguma capacidade de influência?
Não vale a pena estar a ver essa espécie de apuramento do campeonato, não vejo grande interesse nisso, muito sinceramente. Nenhum de nós é megalómano, todos temos um sentido de realismo, de quais são as nossas forças e as dificuldades de uma força que começa recentemente. Não temos ilusões. Sentimos o entusiasmo, mas temos percepção de que as coisas não se alteram de um dia para o outro. Não faz sentido fazer cenários sobre número de deputados e participações em governo. Nós queremos alterar a governação e isto é muitíssimo ambicioso e corajoso.

Como é que alteram a governação na prática política? Através de voto na Assembleia da República, de estar presente no governo?
Tendo a capacidade de encontrar essa plataforma que defenda a vida das pessoas. Estando na Assembleia da República e tendo a capacidade de criar um diálogo com outros actores à esquerda. E sendo capaz de traduzir uma maioria social anti-austeridade numa plataforma de governo que permita uma governação anti-austeridade. Parece pouco, mas é muito.

Mas não afastam a possibilidade de participar no governo?
O que é bom nesta esquerda é que não existe nenhum tabu sobre assumir responsabilidade. Essas responsabilidades vão obviamente mexer com aquilo que são as nossas convicções, vamos colocar-nos numa situação em que podemos cometer erros. Quem assume responsabilidades, pode cometer erros. Apesar de todos os riscos e de termos a percepção de que esta é provavelmente uma das maiores crises da história democrática em Portugal, sentimos que temos de assumir essa responsabilidade. Portanto, aqui estamos. Queremos mesmo alterar a governação.

Se não eleger nenhum deputado, o Livre/Tempo de Avançar mantém-se?
Sim. É um movimento que tem força, que começa a ter enraizamento, que tem proposta política. 

Sugerir correcção
Ler 3 comentários