Estes países têm dificuldade em condenar a Rússia pela invasão da Ucrânia

Afinidades na oposição à NATO, dependência económica, posição geográfica, vários factores pesam na hora de tomar uma posição.

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"A Rússia é uma nação poderosa que não precisa da [ajuda militar] da China ou de outros países", disse a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Hua Chunying REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Se a condenação foi a reacção internacional mais comum à invasão da Ucrânia pela Rússia, alguns países tiveram uma posição que foi desde a neutralidade expressa pela Índia até uma condenação pouco convicta, como a da China, passando pelo apoio aberto de países da América Latina nos quais Moscovo tem uma forte influência económica, como a Venezuela.

“Sobre as sugestões norte-americanas de que a China está a apoiar a Rússia, tenho a certeza de que a Rússia gostaria de o ouvir”, disse nesta quinta-feira a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Hua Chunying. “Não seremos como a América que deu à Ucrânia uma grande quantidade de equipamento militar. A Rússia é uma nação poderosa que não precisa da [ajuda militar] da China ou de outros países”, acrescentou Hua, citada pelo Washington Post.

Mas até ter acontecido a invasão, a China condenava as sanções contra a Rússia e acusava os Estados Unidos e a NATO de estarem a instigar o conflito. “Se alguém continua a deitar óleo nas chamas enquanto acusa os outros de não se esforçarem para apagar o fogo, este comportamento é claramente irresponsável e imoral”, disse na quarta-feira a mesma Hua Chunying. Há indícios de que Pequim tenha sido apanhada de surpresa pela invasão russa da Ucrânia, dizem analistas ao Washington Post – era algo que não esperava que acontecesse realmente. Tanto que não fez qualquer esforço para retirar os seus cidadãos da Ucrânia.

Na vizinha Índia, a invasão russa da Ucrânia foi recebida com uma seca declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros anunciando que o país se mantinha “neutral”.

O Presidente turco Recep Tayyip Erdogan já há algum tempo que tentava assumir o papel de mediador do conflito com os dois países vizinhos, sem sucesso. Mas foi confrontado com um pedido da Ucrânia para que feche os estreitos do Bósforo e dos Dardanelos à passagem de navios russos. A resposta obrigará Ancara a tomar uma posição, o que deixa o Governo turco desconfortável. A Turquia, membro da NATO, prometeu uma decisão em breve.

A Sérvia está a ter problemas em definir a quem dar a sua lealdade – se ao bloco europeu, se à Rússia. Para este país, a Rússia é uma espécie de “irmão mais velho”, mas a entrada para a União Europeia é um objectivo nacional, e supõe-se que Belgrado alinhe as suas posições com Bruxelas. Mas recusou as sanções impostas pela UE à Rússia. Na quarta-feira o Presidente Aleksandar Vucic chegou a dizer que denunciaria a decisão da Rússia de reconhecer a independência das regiões separatistas ucranianas de Donetsk e Lugansk se o Presidente ucraniano Volodimir Zelensky condenasse os bombardeamentos da NATO contra a Sérvia na guerra de 1999, relata o site Euractiv.

Menos surpreendentes são as declarações dos governos de Cuba, Venezuela e Nicarágua, países que estão na vanguarda da influência russa na América Latina. “Querem cercar a Rússia, apontar-lhe todas as armas da NATO”, afirmou o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro. As relações estreitas entre Moscovo e Caracas têm carácter económico e militar: a Rússia emprestou cerca de 17 mil milhões de dólares à Venezuela desde 2006, segundo a Deutsche Welle. Grande parte deste crédito foi usado pela Venezuela para comprar armas russas.

Já no Brasil, o Presidente Jair Bolsonaro, que no dia 15 visitou Moscovo e expressou a sua “solidariedade” com o Presidente Vladimir Putin, manteve-se em silêncio. Foi o vice-presidente Hamilton Mourão que falou. “O Brasil não está neutro. O Brasil deixou muito claro que respeita a soberania da Ucrânia”, afirmou. O Ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu uma nota em que “apela à suspensão imediata das hostilidades e ao início de negociações conducentes a uma solução diplomática para a questão, com base nos Acordos de Minsk”.


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