Preocupado com plano de recuperação de aprendizagens, PSD quer mais meios e maior carga horária no próximo ano

PSD acusa ministro da Educação de “arrogância”, “propaganda” e de “indigência” pela falta de planeamento do próximo ano lectivo. David Justino diz que Governo “encheu o plano de milhões de euros mas as escolas estão ao Deus dará”.

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Nuno Ferreira Santos

Os sociais-democratas estão preocupados com o rumo que o Governo está a dar (ou não) ao plano de recuperação de aprendizagens porque consideram que o executivo se limitou a “encher o plano de milhões de euros” mas, a dois meses do início das aulas, ainda não deu qualquer indicação às escolas sobre como devem preparar o próximo ano lectivo.

“Os efeitos da pandemia são consideráveis nas aprendizagens dos alunos e preocupa-nos que, além do documento do Ministério da Educação sobre recuperação das aprendizagens, não se consiga identificar que medidas e acções estão a ser tomadas para que a recuperação se possa fazer no próximo ano lectivo”, afirmou David Justino numa conferência de imprensa nesta quinta-feira de manhã.

O ministro “publicou o documento, encheu-o de milhões de euros [900] mas as escolas estão ao Deus dará sobre o que é preciso fazer”, acrescentou o vice-presidente do PSD com a pasta da educação, vincando que nesta altura as orientações estratégicas já deviam estar publicadas para as escolas as poderem preparar. “O Governo agora só sabe falar em milhões de euros, na bazuca e no PRR. Mas este plano de aprendizagens não se resolve só com milhões.”

Entre as soluções apontadas pelo PSD está a realização de aulas extras. “Devia aproveitar-se os meses de Julho e Agosto para fazer alguma coisa”, defendeu David Justino, que vinca ser necessário um “plano de médio prazo”, com vários anos de duração e não apenas de dois, como pretende o ministério. Porque, adianta, muitos alunos dos dois primeiros anos não chegaram a aprender os códigos de conhecimento de ler e fazer contas que são fundamentais para toda a aprendizagem de futuro. Essa recuperação tem de ser feita ao longo de vários anos e “apenas mais umas horas no próximo ano não terão efeito nenhum”.

O deputado Luís Leite Ramos apontou as propostas do PSD: “avaliar e monitorizar” o que os alunos não aprenderam com provas; “mais meios” como professores e métodos de estudo de apoio; “mais carga horária, recurso a tutorias e acompanhamento” consoante as necessidades reais de cada escola e disciplina. Contrariando quem acusa o PSD de falta de soluções, vincou que o partido fez as suas propostas ao Governo através de um projecto de resolução na Assembleia da República — que foi chumbado há um mês com o voto contra do PS e a abstenção de BE, PCP, PAN e PEV — ainda antes de o executivo apresentar o seu plano.

Um dos problemas é a falta de professores em algumas disciplinas e o PSD considera que isso decorre da falta de planeamento do recrutamento e não da contratação: “Há grupos de docência em défice”, lembrou David Justino, defendendo que a solução é investir na formação superior de professores nas áreas em falta.

O vice-presidente do PSD realçou que o ministério “eliminou metas de aprendizagem deixando de haver qualquer referencial sobre objectivos do desempenho dos alunos”, ao mesmo tempo que baixou de forma acentuada os “níveis de exigência da escola” ao acabar com as provas finais. “Neste momento não temos nenhuma indicação [sobre as necessidades exactas dos alunos] porque deixou de haver instrumentos de avaliação e de desempenho com a eliminação das provas finais (…) que permitiam identificar quais os anos, os sectores e os alunos com maiores dificuldades”, apontou o vice-presidente do PSD. “É a mesma coisa que um médico deitar o estetoscópio pela janela e fazer tudo a olho”, ironizou.

Os sociais-democratas dizem mesmo que o “sistema está perto do colapso” e que o ministro, além da “arrogância” com que trata o Parlamento, só se preocupa com a propaganda. Uma referência ao anúncio de que o tamanho das turmas vai continuar a diminuir e que as taxas de insucesso e abandono escolar baixaram. David Justino aponta as explicações: a redução da exigência.

Com a pandemia, “a distribuição de notas foi enviesada para notas mais altas, o que ilude o sucesso, mas o insucesso continua lá subjacente. A forma de fazer baixar o insucesso escolar não é baixar o nível de exigência nem pressionar as escolas para passar os alunos.” David Justino avisa: “O que se perdeu nestes dois anos vai exigir mais empenho de todos — pais, alunos e professores terão de trabalhar mais.”