A repentina preocupação com as aprendizagens

Questiono-me sobre quem irá lecionar nessas escolas de verão? Quem as irá frequentar? Aqueles que já no dia-a-dia não valorizam nem a escola, nem o ensino e muito menos as aprendizagens?

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LUSA/HUGO DELGADO

A grande preocupação do momento em Portugal, no que à educação diz respeito, são as aprendizagens, ou no caso à perda destas aprendizagens por parte dos alunos.

Desde o primeiro confinamento e consequente fecho de escolas que a preocupação quase exclusiva tem sido a de evitar que os “alunos fiquem para trás”, que as aprendizagens sejam recuperadas o quanto antes. Soluções: programas de tutorias, aumento de dias letivos no calendário escolar, podendo reservar à recuperação as primeiras semanas de aulas.

Ora o que se está a fazer é o mais simples e sobretudo o mais económico, porque infelizmente a parte económica para a Educação tem sempre o peso decisor. Mas não é garantidamente o mais eficaz.

Mas recuemos um pouco, antes da pandemia, e façamos uma leitura atenta de como se encontrava o sistema de ensino no que toca às aprendizagens:

Observemos então o mais recente estudo internacional, Trends in International Mathematics and Science Study — conhecido por TIMSS, uma avaliação internacional, quadrienal, que monitoriza as competências dos alunos do 4.º ano de escolaridade, nas áreas de Matemática e Ciências. Na área da Matemática, os resultados foram desoladores para os alunos portugueses, que baixaram 16 pontos, em 2015, data da anterior avaliação em que tinham alcançado 541, agora ficaram nos 525. Há uma clara regressão nas competências adquiridas pelos alunos de dois ciclos — 2011-2015 e o de 2015-2019. Esta quebra é transversal aos vários domínios e fez com que no ranking internacional, Portugal, caísse oito lugares para a 21.ª posição em contraste com a 13.ª ocupada em 2015. Nota para o facto desta pontuação ser inferior à de 2011 (532).

Para a área de Português atentemos aos resultados das últimas provas de aferição do 5.º ano, realizadas em 2018, para manter a proximidade da faixa etária. Em ambos são visíveis as fragilidades nas áreas referidas. Ou seja, a pandemia pode de facto ter dificultado a aquisição das aprendizagens que já por si eram frágeis devido aos diversos problemas que assombram a escola, nomeadamente a pública, há anos.

O investimento, ou no caso específico o desinvestimento constante e sucessivo na Educação tem sido a principal causa para este descalabro educacional. No entanto, parece que só agora fez soar os alarmes dos “especialistas”. Os mesmos que queriam as escolas abertas cumprindo rigorosamente uma série de requisitos que, depois de abertas, passaram rapidamente para segundo plano.

O desinvestimento tem levado a que a escola pública seja cada vez mais uma fábrica de criação de desigualdades, discriminando sempre os mesmos, os mais desfavorecidos. Esta situação é frequente e evidente nas chamadas escolas em Território Educativo de Intervenção Prioritária (TEIP), onde a situação chega a ser escandalosa, muito por culpa das lideranças que ao constituírem turmas preferem ter mais turmas, mesmo que de multinível/mistas (mais do que um ano na mesma turma), e consequentemente mais vagas para professores, do que qualidade de ensino em meios já por si desfavorecidos. São opções que também não ajudam à criação de condições favoráveis à aquisição de aprendizagens.

Além disto há ainda outros problemas há muito identificados, mas que tardam a ser resolvidos, e que esses sim são verdadeiros e contínuos entraves à aquisição de novas aprendizagens, tal como: indisciplina; turmas numerosas; falta de professores; falta de condições ao nível das infra-estruturas que impossibilitam um ensino que seja diferente do tradicional; aulas maioritariamente expositivas; desvalorização da profissão docente; transformação da função primordial da escola, passando a ser quase em exclusivo o suporte socioeconómico, tornando-a desfocada do essencial, ensinar.

A iluminada ideia de escolas de verão segue a mesma linha de pensamento economicista, o facto de se achar que é sempre mais económico usar pensos rápidos para “tapar”, porque o penso não trata as desigualdades ao invés de tentar curar, nem que para isso se tenha de operar as várias maleitas de que padece a escola pública. Além disso, questiono-me sobre quem irá lecionar nessas escolas de verão? Quem as irá frequentar? Aqueles que já no dia-a-dia não valorizam nem a escola, nem o ensino e muito menos as aprendizagens?

É oferecendo mais aprendizagens que se combate o insucesso? Bem sei que este poderá ser o caminho mais fácil, mas não será de todo o melhor. E garantidamente a fatura final será superior.

A preocupação com a Educação, o ensino e as aprendizagens deve ser uma constante e não apenas agora que parece vir a ser um enorme negócio. É intelectualmente desonesto achar que a única causa da perda de aprendizagens seja a pandemia. Não é, e quem diz o contrário sabe-o melhor que ninguém!


O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico