Kim sai do congresso do partido com estatuto reforçado e sem receio de Biden

Tal como o pai e o avô, líder norte-coreano recebeu título simbólico de Secretário-Geral do Partido dos Trabalhadores. No congresso que terminou esta quarta-feira, Kim atirou a iniciativa de diálogo para as mãos de Washington, o seu “maior inimigo”, e de Seul.

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Kim Jong-un foi, naturalmente, o protagonista do congresso do Partido dos Trabalhadores Reuters/KCNA
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Líder coreano participou activamente nos trabalhos do congresso Reuters/KCNA

Num regime com as características daquele que impera na Coreia do Norte, em que o poder político, exercido de forma autoritária, está nas mãos de uma só pessoa, por direito dinástico e quase-divino, é difícil argumentar que a legitimidade do seu líder, Kim Jong-un, alguma vez esteve em causa.

Mas a atribuição ao líder norte-coreano do título de secretário-geral do Partido dos Trabalhadores, cujo congresso terminou esta quarta-feira, em Pyongyang, e todo o simbolismo que o mesmo acarreta, é um importante gesto de reforço do estatuto e da relevância de Kim na História de um país habituado a louvar e a glorificar os seus (poucos) protagonistas.

O pai, Kim Jong-il, e, antes dele, o avô e fundador da República Popular Democrática da Coreia, Kim Il-sung, também foram agraciados com esse título, que muito contribuiu para enfatizar a aura de misticismo que ambas as figuras carregam até aos dias de hoje.

Apesar de a atribuição deste título não ter merecido contestação e de a votação ter sido unânime entre os 4500 delegados presentes do 8.º Congresso do Partido dos Trabalhadores, os analistas olham para ela como a consolidação do poder de Kim Jong-un, que procura, ao mesmo tempo, esvaziar o debate sobre a sua sucessão, que aumentou de tom recentemente devido às especulações sobre o seu verdadeiro estado de saúde.  

“Esta conquista de Kim demonstra a confiança que tem, agora que se juntou oficialmente às fileiras do pai e avô. Também sinaliza a sua intenção estratégica de centralizar o sistema do partido à sua volta e de reforçar o domínio individual do poder”, considera Yang-Moon-jin, professor da Universidade de Estudos da Coreia do Norte, em Seul (Coreia do Sul), citado pelo Guardian.

Exército, economia e EUA

Distribuído por oito dias, o primeiro congresso do partido comunista em cinco anos e o segundo em 40 teve outros momentos altos, nomeadamente a insistência de Kim em fazer uma espécie de pedido de desculpas à população pelo falhanço da execução do último programa quinquenal – justificado com os prejuízos económicos da pandemia, com as sanções internacionais e com os desastres naturais (cheias e tempestades) de 2020 na Coreia do Norte.

Mas também a promessa de “fazer tudo o que puder” para “aumentar o dissuasor nuclear” do país e para “desenvolver maior capacidade militar”.

Igualmente relevante foi a posição assumida pelo líder norte-coreano em relação à nova Administração dos Estados Unidos, que será liderada por Joe Biden e entra em funções daqui a uma semana. 

Depois dos três encontros históricos (e mediáticos) com Donald Trump e de várias rondas negociais entre os dois países, que os aproximaram um pouco, mas que não tiveram impacto significativo na questão da desnuclearização da península coreana, Kim Jong-un lançou palavras bem duras na direcção de Washington – e de Seul – mesmo tendo em conta o tipo de comunicação tradicionalmente belicosa que o regime utiliza.

“As nossas actividades de política externa devem focar-se e serem direccionadas para subjugarmos os EUA, o nosso maior inimigo e o principal obstáculo ao nosso desenvolvimento inovador”, afirmou Kim, segundo a agência norte-coreana KCNA.

“Não importa quem está no poder nos EUA, a sua verdadeira natureza e as suas políticas fundamentais para a Coreia do Norte nunca mudam. A chave para estabelecermos novas relações dependerá da vontade dos EUA em abandonarem a sua política hostil”, acrescentou o líder norte-coreano.

Um editorial publicado no início da semana pelo Korea Times considerava que as palavras de Kim, mas também da sua irmã, Kim Yo-jong – apontada como eventual sucessora e que criticou a “abordagem hostil” da Coreia do Sul durante o congresso –, pretendem assumir uma posição mais defensiva e expectante, segundo a qual só haverá diálogo sobre as sanções e a questão nuclear se Coreia do Sul e EUA tomarem a iniciativa.

“A mensagem de Kim é a de que não será ele a aproximar-se primeiro do Sul e dos EUA, mas que se mantém aberto ao diálogo”, lê-se no editorial. “Com este gesto, Kim coloca a bola do lado de Seul e de Washington”.