Trump foi o primeiro Presidente dos EUA a pisar a Coreia do Norte – devia fazê-lo?

Os chefes de Estado dos dois países encontraram-se na Zona Desmilitarizada, na fronteira entre as Coreias e foi anunciado reatar das negociações sobre o programa nuclear de Pyongyang. Kim e Trump disseram que foi “histórico”, os analistas lançam alertas vermelhos.

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O momento em que Trump passa a fronteira para a Coreia do Norte na Zona Desmilitarizada Kevin Lamarque/REUTERS
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Nunca nenhum Presidente norte-americano em exercício tinha pisado solo norte-coreano EPA/YONHAP
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O aperto de mão entre os dois dirigentes EPA/YONHAP
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Trump celebrou momento "histórico" Reuters/REUTERS TV
Trump e o Presidente sul-coreano visitaram a zona desmilitarizada
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Trump e o Presidente sul-coreano visitaram a zona desmilitarizada Reuters/KEVIN LAMARQUE

Cruzar a fronteira na Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias, que tecnicamente continuam em guerra desde 1953, foi tão fácil para Donald Trump como subir um passeio. Mas foi o primeiro Presidente norte-americano em exercício a fazê-lo, para apertar a mão ao líder norte-coreano, e prometer retomar as negociações bilaterais sobre o desmantelamento programa nuclear e de armamento do isolado regime comunista.

“Foi feita história”, disse Donald Trump numa declaração aos jornalistas, ao lado de Kim Jong-un, um dia depois de ter feito o inesperado convite, pelo Twitter, para se encontrarem na povoação de Panmunjom. “Ao encontrarmo-nos aqui, que é um símbolo de divisão, ao se encontrarem aqui dois países que têm um passado hostil, estamos a demonstrar ao mundo que temos um novo presente”, afirmou, por seu lado, o líder norte-coreano.

Ainda antes de Trump passar a linha de demarcação militar que separa as duas Coreias – com quatro metros de largura e 241,4 km de comprimento –, Kim disse, em inglês: “É bom revê-lo.” E acrescentou que nunca esperara ver o Presidente dos Estados Unidos “neste sítio”.

“Há um motivo pelo qual os Presidentes norte-americanos nunca foram à Coreia do Norte quando estavam em funções: essas visitas legitimariam os Kims”, sublinhou, no Twitter, Jean H. Lee, a jornalista que abriu a primeira delegação da Associated Press em Pyongyang, em 2012, e que agora dirige o Centro da Coreia no Wilson Center. “Há o risco de que estes momentos de propaganda reforcem Kim Jong-un, tanto internamente como no exterior. Pode usar as imagens de Trump a atravessar a fronteira para a Coreia do Norte para lhe apertar a mão como ‘prova’ de que os EUA reconhecem o seu país como um Estado com armas nucleares”, explicou.

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O momento em que Trump passa a linha militar que divide as duas Coreias Kevin Lamarque/Reuters

Desde que as negociações entre Trump e Kim colapsaram, em Fevereiro, na cimeira de Hanói – porque os EUA se mantiveram intransigentes quanto às sanções aplicadas à economia norte-coreana – que o líder norte-coreano se tem esforçado para voltar a encontrar-se com o Presidente norte-americano, e para mostrar a Washington que terá de ceder em algum ponto na questão das sanções para ter cedências de Pyongyang. Foi para isso que serviram, em grande parte, as cimeiras de Kim Jong-un com os Presidentes russo e chinês.

Para Kim, este inesperado convite de Trump, que ainda por cima veio ao seu território, é um presente caído do céu. Trump disse que as sanções vão continuar, mas sugeriu que Washington poderá estar disposto a fazer algumas concessões em troca de medidas avulsas da Coreia do Norte de desnuclearização, sem que haja uma política coerente nesse sentido – algo que os EUA sempre recusaram fazer até agora. Os dois líderes acordaram nomear negociadores para prosseguir os contactos.

O encontro foi classificado como “histórico” por ambos os líderes. Mas os analistas são mais cépticos. “Só será histórico se levar a negociações sobre a desnuclearização, um acordo com condições verificáveis e um tratado de paz. De outra forma, não passará de umas fotos simpáticas”, escreveu no Twitter Victor Cha, analista do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington e professor na Universidade de Georgetown. “Não sou contra a diplomacia, mas isto é reality tv. #Fake diplomacy que dá trunfos domésticos triviais nos EUA, na Coreia do Norte e na Coreia do Sul, e ao mesmo tempo legitima o regime abusador dos direitos humanos e que viola as regras das armas nucleares.”

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Para este encontro poder de facto ser histórico, é preciso que dê origem a algo palpável, sublinhou no Twitter Robert E. Kelly, da Universidade Nacional Pusan, na Coreia do Norte. “A Coreia do Norte irá ceder algumas armas nucleares ou mísseis? Conseguiremos enviar inspectores à Coreia do Norte? E os EUA, vão ceder alguma coisa em troca? E o que será? E o Partido Republicano no Congresso aceitará o que for acordado?”, interrogou.

Ouça aqui o podcast P24: