Coreia do Norte: mistério em torno da saúde de Kim reaviva debate sobre a sua sucessão

Familiares, militares e dirigentes comunistas podem entrar na equação para a passagem de testemunho, em caso de morte ou ausência prolongada do ditador, dizem analistas. Mas a natureza obscura do regime alimenta todo o tipo de especulações.

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Kim Jong-un não é visto em público desde 11 de Abril Reuters/Athit Perawongmetha
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Kim Yo-jong, irmã de Kim Jong-un Reuters/Jorge Silva
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Kim Jong-un, num passeio a cavalo recente Reuters/KCNA
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Encontro entre Donald Trump e Kim Jong-un, na fronteira entre as duas Coreias Reuters/KCNA KCNA

Poucos países têm tanto a esconder como a Coreia do Norte. Apesar de algumas iniciativas mais recentes de levantamento do véu sobre o que lá se passa, particularmente na capital, Pyongyang, a República Popular Democrática da Coreia ainda é um espaço em branco no mapa asiático e mundial. Numa altura em que se adensam as dúvidas sobre o estado de saúde de Kim Jong-un, a ditadura dinástica de inspiração comunista e semidivina que a governa não fornece respostas suficientes sobre quem pode suceder ou substituir o Líder Supremo, em caso de ausência prolongada, incapacidade ou mesmo morte.

Antes de Kim Jong-un, mandou o pai, Kim Jong-Il, e antes dele, o avô e fundador do regime, Kim Il-Sung, pelo que, em teoria e de acordo com a sua dimensão mitológica, a passagem de testemunho envolve a família Kim. Mas os analistas acreditam que há militares e altos quadros do Partido dos Trabalhadores da Coreia que podem entrar na equação, se estiver em causa uma delegação temporária ou transitória de poderes ou mesmo a falta de candidatos familiares óbvios.

Somando à natureza obscura da Coreia do Norte a sua vasta colecção de inimigos, a estrutura de poder altamente militarizada, o estilo bélico de comunicação e a obsessão pelo desenvolvimento de armamento nuclear e balístico, o tratamento que o país merece não é, definitivamente, o mesmo que se empregaria a um espaço em branco, mas a um actor internacional imprevisível.

Os níveis de curiosidade e especulação multiplicaram-se nos últimos dias depois de o Daily NK – um site sobre a Coreia do Norte gerido por dissidentes que fugiram para a Coreia do Sul – ter revelado que o desaparecimento de Kim do espaço público desde 11 de Abril e a sua ausência nas comemorações do 108.º aniversário de Kim Il-Sung, dias depois, estavam relacionados com uma operação cardiovascular a que foi sujeito e que o teria deixado em estado grave.

A partir daí atropelaram-se os diagnósticos, os relatos e as conjecturas sobre a saúde e o paradeiro do ditador. A estação televisiva HKSTV, de Hong Kong, noticiou que Kim morreu, a revista japonesa Shukan Gendhai disse que estava em estado vegetativo e o site 38 North especulou sobre a sua presença na estância balnear de Wonsan, alimentando versões sobre se estaria em recuperação pós-operatório, a proteger-se do novo coronavírus ou simplesmente de férias.

Ao mesmo tempo, os governos e os serviços secretos chineses, sul-coreanos, japoneses e norte-americanos travaram as especulações sobre o estado físico de Kim. Mas assumiram, no entanto, ter redobrado a atenção. A China, principal aliada dos norte-coreanos, enviou mesmo uma comitiva à Coreia do Norte e o silêncio sobre o propósito da missão acrescentou mais uns pontos de interrogação ao mistério. Estará o regime a esconder alguma coisa?

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“Kim preside a um pequeno império nuclear. Uma disputa interna de poder poderia ser catastrófica”, alertou o editor da revista Diplomat, Ankit Panda. “A âncora do Estado norte-coreano manifesta-se na pessoa de Kim. Se a sua saúde estiver inquestionavelmente frágil, o seu regime também estará. Devemos preparar-nos para o pior”.

Exército, família e partido

Na verdade, esta não é a primeira vez que Kim Jong-un desaparece dos radares. No início deste ano esteve 21 dias sem aparecer em público e em 2014 esteve mais de um mês ausente. Mas a sua condição de saúde foi sempre fonte de curiosidade, ou não se tratasse de um homem que se acredita ter 36 anos, mas que já teve de usar bengala, que é um fumador compulsivo e que tem um histórico familiar de problemas cardiovasculares – chegou ao poder em 2011 depois de o pai morrer com um ataque cardíaco.

Durante essas ausências, no entanto, pouco ou nada se notou de diferente na gestão diária dos destinos da Coreia do Norte. Uma fonte dos serviços de informação dos Estados Unidos garantiu à Newsweek que, também desta vez, não foram registadas quaisquer actividades militares ou nucleares fora do padrão. 

Joseph Siracusa, professor de Diplomacia e Estudos de Segurança na universidade australiana RMIT, em Melbourne, acredita que esta realidade atesta a importância dos militares no aparelho de Estado norte-coreano e faz deles uma “peça-chave” num qualquer cenário de transição de poder.

“Kim não governa sozinho, sempre o fez em conluio com o Exército. Se estiver alguma coisa a acontecer, os militares estarão a manobrar”, disse o académico norte-americano à Sky News australiana.

Seguindo a lógica sucessória norte-coreana, os filhos de Kim Jong-un estão na linha da frente para lhe suceder, se for caso disso. Acredita-se que o líder coreano tem três filhos, mas que o mais velho tem apenas dez anos. Nesse sentido, a pessoa mais bem colocada para assumir o poder é a irmã mais nova do ditador, Kim Yo-jong, que o pode fazer numa lógica de regência, até o rapaz atingir a maioridade.

Com 31 anos, Kim Yo-jong tem vindo a subir na hierarquia do partido e a aparecer com mais frequência junto ao irmão, em acontecimentos públicos. Segundo a Reuters, foi vice-líder do Comité Central do partido único, serviu como chefe de gabinete de Kim Jong-un e é, desde há umas semanas, membro suplente no Politburo. 

Contra si tem, no entanto, um partido e uma sociedade profundamente patriarcais, onde há poucas mulheres em cargos e posições de topo. “Ela pode aparecer para fazer a ponte, mas numa sociedade tão reaccionária é difícil que a aceitem como sucessora”, defende Siracusa.

O círculo familiar mais próximo inclui ainda Kim Jong-chol e Kim Kyong-hui. O primeiro, irmão mais velho do ditador, abdicou há muito da vida pública, mas pode ser uma solução temporária. A segunda, tia e irmã de Kim Jong-Il, dificilmente será considerada, tendo em conta que Kim Jong-un mandou executar o seu marido em 2013, por receio das suas ambições de poder.

É precisamente aqui que entram na equação nomes fortes dentro do Partido dos Trabalhadores e do Exército. Tais como: Choe Ryong-hae, militar, presidente da Assembleia Popular Suprema e chefe de Estado – apenas no papel – da Coreia do Norte; Pak Pong-ju, ex-primeiro-ministro e membro do Politburo; Ri Son-Gwon, militar e ministros dos Negócios Estrangeiros; ou Kim Yong-chol, vice-presidente do partido.

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