Kim Il-sung não está entre nós

Pode-se nascer e viver uma vida inteira sem nunca duvidar que o líder da Coreia do Norte é um deus. Lee Kyeong teve de vir para o Sul para perceber que deus não está ali

Hoje os norte-coreanos estarão a celebrar o 101.º aniversário de Kim Il-sung. Em dias como este, as crianças recebem guloseimas. Lee Kyeong lembra-se bem disso. "Vêm em saquinhos com uma mensagem: "Come tudo. E depois agradece ao Grande Líder"." Não era difícil comer tudo. Passou a maior parte da infância a procurar ervas nas montanhas para ter alguma coisa no estômago, apanhar paus para vender, ajudar os pais no campo - "apesar de ser uma criança pequena, era considerada uma trabalhadora". Às vezes não havia mesmo o que comer. "Três dias seguidos sem nada". Hoje os norte-coreanos estão a festejar, mas esta jovem de 28 anos celebra outra coisa. Ela e outros refugiados juntam-se aos domingos numa igreja presbiteriana em Seul. Trocaram deus por Deus. Na Coreia do Norte era a Kim Il-sung e à sua descendência que tinham de prestar devoção. E era sincera. Mas agora estão no Sul, a realidade é outra. E encontraram Jesus Cristo.

Kyeong nunca tinha ouvido falar de Jesus até vir para o Sul. "A religião ali é o Kim Il-sung", diz. "Ele não era um homem, era um deus. Metade homem, metade deus. Costumávamos acreditar mesmo nisso".

Quando o actual líder Kim Jong-un, neto de Il-sung e filho de Jong-il, subiu ao poder, depois da morte do pai, já Kyeong estava em Seul. De qualquer maneira, ela acha que as coisas estão a mudar. "Mesmo com a lavagem ao cérebro que ainda fazem, já não acreditam tanto, porque vai chegando alguma informação de fora". Canta uma música de louvor ao fundador, uma canção que hoje milhares de crianças deverão estar a cantar, mas tem que consultar o seu smartphone Samsung para tirar dúvidas sobre a letra.

A igreja é na verdade uma escola. Os cinco mil membros tinham dinheiro para um templo moderno, mas decidiram usá-lo para garantir o ensino a crianças com autismo, e aos domingos as salas transformam-se em locais de culto. Um dos espaços está reservado aos norte-coreanos, que às 12h30 fazem um serviço. O pastor apresenta uma rapariga que acabou de conseguir trabalho. Salva de palmas. Fala depois de outro que foi para os EUA. Salva de palmas. "Vamos fazer da sessão um mote para a reunificação da Coreia" (dividida desde 1945), diz. Há gente de todas as idades, umas com a Bíblia na mão, outras com papéis. Bebe-se café em copos de papel. Num canto está um piano, que acompanhará os cânticos ("Por favor, ajuda-me a viver com sinceridade e santidade"), uma bateria, uma guitarra. O encontro vai acabar com um abraço.

Um privilegiado

Kim Tae-song, de 62 anos, também acreditava na religião. "Uma religião de uma ditadura do proletariado juntamente com uma ditadura de Kim Il-sung". Kim Tae-song (deu um nome falso, porque a mãe vive no Norte) tinha até "uma vida confortável". Era engenheiro e trabalhava para o Exército, era oficial. "Recebíamos armas da China e da Rússia, tanques por exemplo, mas depois era preciso adaptá-las a um terreno montanhoso. Eu fazia isso. Adaptava o armamento às necessidades". Era um privilegiado porque não ganhava mal para os padrões, vivia num local de elite, podia não participar nas paradas e ganhava assim um feriado. "Não havia muita gente que tivesse a minha instrução".

Mas tudo mudou quando o seu pai desertou, em 1973, ficando ele com o fardo de ser o filho de um traidor da nação. "Imagine no seu país que há um homem que violou alguém. Vai preso, depois sai, e quando vai na rua, como é que as pessoas olham para ele? Era assim que olhavam para mim". Deixou de ser promovido. Foi mandado para outra região. Já sabia que a religião de Kim Il-sung era um engano porque anos antes, em 1987, tinha conseguido arranjar maneira de visitar o pai na China. Mesmo não sendo nem de perto nem de longe o país que é hoje, já era "muito melhor" do que a Coreia do Norte. Essa foi uma das razões que o fez sair. A outra foi a grande fome dos anos 1990. Também ele ficou três dias sem comer, conta pausadamente, enquanto mexe com as suas enormes mãos na chave de um carro que terá à porta (continua a ser engenheiro, trabalha agora para uma empresa de purificação de água). "A única forma de resistir é saindo. No Sul podemos ir para a rua fazer manifestações. No Norte, só nos resta a deserção".

Vendeu então tudo o que tinha: utensílios de cozinha, roupas, mobília. Ele, a mulher e os três filhos vieram, um a um, para o Sul, via China.

Nada para vender

Kyeong não vendeu nada, porque nada tinha - ninguém daria um cêntimo pelas suas duas mudas de roupa. Foi há anos-luz de como a vemos agora: cabelo pintado e apanhado em rabo-de-cavalo, pequenos brincos dourados, anel no dedo, unhas suavemente pintadas; calças de ganga e camisa aos quadrados, ténis nos pés.

Vivia na província de Hambuk, no Norte da Coreia do Norte. A distribuição de comida parou depois da morte de Kim Il-sung e piorou a vida a muitos, ela e a família incluída. A situação agravou-se ainda mais quando o seu próprio pai morreu. A mãe casou-se com um chinês que lhe gastava o pouco que ganhava; tinha que pedir dinheiro emprestado e às vezes fugir de quem ia procurá-la a casa para cobrar as dívidas. Houve um dia que não voltou. A filha percebeu assim que ela tinha fugido para a China.

Um ano e meio depois, Kyeong foi procurá-la. A oportunidade apareceu quando um homem lhe propôs tomar conta de uma criança no outro lado da fronteira. Não havia criança nenhuma, o homem (que ela não duvida que seja um traficante de mulheres) tinha-a enganado. Mas havia uma família, com um restaurante onde era preciso trabalhar enquanto houvesse serviço para fazer. Era assim para todos, seria assim para ela também, que a partir dali era um deles. De tal forma que a ideia era a seguinte: Kyeong iria para o Sul onde conseguiria a nacionalidade sul-coreana, para depois voltar e casar com um dos membros da família. "Eu morria de medo porque não tinha nenhuma documentação na China, podia ser presa a qualquer instante. Tinha um medo constante". Foi a família quem pagou cinco milhões de won a um intermediário (mais de 3300 euros) para a levar para o Sul, onde chegou em 2007.

Em Seul, não foi só a nacionalidade que recebeu. Teve também uma bolsa do Governo para estudar, porque só tinha feito a primária. "O nível aqui era muito mais exigente". Está a tirar uma pós-graduação em língua coreana: "O meu sonho é que a Coreia seja reunificada. Quando isso acontecer quero poder ajudar as pessoas com as diferenças linguísticas - temos o mesmo vocabulário, mas usamos de maneira diferente".

"Quando cheguei, a sociedade era tão diferente que fiquei confusa sobre a minha própria identidade... O Sul é muito mais sofisticado, há tudo. Lá, éramos tratados como animais e a nossa existência resumia-se a procurar comida para conseguir sobreviver. Aqui, podemos planear um futuro. Mas esse planeamento também exige muita organização, muito trabalho. No Norte era mais simples e é dessa simplicidade que sinto falta".

Foi preciso esperar muitos anos, mas Kyeong Lee encontrou finalmente a sua mãe. Juntaram-se em Seul.

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