António Costa estica a corda: sem acordo “não há Orçamento e há crise política”

Na segunda parte da entrevista ao Expresso, o primeiro-ministro insiste que o acordo que quer é com a esquerda e com o PAN e não com o PSD.

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António Costa em São Bento daniel rocha

A subsistência do Governo não dependerá nunca de um entendimento com o PSD. É com os antigos parceiros de solução governativa, e com o PAN, que o primeiro -ministro quer convergir. "Seria uma perda que o formato e o âmbito fossem distintos do que tivemos em 2015. Desta vez, precisamos até de o alargar ao PAN”, disse António Costa na segunda parte de uma entrevista ao Expresso que é publicada neste sábado. Sem acordo, não há Orçamento e “há uma crise política”, avisou o chefe do Governo. 

Há dois dias que o Presidente da República vem rejeitando crises políticas, em declarações que parecem agora ter como objectivo responder ao primeiro-ministro. “Quem ganha com isso? Ninguém”, perguntou e respondeu Marcelo Rebelo de Sousa na sexta-feira, na Feira do Livro do Porto, lembrando que não pode haver eleições antecipadas no último semestre do seu mandato (a partir de 8 de Setembro).

Os jornalistas que entrevistaram o primeiro-ministro quiseram saber o que acontecerá se o Governo não chegar a acordo com o BE, o PCP, o PEV e o PAN. “Há mais risco de haver austeridade?”, perguntaram. António Costa deu a resposta que Marcelo Rebelo de Sousa adivinhou. “Se não houver acordo, é simples: não há Orçamento e há uma crise política. Aí estaremos a discutir qual é a data em que o Presidente terá de fazer o inevitável.”

Costa insistiu que os “parceiros naturais" do executivo são os que em 2016 ajudaram a virar a página da austeridade, devolvendo a confiança ao país. "Seria um erro enorme para a esquerda portuguesa não compreender que esta é a oportunidade histórica que tem de não só responder à crise como de o fazer com uma visão de ambição, de requalificação estratégica”, disse.

No momento actual, e apesar de a aritmética lhe permitir a viabilização do orçamento apenas com o apoio do Bloco de Esquerda, Costa rejeita-o. “Não estou aqui a traçar linhas vermelhas nem a dar oportunidade a ninguém para que se possa pôr de fora.”

Quanto a uma aproximação ao PSD, o primeiro-ministro também não deixa lugar para dúvidas. “Já disse muito claramente ao PCP e ao BE que não vale a pena ter esse sonho da construção de blocos centrais. E é manifesto que o PSD já disse que não os quer. (...) Já expliquei com muita clareza: esse sonho não se vai realizar. No dia em que a subsistência deste Governo depender de um acordo com o PSD, nesse dia este Governo acabou”, esclareceu.

Se o PSD quiser dar o seu apoio ao orçamento, ele não será rejeitado, mas o primeiro-ministro nada fará para o conseguir. “Não vou pedir ao PSD que vote contra nem que se abstenha. O que quero deixar muito claro, e já o deixei ao PCP e ao BE, é que, se sonham que vão colocar o PS na condição de ir negociar com o PSD a continuação do Governo, podem tirar o cavalinho da chuva, pois não negociaremos à direita a subsistência deste Governo”, repetiu.

Uma das razões para o executivo rejeitar entendimentos com o PSD tem a ver com aquilo que o primeiro-ministro entende ser a "deriva do PSD para áreas da direita populista”. “O PSD está neste momento numa deriva estranha que faz com que o dr. Rui Rio e inúmeros dirigentes do PSD tenham passado a considerar o Chega um parceiro normal de diálogo político e até de coligação autárquica — ou sabe-se lá se a outro nível”, disse.

Questionado sobre até que ponto as posições do Chega o preocupam do ponto de vista sistémico, Costa respondeu: “As posições do Chega são radicalmente distintas das minhas posições e da minha visão do mundo. Acho que o Chega corresponde a um fenómeno que existe na política a nível mundial, da valorização de áreas de descontentamento, de desconforto, seja por causa de corrupção, por crises sociais, para através de um discurso populista ter uma visão autoritária, xenófoba, racista e perigosa para a democracia.” 

Ministros devem ter “dever de reserva” sobre presidenciais

Na parte da entrevista dedicada às presidenciais de 2021, António Costa repete que o esperado é que António Costa esteja em Belém daqui a um ano, mas explica que dizer isso não é o mesmo que dar-lhe apoio. No máximo, poderia ser considerado auto-confiança excessiva. “A única coisa que podia ser acusado era de um excesso de autoconfiança de que eu ainda estaria cá naquela altura”, disse o primeiro-ministro.

Depois de acrescentar que “se Marcelo não fosse candidato havia um problema grave no conjunto do país”, porque os portugueses sentem-se confortáveis com o Presidente que têm, Costa defendeu dever de reserva para os governantes relativamente a este assunto, no que surge como um recado a Pedro Nuno Santos.

Os membros do Governo devem ter em relação às presidenciais um particular dever de reserva, tendo em conta aquilo que é a relação que o Governo deve manter com o próximo Presidente, com quem teremos de conviver muito tempo”, defendeu.

Noutra referência, esta directa, a Pedro Nuno Santos, que disse que nunca votaria em Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa desvalorizou o facto de haver divergências no interior da sua equipa. “É normal que dentro de um Governo nem sempre pensemos todos 100% de acordo”. “Há um clássico que é a procura de divergências entre os membros do Governo. Mas os membros do Governo não são máquinas, são seres humanos dotados de vontade e inteligência. Deseja-se, aliás, que tenham bastante vontade e bastante inteligência própria.”