Editorial

A TAP e a política de “mão estendida”

Colocada fora de questão a nacionalização ou a falência, a sobrevivência da TAP só aconteceria se quem paga a conta escolhesse o menu.

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Lusa

O lamentável folhetim da TAP está prestes a chegar ao fim com o epílogo que se adivinhava: com o triunfo da lei do mais forte. Após meses de resistência, os accionistas privados foram forçados a capitular e o Estado prepara-se para garantir a capitalização na condição de senhor absoluto. Já se sabia que ia ser assim porque nestes jogos manda quem tem o controlo do dinheiro e obedece e agradece quem dele depende para sobreviver.

Mas esta constatação não tinha de demorar tanto tempo a acontecer. Entre a bizarra tentativa dos privados em obter capital para manter tudo como estava e a atitude do Estado que os quis vergar à condição de mendigos, entre o tempo que se levou a apresentar um pedido à Comissão Europeia e os incompreensíveis lamentos da administração sobre uma possível “injustiça”, perdeu-se tempo, a TAP desvalorizou-se e os cidadãos foram obrigados a assistir um filme algures entre o western-spaghetti e o drama passional.

Não tinha de ser assim e só o foi porque entre o ministro Pedro Nuno Santos e David Neeleman, Humberto Pedrosa e Antonoaldo Neves se foi acumulando nos últimos anos um clima de mal-estar insuportável. Na troca de argumentos, todos tiveram a sua parte de razão, que é o mesmo que dizer que todos tiveram uma parte nas responsabilidades.

A TAP era, antes da pandemia, uma empresa com mais futuro, mas dera saltos imponderados; a TAP era comandada por privados, mas o Estado tinha mais capital; a TAP tinha gestão privada, mas, como é natural, o Estado exige-lhe a prestação de serviços públicos. Numa circunstância normal, os choques poderiam passar despercebidos. Numa crise grave, tinha de haver ajuste de contas.

Colocada fora de questão a nacionalização ou a falência, a sobrevivência da TAP só aconteceria se quem paga a conta escolhesse o menu. Não sabemos se a reestruturação imposta pela Comissão Europeia era mesmo inevitável ou se Pedro Nuno Santos teve um papel nessa imposição, ao sugerir que a empresa estava em crise antes da crise.

Sabemos, sim, que em tudo o resto, e no geral, o ministro fez o que tinha de fazer: exigiu que os empréstimos dos accionistas à TAP ficassem no capital da empresa; determinou que, com a ajuda, o Estado tinha de entrar no conselho executivo; e impôs que os créditos do Estado que não forem pagos se transformarão em capital.

Tudo, portanto, acabou por correr como era inevitável. O que se lamenta é que a salvação da companhia não se tivesse feito de forma mais pacífica e natural.