Opinião

Uma janela de oportunidade ou apenas necessidade?

Se esta situação não nos levar, pelo menos, a refletir, então fecharemos a janela sem nunca termos reparado nas oportunidades.

Portugal
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LUSA/ANDRÉ KOSTERS

Não estou tranquilo com o caminho que prevejo que se irá tomar a partir do dia 3 de maio. É sabido que a intenção do Governo, de abrir as escolas para os alunos do 11.º e 12.º anos e nas disciplinas de exame, não caiu por terra e isso é um risco.

Ainda hoje li a opinião de um caro amigo, o professor Fernandes e Fernandes, que se mostra, também globalmente contra a abertura do pré-universitário, em alternativa aponta para a abertura, a exemplo de outros países, do pré-escolar e básico, justificando que nesse contexto haveria um “menor risco de contaminação das crianças e, também, de contraírem doença grave (…) Possibilitaria, também, a libertação dos pais para a retoma progressiva da sua atividade normal. E também, porque os alunos dos últimos anos do secundário terão maior maturidade e capacidade de auto-aprendizagem e certamente o seu ensino à distância seria menos complicado.”

A priori não concordo com a abertura de nenhum grau de ensino pelo simples facto de o risco poder ser muito elevado e o preço a pagar por uma abertura precoce das escolas poder deitar por terra os sacrifícios feitos até então! Como já tive oportunidade de escrever aqui, não acredito que seja uma medida isenta de um enorme risco, sobretudo por estarmos a falar de adolescentes e de todo o peso que a palavra tem no desenvolvimento pessoal e social em cada um deles!

Mas se tiver de ser, para tirar da tetraplegia a economia, que comecemos pelos mais novos pelas razões invocadas pelos especialistas.

Admira-me igualmente que, um dos governos que mais se opôs aos exames na sua essência, venha agora considerá-los inadiáveis e imprescindíveis. Será que não se poderia aproveitar para entregar essa tarefa, de acesso ao ensino superior às universidades?

Creio que estamos perante uma janela de oportunidades diversas no que toca a alguns paradigmas da educação sendo que esse é um deles: mudar as regras de acesso ao ensino superior. Pelo menos devíamos pensar sobre este assunto.

Outro paradigma que podemos e devemos aproveitar é o de tornar todo o sistema mais tecnológico. Há pouco tempo falava-se do telemóvel como recurso em sala de aula, hoje a sala é o próprio telemóvel.

Se esta situação não nos levar, pelo menos, a refletir, então fecharemos a janela sem nunca termos reparado nas oportunidades.

Chegou o tempo de olharmos com carinho para a educação. Sairemos desta crise com maior noção de todas as necessidades que as escolas e os seus alunos têm e, por conseguinte, deveremos olhar para esses dados, analisá-los e aproveitá-los para fazer, já, com um investimento forte, uma revolução na educação.

Um dos desafios reais na era pós-covid será perceber como deverá funcionar a escola. O que estamos a aprender com esta situação extraordinária?

Será discutir tudo aquilo que dávamos como certo, as coisas que achávamos óbvias e que poderão já não ser!

Estou certo que um dos grandes problemas de qualquer reforma ou das transformações é a tirania do senso comum, quando as pessoas pensam: “Bem, sempre se fez assim não é agora que vamos mudar.” Também quero acreditar que a maioria terá força para mudar!

Termino citando Abraham Lincoln como forma de agradecimento a todos nós, professores, que em três dias começamos a revolução: “Os dogmas do passado tranquilo são inadequados à tempestade presente, a situação está cheia de dificuldades e por isso devemos estar à altura da situação (….) o nosso caso é novo por isso temos de pensar e de agir de um novo modo, temos de nos emancipar e só assim salvaremos o nosso país.”

Obrigado!

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