Editorial

Uma pausa na política conflitual

Temos de nos preparar para o regresso do confronto duro da política, quando a crise económica exigir opções difíceis; mas, para já, a classe política portuguesa tem estado à altura do que o país reclama e necessita.

Num claro exemplo de como a covid-19 está a pôr a velha política de pernas para o ar, Pablo Iglesias, líder do Juntos Podemos da vizinha Espanha, serviu-se do Twitter para fazer de Rui Rio um exemplo. Numa intervenção no Parlamento esta semana, o presidente do Governo, Pedro Sánchez, citou o líder do PSD para lamentar a guerrilha partidária que perturba a política espanhola.

No momento de aflição que alarma a Europa, o espírito de colaboração e de compromisso de Rui Rio não é inédito. Por natural convicção e sentido de Estado ou por receio de incompreensão dos eleitores, os líderes da oposição trocaram o azedume pela colaboração.

Em Portugal, porém, estão a fazê-lo de uma forma particularmente empenhada e com um sentido de equilíbrio que tanto afasta a noção do oportunismo como o sentimento de demissão. Os partidos não abdicaram dos seus valores e mantêm o espírito crítico que funciona como bálsamo da democracia. Se não inviabilizam as grandes medidas que lhes suscitam dúvidas, como o fez o PCP com o estado de emergência, não embarcam na falsa ideia de que entrámos na era do unanimismo.

Por isso o Bloco pede ao Governo que clarifique quem são os seus aliados naturais no combate à crise; por isso o primeiro-ministro pergunta à esquerda se só existe em tempo de “vacas gordas”. Temos de nos preparar para o regresso do confronto duro da política, quando a crise económica exigir opções difíceis; mas, para já, a classe política portuguesa tem estado à altura do que o país reclama e necessita.

E, entre todos os líderes, Rui Rio tem sido exemplar. O PSD não deixa de ser oposição e ainda esta semana chumbou dezenas de propostas do Governo. Mas esteve com o PS na rejeição de 60% das medidas propostas pelos outros partidos. Diz Rui Rio que o PSD “não deve criar dificuldades ao país só para criar dificuldades ao Governo” e as decisões do partido têm sido coerentes com as palavras do seu líder.

Mais, Rio tem a ousadia e a coragem de dizer que esta atitude será para manter, quando a crise económica se revelar com toda a força, num tempo em que “a lógica da governação vai ter de ser de salvação nacional”. Olhando para o PP espanhol, a sua abertura faz pensar – porque revela sintonia com o que o eleitorado moderado pensa e quer.

Mais do que fazer um frete ao Governo, Rui Rio está a construir a sua imagem de estadista para o futuro. E está a fazê-lo com competência.