Opinião

O Bom, o Mau e o Vilão

Esta evolução negativa do endividamento traduz a persistente dificuldade do Estado em desonerar as gerações futuras, mesmo quando sobrecarrega as atuais gerações com uma carga fiscal em máximos históricos.

The Good, the Bad and the Ugly, com o título em português O Bom, o Mau e o Vilão, é um filme westernspaghetti” de 1966, dirigido por Sergio Leone e protagonizado por Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach.    

A história do filme desenrola-se em plena Guerra Civil dos Estados Unidos, sendo protagonizada por três homens que procuram um tesouro enterrado num cemitério.

O ator Clint Eastwood representa o mais ético e menos sanguinário dos três pistoleiros – o Bom. Por outro lado, Lee Van Cleef interpreta o pistoleiro sem o menor senso ético – o Mau, que, por vezes, trabalha como agente duplo exterminando tanto o alvo que foi contratado para eliminar, como o mandante do crime. Por fim, Eli Wallach, que devido aos seus trejeitos rudes e à sua aparência descuidada ficou com a alcunha de o Feio (em português, o Vilão).

Vem isto a propósito dos dados mais recentes relativamente ao endividamento da economia portuguesa que, de acordo com a informação disponível, atingiu um máximo histórico de 721 mil milhões de euros, ainda que em percentagem do PIB o endividamento tenha caído para valores próximos dos observados em 2009.

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O Bom

Num cenário de subida do endividamento global da economia portuguesa, as empresas portuguesas tiveram um desempenho bastante positivo após 2012, ano em que o seu endividamento atingiu um máximo de 286,6 mil milhões de euros.

Na realidade, se associarmos à redução, entre 2012 e 2019, de quase 8,2% no stock de dívida das empresas o facto de a autonomia financeira destas ter subido, entre 2012 e 2018, de 28,7% para 35,4%, podemos concluir que a solidez financeira do setor empresarial é bastante melhor do que a observada no início da década.

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O Mau

A evolução da dívida da administração pública (incluindo as empresas publicas) foi significativa nos últimos anos, tendo duplicado no período compreendido entre 2007 e 2019. Apesar do seu peso no PIB ter diminuído para cerca de 150,2%, face um máximo de quase 170% observado em 2014, o certo é que permanece claramente acima dos 91,3% observados em 2007.

Esta evolução negativa do endividamento traduz a persistente dificuldade do Estado em desonerar as gerações futuras, mesmo quando sobrecarrega as atuais gerações com uma carga fiscal em máximos históricos (35,4% em 2018 face aos 29,9% de 2009). 

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E o Vilão

Apesar da evolução do endividamento dos particulares ter tido um comportamento positivo ao longo da última década, tendo o mesmo caído de 167,8 mil milhões de euros, final de 2010, para cerca de 140,4 mil milhões de euros em final de 2019 (depois de ter atingido um mínimo de 138,6 mil milhões de euros em julho de 2017), com o peso no PIB a cair de 94,2% em final de 2009 para 66,4% em dezembro de 2019, o certo é que se observaram dois fenómenos que merecem alguma preocupação.

Em primeiro lugar, registou-se uma crescente importância dos empréstimos ao consumo, com o peso destes no total dos empréstimos a particulares a subir de 9,4% em 2014 para 15,8% em final de 2019.

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Um segundo aspeto prende-se com o crescente alargamento dos prazos desses mesmos empréstimos. Na realidade, se em 2008 os empréstimos a mais de cinco anos representavam menos de 50% do total, em final de 2019 esse valor atingia os 69%.

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O filme O Bom, o Mau e o Vilão termina com um duelo triplo para apurar quem merece ficar com o tesouro. O Mau é morto. O Vilão é amarrado e quase morre ficando, ainda assim, com metade do tesouro. E o Bom vai embora cavalgando tranquilamente com a outra metade do tesouro.

Esperemos que em matéria de endividamento, e num contexto de provável abrandamento da atividade económica, a “história” tenha desfecho semelhante ao do filme e que não termine, como aconteceu num passado recente, com o Mau (i.e. Estado) a cavalgar tranquilamente na posse da totalidade do tesouro.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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