Torne-se perito

Coronavírus continua a alastrar-se e Xi admite: “A situação é grave”

Epidemia chegou a 12 países e o número de mortos e infectados quase duplicou em 24 horas. China amplia quarentena, aperta controlos e restringe transportes em todo o país. E o Presidente reforçou os alertas às autoridades locais.

Xi Jinping, Presidente da República Popular da China
Foto
Xi Jinping, Presidente da República Popular da China Reuters/JASON LEE

Se dúvidas houvesse sobre a gravidade do surto de coronavírus que teima em se alastrar pelo território chinês e fora dele, a entrada em cena de Xi Jinping tentou desfazê-las. O Presidente da República Popular da China foi filmado este sábado pela televisão estatal CCTV, numa reunião de emergência com membros de topo do Comité Permanente do Politburo do Partido Comunista, na qual admite que a propagação da epidemia está a “acelerar” e apela aos esforços de todos os níveis do Governo para a combater.

“Confrontados com a situação grave desta aceleração da propagação da pneumonia, devido a infecções causadas pelo novo coronavírus, temos de reforçar uma liderança centralizada e unida, sob o comando do partido”, afirmou o Presidente, citado pelo New York Times

“Os comités do partido e os vários níveis governamentais devem pôr em prática os planos adequados para conter o vírus, de acordo com a orientação do Comité Central”, acrescentou Xi Jinping, antes de lançar uma mensagem de esperança: “Seremos capazes de vencer esta batalha e derrotar a epidemia através de prevenção e controlo”.

Foi a primeira vez, pelo menos publicamente, que o chefe de Estado chinês falou e se envolveu nos planos de emergência do Governo para travar um surto que já matou 41 pessoas e que já infectou 1300 pessoas – praticamente o dobro dos números oficiais de sexta-feira –, distribuídas por quase todas as províncias e divisões administrativas do vasto território chinês – só o Tibete fica de fora, para já –, e por 12 países.

Entre os países que detectaram casos de coronavírus, Estados Unidos, Austrália e França sãos representantes de fora do continente asiático, sendo que o Centro Europeu para o Controlo e Prevenção de Doenças admitiu este sábado que é provável que sejam identificados mais casos na União Europeia.

A aparição de Xi não só atesta a seriedade da situação, como é mais um sinal de alerta do poder central dirigido às autoridades locais, cuja actuação pouco célere na prevenção do vírus já tinha sido criticada através dos meios de comunicação do Estado. 

As representações locais do Partido Comunista são novamente suspeitas de estarem a encobrir a verdadeira gravidade da crise – já tinham sido no surto de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), que matou perto de 800 pessoas entre 2002 e 2003, – e Pequim tem-se desdobrado em comunicações internas e públicas para forçar os seus dirigentes a não esconderem os números reais de vítimas.

“Quem colocar a face dos políticos à frente dos interesses do povo será pecador por um milénio. Quem atrasar ou esconder, deliberadamente, a comunicação de novos casos (…) será pregado no pilar da vergonha para a eternidade”, já tinha avisado no início da semana o Comité de Assuntos Políticos e Legais.

Com o aumento diário dos casos de vítimas do contágio do vírus 2019-nCoV – que causa infecções respiratórias e é transmitido por via aérea ou contacto físico – as autoridades chinesas têm vindo a intensificar as medidas de combate à epidemia, numa operação logística de enorme magnitude que está a paralisar uma parte significativa do mais populoso país do mundo, em plena época festiva – o Ano Novo chinês começou este sábado.

Há cidades inteiras e mais de 50 milhões de pessoas de quarentena, espaços públicos e atracções turísticas encerradas, eventos de Ano Novo cancelado, transportes suspensos e proibições de viagens em enormes áreas de território que vão desde a província de Hubei, no centro da China, onde surgiu o coronavírus, até às mega-cidades de Pequim ou Xangai, no litoral.

Em Wuhan, cidade de 11 milhões de Hubei, e epicentro da epidemia, o cenário é de ruas desertas, supermercados e farmácias desguarnecidos e hospitais apinhados. A maior parte das vítimas mortais é de lá, incluindo um médico de 62 anos que esteve em contacto com doentes infectados.

Por isso mesmo, estão a ser construídos em Wuhan dois hospitais com capacidade para mais 2300 camas, no total, que estarão prontos em duas semanas. Para além disso, foram enviados para a cidade mais de 1200 profissionais de saúde e ainda 450 médicos militares, muitos deles com experiência no combate ao SARS.

Na cidade foi ainda proibida a circulação de veículos particulares não autorizados e foram montados vários postos de controlo para inspeccionar o que entra, o que sai e o que circula na região mais afectada pelo vírus. Comerciantes de produtos agrícolas são alvo inspecções redobradas e os que vendem animais selvagens proibidos de o fazer – as autoridades suspeitam que o coronavírus teve origem num mercado de Wuhan onde “foram realizadas transacções ilegais” desse tipo de animais.

Sugerir correcção