A Favorita pode ter sido o vencedor, mas a noite foi de Binoche e Herzog

“A arte é encontrar o novo”, defendeu a actriz francesa ao receber um prémio de carreira. Mas os Prémios Europeus de Cinema, de novo, pouco tiveram.

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Juliette Binoche
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Juliette Binoche LUSA/HAYOUNG JEON

“A arte é encontrar o novo, algures,” diz Juliette Binoche, comovida, ao receber o prémio de carreira que a Academia Europeia de Cinema lhe entregou pela sua carreira global enquanto actriz europeia. O novo, contudo, não é exactamente o que a noite dos 32.º Prémios Europeus de Cinema nos trouxe.

Começa pela passadeira vermelha, com fotógrafos e fãs e caçadores de autógrafos, uma longa fila de carros negros oficiais a descarregar — à porta da Haus der Berliner Festspiele—, as centenas de convidados (de smoking ou vestido de noite), ou pela apresentadora a entrevistar os famosos que vão aparecendo. E, apesar de estarmos no 32.º ano destes prémios europeus, há qualquer coisa de bizarro em ver uma indústria que se quer impor pela diferença e pela identidade a jogar o mesmo jogo das festas e das galas. Igual aos Óscares e a todas as outras cerimónias de entregas de prémios, nomeando maioritariamente os filmes de prestígio que podem ser transversais a todos os países europeus (mesmo que, sim, pelo meio deles haja belíssimos filmes, como Dor e Glória, de Pedro Almodóvar, ou O Traidor, de Marco Bellocchio).

Pronto, sim, houve uma cerimónia (pensada pelo cineasta alemão Dietrich Brüggemann e apresentada pelas actrizes Anna Brüggemann e Aisté Dirziuté) que optou pelo risco do absurdismo meta-humorístico (e que só funcionou a espaços, mas que teve momentos inspiradíssimos como a ária de homenagem a Werner Herzog). Mas fica tudo explicado quando o primeiro prémio entregue – o de Melhor Realizador – vai para Yorgos Lanthimos (representado pelo seu produtor, Ed Guiney), cujo filme A Favorita já partia com quatro prémios técnicos (fotografia, montagem, figurinos e maquilhagem).

É um balde de água fria na sala de imprensa, que esperava outro vencedor, repetido quando o prémio de melhor actriz vai para Olivia Colman, que não está presente, e quando, no final da noite, o filme de Yorgos Lanthimos leva os prémios de Melhor Comédia e Melhor Filme. De todos os nomeados, A Favorita, que esteve nomeado para dez Óscares e já terminou a sua carreira em salas, era o filme que menos precisava de mais prémios, mas partiu de Berlim com oito galardões (todos para que estava nomeado), aniquilando Polanski, Almodóvar, Bellocchio. 

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Olivia Colman em A Favorita dr

Tudo o resto pareceram prémios de consolação perante o vendaval: Antonio Banderas melhor actor por Dor e Glória; Os Miseráveis, de Ladj Ly, fenómeno lançado em Cannes 2019, prémio “descoberta”/Fipresci; Céline Sciamma melhor argumentista por Portrait d’une jeune fille em feu. A Favorita, projecto inglês dirigido por um autor grego e rodado em Inglaterra com financiamento irlandês, mas nomeado para dez Óscares e com dinheiro da major Fox, é o novo padrão europeu. Como a Miramax a tomar de assalto Hollywood nos anos 1990/2000.

Eis a ironia: uma cerimónia que se esperaria que celebrasse o que torna a Europa um território de arte única acaba por celebrar o mercado único. Que também é importante, sim, mas cria uma esquizofrenia peculiar: a vontade de defender uma indústria que só existe em meia dúzia de países, numa Europa onde quase todos os cineastas querem fazer arte. Não é por acaso que é Juliette Binoche, uma das poucas actrizes europeias a terem estatuto de vedeta global, mantendo um pé na arte e outro na indústria, a receber um prémio de homenagem pela sua carreira internacional.

E também não é por acaso que é ela a pôr os pontos nos is, com o tal “belo sol interior” a que se refere o título do filme da cúmplice Claire Denis; e é Denis quem entrega o prémio (de casaco de cabedal porque a mala ficou em Paris) perante uma ovação de pé. E Binoche apanhada de surpresa pelo obrigado enviado do Irão por Jafar Panahi, ao volante como sempre, pelas lágrimas que lhe viu numa fotografia, “uma luz na escuridão do tempo”, que lhe iluminou o momento a sua libertação da prisão. Mas pondo o dedo na ferida: “O mundo não está bem, mas a arte parece tornar-se cada vez mais importante. Faz sentido ter prémios quando o mundo está a cair num impasse, num beco sem saída?”

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Claire Dennis a entregar o prémio carreira a Juliette Binoche Britta Pedersen/Pool via REUTERS

Não é por acaso que Werner Herzog – comovido pela apresentação de Wim Wenders, que lhe chamou “uma torre de integridade” para quem o cinema é “uma questão de vida e de morte”, depois de uma delirante ária operática de homenagem – ainda põe mais o dedo na ferida: “Não existe um cinema único com um estilo europeu e devemos sentir-nos felizes por não haver um cinema europeu comum,” diz, após a mais longa ovação da noite. “Sou muito regional e considero-me um cineasta bávaro mais do que alemão. Mas o importante é a solidariedade e a cooperação que existe entre os produtores e cineastas europeus, e isso tem permitido fazer filmes fenomenais que vêm de sítios que de outro modo não chegariam ao mundo, como a Dinamarca ou a Roménia.”

Talvez devamos agradecer a essa solidariedade a revelação, há uns anos, de Yorgos Lanthimos, nos tempos de Canino ALPS, quando ainda era um arauto da nova vaga grega, e a possibilidade de ele ter chegado a este patamar de êxito. Tal como agradecemos a solidariedade de nomes como Ken Loach, que emprestou o seu mediatismo quando o ucraniano Oleg Sentsov foi preso na Rússia sob alegações de “conspiração para cometer actos terroristas”. Libertado em Setembro, Sentsov esteve presente em Berlim, apresentado pelo novo director executivo da Academia Europeia de Cinema, Mike Downey, que aproveitou para anunciar a criação da Coligação Internacional para Cineastas em Risco, formada em conjunto pela Academia e pelos festivais de Amesterdão e Roterdão, para defender a liberdade dos cineastas em países onde esta está em risco.

Essa solidariedade, contudo, ficou maioritariamente na retranca perante as dificuldades que Polanski, sempre ele, e a sua reputação vieram levantar: “No contexto das alegações contra Roman Polanski, a Academia pretende rever as regras relativamente aos padrões de conduta dos seus associados e da Associação Francesa de Realizadores, mas para já pretendemos respeitar o processo democrático e também o trabalho de centenas de técnicos e actores franceses e europeus que deram o seu contributo.” Evitou-se a polémica com alguma elegância sem tomar partido – espelhando provavelmente a própria divisão que existe dentro dos membros da Academia – mas não foi preciso, assim como assim, J’Accuse saiu de mãos vazias. Mas numa cerimónia que se quis europeia, de prémios europeus, foi o menos europeu dos filmes a concurso que venceu tudo – falado em inglês, financiado pelos americanos, e rodado em Inglaterra, com um elenco maioritariamente inglês, por um realizador grego. Num momento em que a Inglaterra quer sair da Europa. Dá que pensar, não dá?

Premiados

Filme – A Favorita

Realizador – Yorgos Lanthimos, A Favorita

Actriz – Olivia Colman, A Favorita

Actor – Antonio Banderas, Dor e Glória

Argumento – Céline Sciamma, Portrait d’une jeune fille em feu

Fotografia – Robbie Ryan, A Favorita

Cenografia – Antxón Gómez, Dor e Glória

Montagem – Yorgos Mavropsaridis, A Favorita

Figurinos – Sandy Powell, A Favorita

Maquilhagem – Nadia Stacey, A Favorita

Som – Eduardo Esquide, Nacho Royo-Villanova e Laurent Chassaigne, A Noite de 12 Anos

Efeitos visuais – Martin Ziebell, Sebastian Kaltmeyer, Neha Hirve, Jesper Brodersen e Torgeir Busch, About Endlessness

Prémio Descoberta/Fipresci – Os Miseráveis, de Ladj Ly

Prémio do Público – Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski

Longa-metragem de Animação – Buñuel en el Laberinto de las Tortugas, de Salvador Sima

Comédia Europeia – A Favorita

Documentário – For Sama, de Waed al-Kateab e Edward Watts

Curta-metragem – The Christmas Gift, de Bogdan Muresanu

Série televisiva – Babylon Berlin

O PÚBLICO viajou a convite da Academia Europeia de Cinema