Entrevista

Luís Montenegro: “Acho que era capaz de conseguir derrotar Costa. Sem dúvida”

Aos 46 anos, o social-democrata já ocupou o lugar que Rui Rio tem agora no Parlamento, na liderança da bancada. Mas o que o advogado quer é suceder-lhe na presidência do partido.

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Luís Montenegro Rui Gaudêncio

O candidato à liderança do PSD atribui a derrota do partido nas legislativas ao facto de não ter apresentado uma alternativa ao PS. Em entrevista ao PÚBLICO e à Rádio Renascença (a Hora da Verdade passa esta quinta-feira às 13h), o ex-líder parlamentar assume que ambiciona uma “maioria absoluta” do PSD “sozinho” no Parlamento.

Propõe-se devolver o “D” ao PSD. O que é que falta ao PSD e o que é que pode devolver ao partido para poder voltar a ganhar eleições?
Devolver o ‘D’ ao PSD quer dizer dar nova dinâmica, mais determinação e diferença face ao PS. O PSD não pode ser uma espécie de Partido Socialista número dois, uma espécie de bengala sempre à disposição do PS quando este não consegue o apoio do PCP e do BE, que são os parceiros preferenciais de aliança política, como está reflectido nos últimos quatro anos e já no início desta governação. Não temos de esperar pelo PS porque o PS não quer governar com as nossas ideias. O país e a democracia precisam de uma alternativa política. 

Em que é que se consubstancia essa alternativa?
Em políticas concretas. Na política de transportes, o PSD quer que o cidadão seja bem servido com qualidade e uma quantidade de serviços disponíveis que assegurem a sua expectativa e necessidade. E o que é que o PS defende? Fruto de um acordo com o PCP, a estatização de todo o serviço público de transportes. E qual foi a consequência disso? Desinvestimento, menos composições no metro, na travessia do Tejo, pior serviço ao cidadão. De que vale falar dos passes sociais - que são naturalmente uma boa medida - se o serviço não existe? Também posso falar da saúde. Há um estigma que paira no Governo, precisamente pela sua aliança com o BE e PCP, sobre a valorização da complementaridade do sector privado e do sector social. E na economia temos um Governo que é rígido na legislação laboral mas que não tem o arrojo de dar competitividade fiscal às nossas empresas.

Qual é a sua opinião sobre a proposta do Governo para o aumento do salário mínimo?
Espero que se obtenha um acordo dentro da concertação social. Se me pergunta se é viável, parece-me que sim, mas as empresas terão de aferir com as centrais sindicais se o efeito do aumento não provoca uma oscilação nomeadamente ao nível do desemprego. Mas parece que a economia portuguesa tem condições para fazer crescer o salário mínimo. Quanto maior for o crescimento da economia, mais condições terá para que esse aumento seja consistente e duradouro. Mas isso é outro problema que temos em Portugal: o crescimento económico é muito baixo, é muitíssimo baixo para as nossas necessidades.

Se for líder do PSD não faz acordos com o Governo mas não reconhece que existem reformas necessárias para o país - e que o senhor até defendeu em tempos - entre os dois maiores partidos?
Sempre entendi que o país precisava que os dois maiores partidos se entendessem sobre o essencial em quatro ou cinco sectores de actividades. Só que há uma evidência: o PS não quer, não vale a pena insistir num apelo que sai em saco roto. Nós não temos parceiro para as reformas estruturais.

Há abertura para a reforma do sistema político...
Há? Eu não conheço. Que eu saiba o PS está longe dessa discussão, mais uma vez está acorrentado ao BE e ao PCP. O PS escolheu os seus parceiros à sua esquerda. Ganhou as eleições, tem o direito de governar, governa com os partidos à esquerda, agora acrescentou também o PAN e o Livre, não vá serem precisos mais alguns votinhos. Com essa perspectiva, o PSD tem de se constituir como alternativa ao PS. Este PS não é reformista, este primeiro-ministro é situacionista, só está preocupado com o dia-a-dia.

Rui Rio tem apostado nisso de forma errada?
Disse sempre que essa estratégia era errada. Não tenho dúvidas nenhumas de que o PSD refém desse discurso de disponibilidade sempre à espera, subalterno ao PS, é um PSD que não dá a esperança suficiente para ganhar a confiança da maioria da população. E eu quero ganhar eleições e eu quero uma maioria absoluta de deputados na Assembleia da República para o PSD.

Sozinho? Acha que isso ainda é possível com o PSD sozinho?
Foi com com essa maioria que Portugal viveu o período de maior desenvolvimento social e económico da nossa democracia.

A política mudou muito e a sociedade também... Acha que ainda é possível o PSD ter maiorias absolutas sozinho?
Quem muda a política e a sociedade são os políticos. São aqueles que se propõem no debate político e que conseguem seduzir, conquistar a confiança dos eleitores.

Acha que tem essa capacidade?
Eu estou aqui porque me sinto com essa capacidade e porque sinto que o PSD é uma força grande. Nós temos que saber mobilizar o país.

Estes resultados das legislativas e das europeias mostram que tinha razão em relação à estratégia de Rui Rio ou este resultado é ainda uma penalização pelo Governo PSD/CDS?
Com o devido respeito, era o que faltava que fosse uma penalização do Governo PSD/CDS. Primeiro, porque o julgamento desse Governo foi feito em 2015 e com uma vitória eleitoral. Era o que faltava que quatro anos de governação do PS não tivessem um julgamento do que foi o desempenho do PS e da alternativa política que se apresentava. O que disse no congresso e em Janeiro deste ano foi que uma estratégia de subalternização do PSD, uma disponibilidade permanente para o PS... o PS reformista é uma ficção.

O PS tem um processo de descentralização em marcha.
Os autarcas do PS e do PSD, que são a maioria, estão todos contra o processo de descentralização. Os partidos fizeram o acordo, ninguém sabe o que é que o acordo verdadeiramente contempla, e muito menos sabe qual o contributo do PSD...

O acordo é público...
O PSD caucionou uma reforma que não está a produzir efeitos e que não é do agrado dos seus executantes que são os autarcas. Aí está um bom exemplo do que é a falta de estratégia, o desnorte estratégico do PSD, que teve como resultado duas derrotas históricas.

Acha que se tivesse ganho o desafio das eleições em Janeiro e tivesse liderado o PSD a partir dessa altura tinha conseguido derrotar António Costa?
Acho que era capaz de o conseguir fazer. Sem dúvida.

Apesar de a esquerda, e António Costa em particular, ter capturado o discurso das contas certas, que prevalecia à direita? Ainda assim era possível ganhar a este PS?
Acho que sim. Nós temos contas certas, e isso é bom, mas temos uma factura muito grande para pagar e muito maior do que aquela que estávamos a recuperar o país da troika e da bancarrota. Nós hoje temos contas certas à conta de quê? Da maior carga fiscal de sempre e do maior desinvestimento dos serviços públicos de sempre. Foi com um Governo de esquerda que os serviços de saúde atingiram o seu pior desempenho de sempre, uma política social desestruturante. Ao mesmo tempo que, ironicamente, o sector privado atingiu ganhos que nunca tinha atingido noutra legislatura.

Mas as pessoas votaram.
Sempre que o PSD teve um resultado abaixo dos 30%, o PS teve um resultado perto ou acima dos 40%. Tendo o PS obtido, depois de toda a conjuntura externa favorável de que gozou nos últimos quatro anos, 36% dos votos revela o quê? Que as pessoas não acreditam no PS de forma a darem uma maioria confortável. O que falhou foi haver uma alternativa forte, muito clara.

Como é que entende a perspectiva de Rui Rio de que o PSD pode ficar refém de interesses obscuros se outros candidatos ganharem a liderança?
Ele para mim não está a falar de certeza. Porque eu não estou refém de nenhum interesse nem obscuro nem menos obscuro. O meu único interesse é o interesse público e o meu espaço de liberdade é total. Mas é bom que os senhores jornalistas aproveitem as entrevistas para perguntar ao dr. Rui Rio o que é que ele quer dizer com isso e que tenha a coragem de dizer. Não faça insinuações, que diga o que quer dizer com isso. Estou muito à vontade, ele pode dizer o que quiser. Espero que a campanha não seja de insinuações, que seja uma campanha de afirmação de ideias, de condutas, de posturas. 

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