Há muito ioga por aí, mas falta regulamentação para os profissionais

O ioga é conhecido dos portugueses desde o século XVI, Fernando Pessoa fez traduções sobre o ioga indiano e a maioria dos praticantes são mulheres. Hoje é o Dia Internacional do Ioga.

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Pormenor de uma acção em Times Square Reuters/SHANNON STAPLETON
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O ioga também passou pela Polónia LUSA/JAKUB KAMINSKI
Parc du Cinquantenaire
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Em Bruxelas, na Bélgica, o dia celebrou-se mais cedo LUSA/JULIEN WARNAND
,Índia
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Na Índia celebra-se o Dia Internacional do Ioga Reuters/Amit Dave
Ji-oh Yoon
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Jovens indianas Reuters/AMIT DAVE
Stonehenge
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Em Stonehenge, Reino Unido LUSA/NEIL HALL
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Na Índia Reuters/AMIT DAVE
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Em Times Square, Nova Iorque, EUA Reuters/SHANNON STAPLETON

Foi no século XVI que os portugueses conheceram o ioga, na costa do Malabar, na Índia. Desde então, esta prática espalhou-se pelo mundo. Tantos séculos depois, não só o ioga, mas também a meditação e o mindfulness chegaram às escolas portuguesas. Por cá, ajuda os mais pequenos a concentrarem-se e os mais velhos a prepararem-se para a época dos exames. Mas não só, além das escolas e associações onde o ioga se desenvolve, a sua prática já chegou aos ginásios e há até festivais em torno desta modalidade que é reconhecido pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Nesta sexta-feira celebra-se o Dia Internacional do Ioga.

Segundo Paulo Hayes, professor do Departamento de Ciências das Religiões da Universidade Lusófona e coordenador da Pós-Graduação em Instrução de Yoga, estima-se que em Portugal existam mais de cem mil praticantes de ioga – a maioria são mulheres – e que a actividade tem um valor económico próximo dos cinco milhões de euros – entre escolas, associações, aulas, retiros e produtos. Contudo, desconhecem-se os critérios de formação de quem ensina esta modalidade, assim como não há um código de actividade económica (CAE) específico para a profissão de instrutor/professor/formador de ioga. “Não existe um regime jurídico específico de protecção aos consumidores, uma vez que as actividades não foram ainda regulamentadas pelo Parlamento”, alerta o docente numa petição que exige um enquadramento legal dos profissionais e das actividades.

O docente, que fez a sua tese de mestrado sobre “O Yoga em Portugal: A relevância do Yoga para uma sociedade multicultural”, lembra que, um pouco por toda a Europa esta prática está regulamentada, mas não de uma maneira uniforme. Por exemplo, se em França há um sindicato nacional dos professores de ioga e a sua prática se enquadra no Ministério da Cultura; na Suíça, é visto como uma terapia complementar; tal como no Brasil, onde é catalogado como uma prática de medicina integrativa e complementar e a sua regulamentação cabe ao Ministério da Saúde. “Existem diversas definições de yoga e a prática envolve a dimensão espiritual, mental e física”, escreve o autor na petição dirigida à Assembleia da República.

Por cá, apesar de não haver regulamentação da profissão, a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em parceria com a Associação Europeia de Terapias Orientais, apresenta nesta sexta-feira o projecto “Yoga em Portugal” e vai avançar, em Setembro, com uma Certificação Profissional em Instrução de Yoga. “Pioneira no país, esta pós-graduação integra um projecto mais abrangente de apoio ao ensino, investigação e regulamentação da profissão”, refere a universidade em comunicado.

Ao nível da pedagogia, além do curso profissionalizante, estão planeadas “acções de formação para professores do ensino básico e secundário bem como a preparação de instrutores para o ensino do ioga e da meditação em centros de saúde e hospitais”, informa Paulo Hayes, no mesmo comunicado.

Ioga no Feminino

Recentemente, o professor apresentou a sua tese de mestrado e ficou aprovado com 18 valores (numa escala de 0 a 20). Nessa faz uma caracterização da prática em Portugal, analisando cinco instituições com tradição nesta área, além de olhar para outras associações e profissionais que não estão ligadas a qualquer organização. Agora, o doutoramento será sobre o ioga no feminino. 

Segundo o docente, em Portugal, o ioga é já conhecido há vários séculos e Fernando Pessoa chegou a fazer traduções sobre o ioga indiano, conta ao PÚBLICO. É no Estado Novo que a prática se faz mais às escondidas, voltando a tornar-se visível no pós-25 de Abril e ganhando uma nova dimensão nos últimos anos. Actualmente, cerca de 86% dos praticantes são do sexo feminino – os dados baseiam-se num inquérito realizado no âmbito da sua tese de mestrado. Foram questionadas 1100 pessoas. Na Ásia, esta é uma prática masculina, explica ao PÚBLICO (ver fotogaleria em cima). Mas, à medida que chegou ao Ocidente começou a ser praticado mais por mulheres entre os 26 e os 45 anos, classe média e alta, com escolaridade elevada.

“É uma questão de saúde e bem-estar. As mulheres sentem-se bem. Nos meios de comunicação social passa a imagem estereotipada do corpo da mulher branca, magra e bonita [a fazer ioga]”, indica o professor. Mas a procura também se faz por uma questão espiritual. Elas “procuraram como uma forma de prática espiritual, física e mental porque não tem o domínio patriarcal que é exercido nas religiões”, continua.

Para a sua tese, Hayes perguntou o que é o ioga, ao que a maioria (688 inquiridos) responde que é uma filosofia de vida, segue-se quem o classifique como uma terapia alternativa (147), como uma forma de espiritualidade (103), uma actividade física (72), um desporto (9) e apenas uma pessoa responde que é uma religião. Os restantes não sabem ou não respondem. “As pessoas gostam muito do ioga porque não é necessário pertencer a nada. Sentem no corpo essa experiência de saúde, bem-estar e felicidade”, conclui.