Editorial

Os primos e amigos do PS e as europeias

Se as eleições para o Parlamento Europeu são em regra pouco simpáticas para os governos, não lembra ao diabo que Costa tenha feito uma lista encabeçada por um ex-ministro que ninguém conhece.

Esta quarta-feira, um primo de um secretário de Estado foi afastado do Governo. O governante, que decidiu nomear um membro da família, manteve o lugar. Foi uma simples tentativa de conter os estragos. Eventualmente, António Costa começou a perceber que a overdose de relações familiares entre o Conselho de Ministros e os gabinetes pode criar sérios danos a curto prazo. E o curto prazo já tem data – as eleições europeias de 26 de Maio.

Se as eleições para o Parlamento Europeu são em regra pouco simpáticas para os governos, não lembra ao diabo que Costa tenha feito uma lista encabeçada por um ex-ministro que ninguém conhece, Pedro Marques – e que, pelo menos até ao momento, não parece dotado de um talento político entusiasmante. Mas há pior: a presença de Pedro Silva Pereira no terceiro lugar da lista tem o condão de trazer à memória colectiva o pesadelo Sócrates, a última coisa de que o PS tinha necessidade.

Costa pode-se ter distanciado do antigo primeiro-ministro socialista, mas Pedro Silva Pereira esteve lá, até ao fim. A mensagem subliminar é a pior que havia para passar. É curioso como Costa, que se esforçou tanto para fazer uma ruptura com Sócrates, decide agora promover na lista às eleições europeias a sua eterna sombra. Silva Pereira já tinha estado nas listas há cinco anos, mas era o número 7. A sua promoção para o terceiro lugar é um interessante “prémio carreira” que não parece trazer qualquer vantagem eleitoral ao PS.

A lista tem estas infelicidades. Se acrescentarmos que a saúde dos portugueses não melhora com o défice zero e que o Governo conseguiu ter o antagonismo de classes profissionais eleitoralmente relevantes como professores, médicos e enfermeiros, entre outras, é arriscado prever uma vitória que seja muito mais encantadora que o “poucochinho” que Costa desdenhou em António José Seguro.

O PSD tem um candidato forte, Paulo Rangel, que já venceu umas europeias – precisamente há dez anos, quando o partido era liderado por Manuela Ferreira Leite e José Sócrates candidatou Vital Moreira. Há razões para que o PS contenha a autoconfiança excessiva, por muito que no carácter do seu líder essa característica seja transbordante.

A redução do preço dos passes sociais é uma excelente medida, verdadeiramente social-democrata – mas servirá para inverter a sensação de que o Governo está fechado num círculo de famílias, amizades íntimas e distante do eleitorado comum? Falta menos de dois meses para sabermos a resposta.