Leggings: “reveladoras” do corpo da mulher ou da “misoginia interiorizada” na sociedade?

Maryann White, uma “mãe católica de quatro filhos” norte-americana, apelou às raparigas que deixem de usar uma peça de roupa tão “justa” e “reveladora”, gerando uma polémica que ecoou nas redes sociais e na imprensa internacional.

Foto
ERIC THAYER/Reuters

“Porque é que ninguém acha estranho que a indústria da moda tenha levado as mulheres a exporem voluntariamente as suas partes íntimas desta maneira?”. Esta é uma das questões que Maryann White, uma “mãe católica de quatro filhos” norte-americana expõe numa carta publicada no passado dia 25 de Março no The Observer, o jornal da Universidade de Notre Dame e do colégio de Saint Mary, no Indiana, nos Estados Unidos, onde apela às raparigas daquela instituição que deixem de usar leggings.

“Justas” e “reveladoras” são alguns dos adjectivos que a norte-americana utiliza para classificar as leggings. Uma peça de roupa tão “imperdoável” que, segundo Maryann White, torna difícil para os homens ignorarem uma mulher que a use.

“Pensei se devia escrever esta carta durante muito tempo. Aguardei, na esperança de que as modas mudassem e tal carta fosse desnecessária – mas isso não parece estar a acontecer. Não estou a tentar insultar ninguém nem violar os seus direitos. Sou apenas uma mãe católica de quatro filhos com um problema que apenas as raparigas podem resolver: leggings, começa por escrever Maryann White.

White refere um episódio, ocorrido no ano passado, quando durante uma ida à missa se deparou com um grupo de raparigas que estavam a usar “leggings muito justas” e camisolas curtas, afirmando que se sentiu “envergonhada” por elas e que pensou em todos os homens ali que “não podiam deixar de olhar”, algo que considera “inevitável”.

“Num mundo no qual as mulheres continuam a ser retratadas como ‘babes’ pelos filmes, videojogos e videoclips de música torna-se difícil para as mães católicas ensinarem os seus filhos que as mulheres são filhas e irmãs de alguém. Que as mulheres devem ser vistas primeiro como pessoas – e todas as pessoas deveriam ser consideradas com respeito”, escreve Maryann White.

E se se poderia considerar que esta é simplesmente uma peça de roupa confortável, White contra-argumenta: “Também o são os pijamas. Ou andar nu. E o corpo humano é lindo. Mas não andamos por aí nus porque nos respeitamos a nós mesmos – queremos ser vistos como uma pessoa, não um corpo”.

É, portanto, com um apelo às raparigas daquelas instituições que Maryann White termina a sua carta: “Na próxima vez que forem às compras, podem pensar nas mães dos rapazes e ponderar escolher antes calças?”.

“As leggings podem ser o futuro. Lidem com isso”

Dias depois, e face à controvérsia que a carta desencadeou – com o jornal a revelar que tinha recebido mais de 35 cartas a responder ao artigo publicado –, os editores do The Observer publicaram um outro artigo admitindo que ficaram “estupefactos com o grau de discussão que as leggings desencadearam” e defendendo a liberdade de expressão.

No mesmo jornal, Shane Combs, um estudante daquela instituição, assinou também um artigo intitulado “Resposta ao problema das leggings”, sublinhando que “não podemos deixar que algo tão inofensivo como as leggings seja manipulado como um veículo para a supressão da voz feminina” e que “nenhuma mulher deve ter de alterar o seu vestuário para ajudar os homens a comportarem-se adequadamente”.

Em vez de aceitarem o pedido de Maryann White, o grupo escolar sem fins lucrativos Irish 4 Reproductive Health, da Universidade de Notre Dame, chegou mesmo a organizar um movimento que declarou o dia 26 de Março como o Dia do Orgulho Legging, segundo o New York Post, apelando a rapazes e raparigas que partilhem nas redes sociais fotos a usar leggings, através do hashtag #leggingsdayND.

No The New York Times, a editora de moda Vanessa Friedman chega mesmo a afirmar que “as leggings podem ser o futuro”. E deixa um recado: “Lidem com isso”. Entretanto, algumas marcas de desporto começaram campanhas nas redes sociais de apoio ao uso de leggings.

Recordando um caso de 2017, quando a companhia aérea norte-americana United Airlines impediu duas meninas de dez anos de viajar por estas estarem a utilizar leggings, Vanessa Friedman afirma que aquilo que a controvérsia em torno das leggings expõe, na verdade, “não é tanto o físico de quem as usa, mas antes uma falha cultural que atravessa gerações”. Friedman dá o exemplo da mini-saia e dos jeans que, à época, “pareciam tão hereges e inexplicáveis para o que estava estabelecido, mas que desempenharam um papel fulcral e na actualização de normas de forma a abrir caminho para o que veio a seguir”.

Para a directora de moda, o centro da questão não está na peça de roupa em si, mas na visão que a sociedade tem do corpo da mulher, especialmente depois do movimento #MeToo ter aberto caminho na luta pelos direitos da mulher e pela igualdade de géneros.

Se, por um lado, há quem defenda que o uso das leggings apela à sedução, por outro, há quem sublinhe que esta é uma peça de roupa confortável, com as diferentes visões a ganharem uma leitura geracional. “Para a geração Y, as leggings tendem a ter um significado de lifestyle mais associado à saúde e à actividade física do que propriamente ao vestuário de trabalho; para a geração Z, que maioritariamente rejeita a uniformização e rótulos tradicionais, elas são simplesmente uma peça básica, tal como os jeans. São algo que se veste sem se pensar duas vezes”, explica Friedman.

Vanessa Friedman nota ainda que “um dos grandes truques da moda é que o que pode parecer superficial ou sem importância – como as leggings – é, na verdade, representativo de uma realidade mais complicada e difícil de expressar”.

Uma “misoginia interiorizada”

Já Arwa Mahdawi, colunista do The Guardian, explica que “não são apenas os homens a policiar os corpos das mulheres”, mas que as próprias mulheres “têm-no feito a elas mesmas” graças à “misoginia interiorizada” na sociedade.

Arwa Mahdawi recorda ainda alguns episódios, entre os quais um deputado republicano do estado norte-americano do Montana que, em 2015, queria tornar ilegal (e punível por lei) o uso de leggings, assim como os debates organizados pelo canal Fox News para discutir se os homens estariam “confortáveis com as suas mulheres a desfilarem de leggings”. A colunista refere ainda que, no ano passado, o The New York Times publicou um artigo de opinião onde a autora explicava que as mulheres usam leggings porque as acham sexy e que se as mulheres se querem libertar do patriarcado devem usar antes calças de fato de treino.

Arwa Mahdawi lembra ainda algumas polémicas recentes, entre as quais o facto de algumas editoras da revista do Vaticano Women Church World se terem demitido depois de terem sido alegadamente repreendidas por terem escrito sobre o abuso sexual de freiras, a questão da desigualdade salarial entre géneros e o facto de a NASA ter cancelado a caminhada espacial 100% feminina por não ter fatos que sirvam às astronautas.

Escreve ainda Arwa Mahdawi: “É incrível que haja tantas preocupações no Ocidente sobre o quão oprimidas são as mulheres muçulmanas devido ao uso da burqa quando o uso de leggings é um tema de constante debate”.