Muito mais que Weinstein: um ano de MeToo é passar de “me” para todos

O momento MeToo começou há um ano, quando foi exposto um alegado predador em Hollywood e isso permitiu depois milhões de denúncias de cidadãs e cidadãos comuns. Desde então houve botões de pânico, novas leis, greves e uma cultura abalada. Agora, o movimento deve voltar a focar-se nos sobreviventes, defende a sua fundadora.

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Protestos contra Brett Kavanaugh Kevin Lamarque/Reuters
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Tarana Burke, a activista do #MeToo Gilbert Carrasquillo/Getty Images

“Foi um ano de libertação e de empoderamento. Todos os dias conheço pessoas que passaram de vítimas a sobreviventes simplesmente por acrescentarem o seu ‘Me Too’ ao coro” que em Outubro de 2017 começou em Hollywood e se espalhou pelo mundo, recorda a activista Tarana Burke. Um ano de casos de assédio e violência sexual que começaram com nomes famosos e que quer ser o princípio de uma mudança de paradigma que ponha fim à cultura de assédio sexual que afecta milhões de anónimos. Mas é preciso “mudar o foco”, diz Burke, que há 13 anos diz “me too”, do “me” para todos.

Tarana Burke é uma activista negra, do Bronx, e há 13 anos tinha criado uma campanha que usava a expressão "me too" - "eu também" - para ouvir sobreviventes de violência sexual e combater o assédio. Lidava com um problema que sabia ser sistémico, mas para o qual o mainstream não tinha despertado - hoje, ele é “mais um campo de batalha nas guerras culturais da América”, como proclamava há dias a revista Economist, em pleno potencial de poder catalisador de mudança.

No dia 15 de Outubro de 2017, Burke viu a expressão ser usada como hashtag por uma actriz conhecida, Alyssa Milano, pedindo que quem tivesse sido alvo de assédio ou agressão sexual lhe respondesse “me too” no Twitter. Dez dias antes, tinha sido um conjunto de actrizes como Ashley Judd  e Rose McGowan, mas também trabalhadoras sem fama como Lauren O’Connor, a denunciar o assédio, violência e discriminação sexual do poderoso produtor Harvey Weinstein numa investigação do New York Times. Foi há precisamente um ano, e o mundo começou a ouvir.

Depois, Ronan Farrow escrevia na New Yorker outra reportagem em que novos nomes, como os de Asia Argento, se juntavam ao retrato. Ao longo desses febris dias de Outubro, mais nomes se juntavam - Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie - e se misturavam com os de trabalhadoras desconhecidas do grande público. As duas investigações ganhariam o prémio Pulitzer de Jornalismo de 2017. Muitas outras se seguiriam. Falava-se numa onda, em ajuste de contas.

A indignação pela eleição de Donald Trump apesar de 19 acusações de assédio e de uma gravação em que se gabava de, sendo famoso perante mulheres bonitas, poder “agarrá-las pela rata”, a suspeita de actos repetidos de violação (então) sem castigo como os de Bill Cosby ou do assédio dos conservadores dos média Bill O’Reilly e Roger Ailes, da Fox, eram a sua antecâmara. As celebridades davam a visibilidade da sociedade do espectáculo a uma nova forma de encarar a credibilidade da vítima. “Ser ouvido é metade da cura”, disse há dias à revista Variety a actriz Chantal Cousineau, uma de cerca de 400 mulheres que acusa o realizador James Toback de violação. Falava disso há 20 anos e não era levada a sério. “Em Outubro disse ‘Alguém está disponível para falar sobre James Toback?’. Numa semana, éramos 38. Parámos de contar às 395.”

No mundo da política, nas empresas, em Silicon Valley, na Nike ou no McDonald’s, o apelo “me too” tornou-se #MeToo e o momento tornava-se num movimento. “De uma vez só desde Outubro passado, milhões de pessoas ergueram as mãos e as vozes como parte das muitas pessoas que experienciaram o assédio, a agressão e o abuso sexual. Mais de 12 milhões em 24 horas no Facebook. Meio milhão em 12 horas no Twitter. E o número continuou a aumentar”, recorda Tarana Burke num texto de opinião na Variety.

“Vejo o MeToo como o mais recente de uma série de movimentos activistas progressistas que têm cativado o povo americano e perturbado o statu quo na última década. Movimentos como Occupy Wall Street, Black Lives Matter”, elenca Cassandra Smolcic, designer gráfica que denunciou pela primeira vez a má conduta de John Lasseter na Pixar. Mas apesar das suas conquistas, o movimento tem as suas limitações.
Se não mudarmos o foco e olharmos de facto para as pessoas que dizem ‘me too, vamos desperdiçar uma oportunidade verdadeiramente valiosa de mudar a natureza do nosso pensamento sobre a violência sexual”, diz Burke sobre a necessidade de não limitar o problema a Hollywood e à queda de homens poderosos.

Botões de pânico

Este despertar maciço germinava em anos de popularização dos estudos de género e de luta no terreno contra o assédio sexual. “Antes deste ano havia mulheres que vinham ter connosco e nos contavam o que acontecera mas não queriam dizer nada publicamente porque sentiam vergonha”, explica à Time Mily Treviño-Sauceda, co-fundadora da Alianza Nacional de Campesinas, que reúne mais de 700 mil trabalhadoras rurais e que há 25 anos trabalha sobre o assédio. “Mas quando as mulheres da nossa comunidade começaram a ver as mulheres de Los Angeles e de diferentes indústrias a quebrar o silêncio, quiseram dar voz ao assunto.” Uniram-se às estrelas no #MeToo com cartas e nas ruas.

O que conseguiu um ano de MeToo na América real - e também na América aspiracional? Em Julho, Chicago promulgou a portaria “Hands Off Pants On” para dar às empregadas dos hotéis “botões de pânico” que lhes permitam dar alerta se forem atacadas por hóspedes - grandes cadeias, como Hilton, Hyatt ou Marriott, vão aderir depois de anos de denúncias de ataques; os trabalhadores do McDonald’s fizeram o primeiro protesto nacional contra o assédio sexual a 18 de Setembro porque a empresa nada mudou depois de 10 queixas de assédio.

No último ano, o número de pessoas a pedir aconselhamento legal por casos de assédio à National Domestic Workers Alliance em Nova Iorque aumentou por causa do MeToo, escreve a Economist. Aumentou o número de processos contra empresas por questões de género, da discriminação aos custos de casos de assédio, e gigantes como a Google e a Fox estão nesse rol. Os acordos de confidencialidade, uma das ferramentas de silenciamento das alegadas vítimas que o caso Weinstein deu a conhecer ao grande público, são agora proibidos às empresas em Washington e a Califórnia deve aprovar em breve uma lei que acabará com as cláusulas que impedem os funcionários de processar os empregadores, revela a revista.

A Time’s Up, a organização de apoio às vítimas de assédio nascida com rostos como Reese Witherspoon, Oprah Winfrey ou Ava DuVernay, tem sido sobretudo uma operação de comunicação, mas a acção está a começar, prometem. Tem um fundo de defesa judicial onde trabalha Tina Tchen, ex-chefe de gabinete de Michelle Obama, cujos primeiros 13 milhões de dólares vieram sobretudo de donativos das agências de talentos de Hollywood, e actualmente conta com 21 milhões de dólares - segundo a Economist candidataram-se já a apoio legal 3500 pessoas, dois terços das quais trabalhadores de baixos rendimentos, homens e mulheres vindos da construção, da polícia ou das prisões, como detalhou Tina Tchen à BBC. Estão a trabalhar com os sindicatos para criarem novos códigos de conduta que responsabilizem os empregadores e não só os perpetradores, pelo assédio. Já a organização MeToo lança este Outubro um site e um fundo em parceria com a New York Women’s Foundation para angariar 25 milhões de dólares para trabalhar ao longo de cinco anos para o fim da violência sexual.

“Queremos paridade, igualdade salarial, igualdade racial. Estes movimentos intersectam-se”, defende Chantal Cousineau na Variety. O discurso dos activistas não esquece o aspecto sistémico do problema. E também não esquece o poder das grandes promessas vazias que se ficam pelos gabinetes de relações públicas, nem o muito que falta fazer.

Publicamente as empresas do entretenimento dizem que estão a adoptar “políticas de tolerância zero” para o assédio, por exemplo. Nasceram várias organizações para aumentar a diversidade, e a presença de mulheres em particular, na imprensa ou nos bastidores dos média e cinema, e contactos com os sindicatos para aumentar a segurança no local de trabalho. “Mas em privado, há uma reacção a fermentar, com muitos executivos, realizadores e estrelas a queixar-se de que o #MeToo foi longe demais”, avisa a crítica de TV Caroline Framke. “Não trabalhei um único dia desde o artigo do Los Angeles Times”, diz Cousineau sobre ter dado a cara na investigação sobre James Toback. “É um sinal de um sistema estragado.”

Outras vítimas sexuais sentem-se excluídas do MeToo, que nos média focou quase tudo nas mulheres e nas celebridades e esqueceu outras comunidades. “Não sou uma actriz bonita e branca. Sou uma pessoa jovem, queer, negra e não-binária com um trabalho de escritório”, escreveu Ebony Miranda, descrevendo ter sido alvo de uma agressão sexual no meio do frenesim de hashtags #AskHerMore, #TimesUp, #WhyIStayed, #WhyIDidntReport sem sentir que eles poderiam incluí-la. “Tem sido uma experiência incrivelmente solitária”, escreveu numa carta enviada ao New York Times.

Maior que Hollywood

No último ano, figuras queridas do público distorciam-se sob o peso da suspeita e a produção cultural e eram afectadas de forma temporária ou permanente. Os actores Kevin Spacey e Louis C.K., respeitados pelo público, tornavam-se tóxicos depois de serem acusados em novas investigações jornalísticas de assédio sobre homens e mulheres, respectivamente. Os espectáculos de Louis C.K. eram eliminados do Netflix e a sua série no FX era cancelada; a nova temporada da série House of Cards vai estrear-se daqui a um mês sem Kevin Spacey, actor que foi apagado do filme Todo o Dinheiro do Mundo por Ridley Scott; a série Transparent ficou sem o protagonista Jeffrey Tambor. O Nobel da Literatura fica por entregar este ano por um caso de assédio na órbita da Academia Sueca.

Há ainda Dustin Hoffman ou Morgan Freeman, os realizadores Bryan Singer, Luc Besson ou John Lasseter, os jornalistas Matt Lauer e Charlie Rose, o escritor Junot Díaz, a suspeita sobre Woody Allen, a queda do presidente da TV CBS Les Moonves, a condenação do treinador Larry Nassar a 360 anos de prisão. O português Cristiano Ronaldo, cuja alegada violação em 2009 volta agora a público por a sua acusadora sentir que as vítimas de crimes sexuais são encaradas de outra forma - é-lhes dado o benefício da dúvida, da credibilidade.

E há Asia Argento. A alegada vítima de Harvey Weinstein primeiro negou, mas admitiu esta semana ter tido relações sexuais com um actor menor, Jimmy Bennett, que se queixa de ter sido vítima de “agressão sexual”. Em Agosto, soube-se ainda que assinou um acordo que limita as suas possibilidades de a processar. O caso Argento foi, em Agosto, um desafio tão grande ao movimento #MeToo quanto a carta aberta de Catherine Deneuve e outras actrizes francesas ou a opinião da escritora Daphne Merkin no New York Times contra a restrição sexual que temem que resulte do actual momento.

Discute-se hoje sobre políticas sexuais e os limites e nuances do consentimento, há muitas críticas sobre o julgamento no tribunal da opinião pública e os ditos excessos do momento - que são denunciados, numa peculiar dupla, tanto pelo actor de esquerda Sean Penn quanto pelo Presidente Trump. “É um padrão muito perigoso para o país”, disse recentemente sobre as acusações de agressão e tentativa de violação que pendem sobre o seu nomeado para o Supremo Tribunal, Brett  Kavanaugh, protagonista de um momento-chave MeToo e em curso. A audição da queixosa Christine Blasey Ford foi vista em directo por milhões de pessoas e no local duas sobreviventes de violência sexual, Ana Maria Archila e Maria Gallagher, que depois encurralaram o senador conservador Jeff Flake num elevador: “Eu fui sexualmente atacada e ninguém acreditou em mim”, gritou-lhe Gallagher. Horas depois, ele mudava o sentido do seu voto e condicionava a aprovação de Kavanaugh, protagonista de audições que têm testado os limites do movimento #MeToo, a uma investigação federal. O MeToo saldou-se até agora na demissão ou saídas de um senador democrata, Al Franken, oito membros da Casa Branca e três candidatos ao Congresso, bem como um juiz federal.

“Precisamos de aplicar um sistema justo do devido processo legal”, defende Lauren Sivan, a jornalista que diz ter sido agarrada e beijada à força por Weinstein num restaurante, numa cena em que ele acabou a masturbar-se. Até agora, só Bill Cosby, cujas violações antecedem o MeToo, foi condenado no pós-MeToo; Harvey Weinstein começa a ser julgado em Novembro; há investigações policiais locais em torno dos casos de Spacey, ou de Argento, e a maioria dos nomes conhecidos acusados de assédio nega os actos.

Louis C.K. assumiu os seus actos - masturbação em público, frente a colegas - e pediu desculpas às mulheres que assediou. Voltou aparecer em público, de surpresa, para um curto espectáculo de stand-up em Agosto. No domingo passado fê-lo novamente na Commedy Cellar em Nova Iorque, gerando apupos, saídas mas também muitos aplausos. A comediante Alli Breen escreveu no Twitter: “Parece que ele não tem estado a ver as audições de Kavanaugh durante o seu ‘castigo’”.

“Não há um sobrevivente-modelo”, avisou Tarana Burke sobre Asia Argento como voz tutelar de um fenómeno complexo. A activista ganhou uma fama que não procurava e tornou-se o rosto mais real do movimento. Burke acolheu as actrizes glamorosas como aliadas. Os Óscares, os Globos de Ouro foram Time’s Up e MeToo, protestos na passadeira vermelha e discursos inflamados, com ela e outras activistas de braço dado com as estrelas. A "pessoa do ano" da Time, em 2017, foram as denunciantes. Mas os Emmys, há duas semanas, já passaram quase sem pins nem discursos. Também não há percursos-modelo para um movimento com tanta gente dentro de um hastag. “O objectivo [do MeToo] é fornecer um mecanismo de apoio aos sobreviventes e levar as pessoas à acção”, escreveu Burke sobre a sua organização, pedindo mais conversa sobre responsabilidade e mudança e menos sobre crime e castigo. “Este movimento ainda tem de ser alimentado por pessoas comuns que votam, que têm voz, que são activas, que estão atentas e cientes de que ele é muito maior do que Hollywood, e maior do que a política.”