Entrevista

Michael Isikoff: “Trump permitiu e facilitou uma conspiração criminosa russa para interferir nas eleições”

O jornalista norte-americano investigou a fundo a intromissão russa nas presidenciais de 2016 e argumenta que a postura de Trump foi suficiente para favorecer a estratégia de Moscovo. Acredita que o Presidente se vai “mexer rapidamente” para afastar Mueller da investigação.

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Michael Isikoff Miguel Manso

É jornalista e co-autor do livro Roleta Russa (Casa das Letras), um trabalho de investigação sobre os bastidores das últimas presidenciais nos Estados Unidos (2016) e que, reunindo e analisando testemunhos de quem acompanhou de perto a estratégia russa para influenciar as eleições, levanta o véu sobre um dos mais sofisticados ataques externos à democracia norte-americana. Correspondente de investigação do site Yahoo News, Michael Isikoff passou pela Web Summit para discutir o papel das redes sociais nas eleições democráticas e falar sobre o livro – escrito com David Corn – que diz ser o único que “junta as peças todas” e com o qual garante ser possível argumentar que Donald Trump amparou a acção criminosa da Rússia, independentemente de ter cooperado ou não com o Kremlin. Uma vez que a entrevista decorreu no dia das eleições nos EUA, na terça-feira, o seu desfecho foi discutido posteriormente.

Não faltam livros, artigos ou peças jornalísticas sobre a interferência russa nas presidenciais dos EUA. O que é que este livro traz de diferente?

Foi escrita imensa coisa, fragmentos da história, textos dedicados a partes específicas e variadas a ingerência da Rússia nas eleições, mas era necessária uma narrativa cronológica para as pessoas perceberem todo o contexto envolvente. O ataque russo à democracia americana não surgiu do nada, tal como as relações entre Trump, os russos e [Vladimir] Putin não começaram de um dia para o outro. Há antecedentes históricos importantes. Para além disso, hoje sabe-se que o falhanço dos serviços secretos americanos em 2016 foi muito mais grave do que o que se pensava na altura, pelo que era necessário explicar porquê. Fomos os primeiros a juntar todas as peças numa só narrativa.

A demora do Partido Democrata e da Administração Obama em perceber que o hacking russo era sério foi o factor-chave para o sucesso da estratégia de Moscovo?

Sem dúvida. Apesar dos múltiplos avisos que recebeu, o Governo americano – nos seus vários níveis – andou a dormir durante demasiado tempo e não compreendeu totalmente o que os russos estavam a fazer. No livro damos conta destas advertências que Washington recebeu e relatamos que os serviços secretos em Moscovo avisaram repetidamente as autoridades sobre o guião de Putin para atacar as democracias liberais, incluindo a americana. O facto de os avisos não terem tido a atenção que mereciam permitiu aos russos chegarem onde chegaram.

Identifica duas vertentes do plano: o roubo e divulgação de emails privados – através de pirataria informática –, e a mobilização de um ‘exército’ para difundir notícias falsas pelas redes sociais. Em teoria é mais difícil combater a primeira, mas para os EUA foi mais custoso reagir à segunda. Porquê?

Há uns anos não passava pela cabeça de ninguém que as redes sociais poderiam ser usadas ou exploradas com propósitos políticos, para influenciar o desfecho de uma eleição. O próprio Facebook, ou o Twitter, não tinham essa noção. Hoje compreendemos melhor este tipo de actuações e a forma como exploram o descontentamento das pessoas. A ameaça transformou-se num fenómeno mundial que, na maioria dos casos, joga a favor de Putin e do Kremlin, dando-lhes oportunidades para alargar a sua influência pelo mundo. No caso das presidenciais americanas o que foi espantoso foi o quão cegas estiveram as autoridades em relação à ofensiva russa nas redes sociais e aos seus trolls. Foi uma situação que passou ao lado tanto do FBI, como da CIA ou do Departamento de Segurança Nacional. Ninguém juntou as peças. Quando no Verão de 2016 a Administração Obama começou a discutir como reagir aos ataques informáticos, à guerra de informação, à penetração nas bases de dados eleitorais e à divulgação de emails pela Wikileaks, estava totalmente alheada da estratégia de Moscovo nas redes sociais. Era algo que nem fazia parte da discussão.

A preparação para estas intercalares já foi melhor?

Talvez, mas nestas eleições não houve sinais evidentes de uma intromissão russa. Também nunca esperei que houvesse. Os russos são muito espertos, são bons no que fazem e se sentirem que estamos alerta vão manter-se fora do radar e reagir com algum plano que não esperamos. 

E o eleitor comum americano? Está hoje mais alerta para estas estratégias de manipulação nas redes sociais?

As pessoas mais influenciáveis por este tipo de notícias provavelmente não estão. As fake news são bem-sucedidas porque apontam a eleitores que são, por natureza, susceptíveis a determinadas mensagens. Aqueles que querem realmente acreditar em algo, acreditam. Vêem um post no Facebook que alimenta os seus próprios preconceitos e não hesitam em partilhá-lo.

O livro dá grande destaque às ambições antigas de Trump em fazer negócios com os russos. Quão importante é este dado para a história?

Se queremos compreender a visão de Trump sobre as sanções dos EUA e da UE à Rússia – durante a campanha insistiu que queria acabar com elas –, temos de olhar para os esforços que fez para entrar em negócios no país. Em 2013, quando organizou e presidiu ao concurso Miss Universo em Moscovo, Trump acordou com Aras Agalarov – um oligarca muito próximo de Putin – construir uma Trump Tower na capital russa. Trump Jr. foi colocado na liderança do projecto e a Ivanka chegou a viajar para Moscovo em busca de potenciais localizações para o edifício. O problema é que em Fevereiro de 2014, Putin anexou a Crimeia e interveio na Ucrânia e o Ocidente impôs as sanções. Uma das entidades atingidas por essas sanções foi o Sberbank, um banco cuja maioria é detida pelo Estado russo e que estava na calha para financiar o projecto. O desejo de Trump de expandir os seus negócios para a Rússia foi travado pelas sanções, pelo que, a sua principal e primeira interpretação das mesmas é a de que ‘lixaram’ o seu acordo. No fim das contas, o que mais importa ao Presidente são as suas empresas e os seus negócios.

Tem hoje mais convicções ou mais dúvidas sobre o papel de Trump ou da sua equipa de campanha na intromissão russa?

Falar em conspiração [collusion] ainda é demasiado controverso e obscuro, à luz do que veio a público. Espero que a investigação de Robert Mueller clarifique a narrativa, mesmo estando consciente de que talvez nunca se chegue ao fundo da questão ou se venha a saber se houve coordenação, total ou parcial, entre a campanha de Trump e o Kremlin. Em última instância, e é possível argumentar nesse sentido, Trump permitiu e facilitou, através das suas declarações durante e depois da campanha, uma conspiração criminosa russa para interferir nas nossas eleições. Os russos incorreram em crimes federais, roubaram emails e usaram-nos com fins políticos. Mueller indiciou militares e agentes secretos russos por estes crimes e Trump, ao desvalorizar, ignorar e negar publicamente e repetidamente todos estas questões, contrariando as conclusões dos serviços secretos, da justiça americana e de alguns membros da sua própria Administração, amparou a acção de Moscovo.

Há alguns anos era inconcebível que o Partido Republicano e muitos dos seus eleitores admitissem que um candidato seu defendesse ou elogiasse Putin e a Rússia...

Os Republicanos abandonaram os seus ideais para que Trump pudesse ser eleito. Queriam um vencedor, queriam voltar ao poder e por isso fizeram um ‘pacto com o Diabo’ e venderam-lhe a sua alma. Depois da eleição, mesmo havendo algumas excepções dentro do partido, a estratégia tem sido a de minimizar a actuação do Presidente. Isto é inédito na história do Partido Republicano.

As eleições intercalares foram um referendo a Trump? Ele fez questão de o assumir.

Sim, ele centrou a eleição na sua figura. Do seu ponto de vista não foi um risco porque mesmo que as coisas lhe corressem mal, Trump nunca assumiria que a culpa era sua, tem o hábito de dizer é de outra pessoa qualquer.

Que leitura faz dos resultados?

Os próximos tempos vão ser ainda mais assustadores e loucos em Washington. A eleição demonstrou o quão polarizados continuam os EUA. Neste momento existem dois países dentro de um, profundamente divididos em questões fundamentais e valores. Com a conquista da Câmara dos Representantes os democratas terão nas mãos um enorme dilema. A base do partido vai exercer uma pressão enorme sobre os congressistas, para que iniciem rapidamente um processo de impeachment a Trump, mas os seus líderes estão receosos em ir por esse caminho, por saberem que, para além de ser impossível concretizá-lo num Senado republicano reforçado, vai dividir ainda mais o país, alimentar a raiva de muita gente e dificultar-lhes a tarefa para as próximas presidenciais [2020]. Um impeachment fracassado pode fortalecer o Presidente.

E espera novos desenvolvimentos da trama russa?

Acho que o Partido Democrata vai lançar investigações, pedir audições e exigir novas intimações a Trump e à sua Administração, por causa das ligações a Moscovo. Para além disso, acredito que Mueller vá anunciar novas acusações – possivelmente contra Roger Stone [amigo e ex-conselheiro de Trump] – e avançar no seu relatório. Por outro lado, o Presidente vai mexer-se muito rapidamente para tentar abrir caminho ao afastamento do próprio Mueller. Já despachou Jeff Sessions [procurador-geral] e o próximo deve ser Rod Rosenstein [vice-procurador-geral].

Que impacto para a investigação pode ter o afastamento de Sessions?

Penso que a coloca em sérios riscos. Mueller terá agora de reportar a Matthew Whitaker, um homem leal a Trump e um forte crítico da investigação. Mesmo que não afaste Mueller, pode restringir severamente a sua investigação. É até provável que encubra ou omita os próximos relatórios dele. Certo é que muitas das questões que levantámos na Roleta Russa vão pairar sobre a Casa Branca durante os próximos anos. Devemos preparar-nos para uma verdadeira crise política em Washington. Vai ser explosivo.