Putin voltou a garantir que não se meteu nas eleições dos EUA e Trump apoiou-o

Reacções indignadas à forma como o Presidente norte-americano ignorou a acusação contra espiões russos e ainda atacou Partido Democrata.

Relações Públicas, Comunicação
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Trump ainda recebeu uma bola oficial do Mundial da Rússia das mãos de Putin MAURI RATILAINEN/EPA

A investigação sobre a interferência da Rússia nas eleições norte-americanas de 2016 – com a acusação de 12 espiões russos por pirataria informática para influenciar o processo eleitoral – acabou por marcar a cimeira de Helsínquia (Finlândia) entre o Presidente norte-americano, Donald Trump, e o russo, Vladimir Putin. O Presidente russo negou, e o norte-americano apoiou a negação.

“Tive de repetir o que disse antes: o Estado russo nunca interferiu nem nunca vai interferir na política interna dos Estados Unidos, incluindo eleições”, garantiu Putin na conferência de imprensa que se seguiu ao encontro de mais de duas horas entre ambos. E revelou que foi Trump a puxar o assunto nas conversações.

Trump aceitou as explicações do seu homólogo russo. Garantiu que não existiu qualquer “conluio” entre a sua campanha e Moscovo: “Foi uma campanha limpa. Derrotei Hillary [Clinton] facilmente”, disse, acrescentando que a investigação sobre as suspeitas de interferência russa, liderada pelo procurador-especial Robert Mueller, “é um desastre para o país”.

E lançou mais suspeitas sobre o caso, em plena conferência com outro chefe de Estado: "Onde está o servidor do Partido Democrata [que foi atacado por hackers]? Onde estão os e-mails de Clinton?"

Estas declarações provocaram fortes críticas nos EUA. John Brennan, ex-director da CIA (entre 2013 e 2017), classificou-as mesmo de "traição": "O desempenho na conferência de imprensa de Donald Trump em Helsínquia ultrapassa o limite de 'crimes e delitos graves'. Não foi nada menos do que traição. Não só os comentários de Trump foram imbecis, como ele está totalmente no bolso de Putin. Patriotas Republicanos: Onde estão vocês?", escreveu no Twitter.

O líder da Câmara dos Representantes, o republicano Paul Ryan, disse que "não há dúvidas" de que Moscovo interferiu nas presidenciais de 2016 e que o Presidente tem de "reconhecer que a Rússia não é aliada" dos EUA. "Não há equivalência moral entre os EUA e a Rússia, que continua hostil aos nossos valores e ideais mais básicos. Os EUA têm de estar focados em responsabilizar a Rússia e de por um ponto final nos seus vis ataques à democracia", afirmou Ryan, num comunicado citado pela Reuters, tendo sido mais um de entre vários responsáveis republicanos a criticar a prestação de Trump.

Bernie Sanders, senador e candidato às últimas primárias democratas, juntou-se às críticas considerando que Trump deu um "espectáculo embaraçoso". Anderson Cooper, jornalista da CNN, foi mais longe e afirmou que este foi "um dos desempenhos mais vergonhosos de um Presidente americano".

O incómodo pelas afirmações de Trump parece até ter surgido do interior da Casa Branca. Segundo cita a CNN, uma fonte oficial da Administração garante que esta não era abordagem à questão da alegada interferência russa que estava planeada. 

O Presidente norte-americano fez tábua rasa da acusação contra 12 russos ligados ao GRU, a agência de espionagem militar da Rússia. Baseada na investigação sobre a interferência nas eleições norte-americanas de 2016 da equipa do conselheiro especial Robert Mueller, a acusação, emitida a poucos dias do encontro entre ambos os líderes,é um documento de 29 páginas que indicia estes espiões pelos crimes de pirataria informática e roubo de informação dos servidores do Comité Nacional Democrata, do Comité Democrata de Campanha do Congresso e da campanha presidencial de Hillary Clinton.

Putin disse que não conhece em profundidade a acusação, e que se guia "apenas por factos e não por rumores".

O documento, como diz o New York Times, providencia “detalhes nunca vistos sobre como os espiões informáticos russos actuaram”, tendo por base informações e interrogatórios dos serviços secretos americanos, britânicos e holandeses. Os acusados fizeram-se passar por um hacker romeno denominado de Guccifer 2.0 de forma a perpetrarem os ataques informáticos.

O WikiLeaks foi fundamental para divulgar as informações roubadas da campanha de Clinton. Mas a nova acusação relata que o grupo de russos entrou em contacto com outros americanos. No entanto, não é claro se estariam ao corrente de que o grupo russo era constituído por espiões.

Um dos norte-americanos contactados foi Roger J. Stone Jr., amigo de longa data de Trump e que trocou mensagens com Guccifer 2.0 durante a campanha. Stone garante que “pensava que se tratava de um hacker romeno, porque foi assim que se apresentou”.