Morreu John McCain, o político que era a "mensagem ideal"

O senador tinha 81 anos e durante 60 serviu os EUA. Nos últimos anos travou uma batalha contra o cancro e contra Trump.

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O senador republicano tinha 81 anos Reuters/Brian Snyder
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Manifestações de pesar Reuters/CONOR RALPH
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Homenagem junto a um memorial aos militares que lutaram no Vietname Reuters/KHAM
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O senador John McCain, que representava o estado americano do Arizona pelo Partido Republicano, morreu na madrugada deste domingo, aos 81 anos, vítima de cancro no cérebro. “A nação chora”, disse a líder da minoria democrata na Câmara de Representantes, Nancy Pelosi. Para o homenagear, o ex-Presidente George Bush citou o general Patton, que dirigiu as operações militares americanas na Europa na II Guerra Mundial: “É ridículo e errado chorar os homens que morrem. Devemos agradecer a Deus por homens como estes terem existido.”

Herói americano, patriota, homem de coragem e de espírito intrépido — na hora do elogio, amigos e adversários decalcam adjectivos e frases. John McCain já não é o “maverik” — o rebelde — do Senado, o inconformista refilão que entrou naquela câmara comprometido com as suas escolhas e que deixava os senadores incomodados quando criticava ideias, viessem de que partido e de quem quer que fosse, amigo ou adversários.

Nos últimos 18 anos, desde que se apresentou ao país na sua primeira campanha eleitoral (em 2000), a percepção de McCain e a percepção sobre McCain mudaram. Tornou-se a voz sensata, a voz da ética, a voz da política ao serviço do bem público em primeiro lugar. Tornou-se “uma mensagem ideal”, escreveu o colunista do Washington Post David Von Drehl no artigo de Março “A importância de se chamar John McCain”. Mesmo quando muitas vezes não o foi.

McCain foi sempre o primeiro a reconhecer imperfeições. “Passei grande parte da minha vida a escolher as minhas atitudes, às vezes de forma descuidada, às vezes só para satisfazer uma vaidade. Noutras vezes, fiz as minhas escolhas em nome de um bem e com bons resultados... Quando fiz boas escolhas foi para manter a minha vida equilibrada — o equilíbrio entre orgulho e arrependimento, entre liberdade e honra”, lê-se no livro auto-biográfico de 1999 Faith of My Fathers.

Depois da guerra, a política

John Sidney McCain III nasceu a 29 de Agosto de 1936 na zona do Canal do Panamá, numa família com tradições militares — um antepassado foi ajudante de George Washington durante a Guerra da Independência. O avô paterno, o primeiro John McCain, foi um dos comandantes das forças americanas no Pacífico na II Guerra Mundial e o pai, John McCain II, comandou as Forças Armadas no Pacífico durante a Guerra do Vietname. O terceiro John também foi criado para o combate. Estudou na Academia Naval, onde se rebelava contra regras e quase foi expulso. Formou-se como piloto naval.

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O militar (o da direita, em baixo) com o seu esquadrão Reuters

Em 1965, casou com Carol Shepp; o casal teve uma filha, Sidney McCain. Partiu para o Vietname onde, no dia 26 de Julho de 1967, quando se preparava para terminar uma missão de bombardeamento no Norte do Vietname — pertencia ao esquadrão The Saints (os santos), que realizava missões perigosas e arrojadas —, o seu aparelho foi atingido. Ejectou-se e caiu num lago no centro de Hanói, onde foi capturado. Foi retirado da água pela multidão, tinha os braços e um joelho partidos e foi agredido por militares norte-vietnamitas com a ponta e o cano de baionetas, escreveu nas memórias.

Levado para a prisão que os presos baptizaram como “Hanói Hilton”, pelo tratamento de fome, espancamentos e tortura a que os prisioneiros de guerra eram sujeitos, ali ficou cinco anos e meio, recusando deixar os companheiros (e tornar-se uma figura de propaganda para o Norte, que o tratava por “crown prince” (herdeiro da coroa) quando lhe propuseram a liberdade por ser filho do almirante do Pacífico. Sob tortura, porém, assinou uma confissão.

A prisão, a tortura — que o Vietname sempre negou — levaram McCain à mais decisiva das suas escolhas imperfeitas. No regresso a casa, avança para a política, fiel à história de uma família dedicada a servir o país, como explicou.

A vida privada também mudou. Em 1979, quando ainda era casado, numa festa para militares no Havai, McCain conheceu Cindy Hensley, quase 18 anos mais nova. Foi Cindy quem contou que ambos mentiram na idade — ela disse que era mais velha, ele que era mais novo. Casaram.

“O meu coração está partido. Tive muita sorte por ter vivido a aventura de amar este homem incrível durante 38 anos”, escreveu Cindy McCain no Twitter. “Ele morreu da mesma maneira que viveu, sob os seus termos e condições, cercado pelas pessoas que ele amava, no lugar que ele mais amava.”

Nas três décadas em que representou o Arizona no Senado, tentou duas vezes a presidência, sem sucesso. Na primeira, em 2000, saiu para a rua a bordo do “Straight Talk Express” (expresso da conversa honesta), o nome que deu ao autocarro de campanha. “Fez uma campanha interessante, o que é raro, mas não muito boa”, lembrou Von Drehle. “O candidato McCain esperava emular Ronald Reagan, mas perdeu muitas vezes o foco.”

Foi, porém, uma campanha de charme, com McCain a dar-se a conhecer aos eleitores e aos jornalistas, com quem partilhava — sobretudo na fase inicial, no New Hampshire ou no Iowa — autocarro e bastidores, falando da vida privada, dos filhos, de Cindy, contando memórias do Vietname, sentando-se ao fim do dia com os repórteres, distribuindo pequenos presentes (muitas bolas de baseball). “A alegria de McCain era contagiosa”, escreveu Von Drehle.

Perdeu a nomeação do Partido Republicano para George W. Bush. Em 2008, conseguiu a nomeação, mas perdeu para o democrata Barack Obama. Cometeu um “erro”, assumiu, ao escolher uma figura controversa, Sarah Palin, para candidata a vice-presidente.

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McCain e Palin perderam a eleição para Obama e Biden Reuters

No seu percurso defendeu intervenções militares dos EUA, por exemplo no Iraque e na Síria — os analistas dizem que a opção fez parte da sua herança como militar que participou numa guerra (contra o comunismo no Vietname) e da sua pertença a uma geração, que acaba, habituada ao intervencionismo militar americano no mundo.

Noutro seu livro de memórias (mais políticas), The restles wave: good times, just causes, greatfights and other appreciations, McCain diz lamentar não ter escolhido, em vez de Palin, o senador democrata Joe Liberman - um dos seus grandes amigos - para número dois.

Voz crítica no Senado

A sua última campanha, para a reeleição ao Senado, em 2016, foi travada já na “era” Trump. Perante um partido que, num primeiro momento, não soube como se posicionar perante o multimilionário mas que acabaria por abraçar, McCain voltou a ser o rebelde.

Trump retribuiu a rejeição que McCain lhe deu. Num comício, Trump — que conseguiu cinco adiamentos de incorporação e não foi à guerra no Vietname — disse: “Ele não foi um herói porque foi capturado. Eu gosto é de pessoas que não são capturadas.”

Donald Trump ganhou a presidência e McCain tornou-se uma voz crítica no Senado, acusando Trump de enfraquecer os EUA, atacando violentamente o Presidente pela sua posição sobre a Rússia e pelo distanciamento em relação à NATO. “Putin não é um amigo da América, nem sequer é um concorrente. Putin é inimigo da América, não porque o desejamos, mas porque ele assim o escolheu”, disse o senador quando o cancro já o obrigara a deixar Washington e a recolher ao rancho no Arizona onde morreu, rodeado pela família. Em Setembro, afirmou-se contra o desejo de Trump anular o programa de cuidados de saúde conhecido por Obamacare, manifestou-se a favor da manutenção dos EUA no acordo de Paris sobre o clima.

Em Maio, uma funcionária da Casa Branca, Kelly Sadler, disse sobre o senador, que se opusera à nomeação da mulher escolhida por Trump para directora da CIA, por ter estado envolvida em torturas: “O que ele diz não importa, ele até está a morrer.” A Casa Branca demorou a afastar Sadler. “Não importa como se morre, importa como se vive”, respondeu a família de McCain.

A relação com Trump foi sempre azeda e a reacção do Presidente dos EUA à morte de um dos mais populares e importantes políticos contemporâneos dos EUA expressa-o: “A minha profunda condolência e o meu respeito vão para a família do senador John McCain. Estão nas nossas orações e no nosso coração”. Nas próximas horas ou dias se perceberá se a Casa Branca terá que ir mais além do que a mensagem breve no Twitter, dirigida à família.

O texto de Von Drehle “A importância de se chamar John McCain” no Washington Post foi publicado a 6 de Março e o colunista pede desculpa pelo elogio fúnebre “prematuro”. “Mas há razões gritantes para o fazer neste momento. John McCain lembra-nos que a grandeza da América é feita de pessoas que percebem que o carácter é a soma das escolhas difíceis de cada um; que a realidade não é um espectáculo de televisão; que a fama não passa de neblina mas a honra é de granito.”