McCain e as mulheres do Posto 7

As mulheres do Posto 7 da Legião Americana não gostam de John McCain. Porque o veterano que quer ser Presidente lhes estragou a noite. Chegou às sete, quando o piano electrónico já estava afinado, e a "soiré" dançante teve que ser adiada.

São seis horas da tarde e o letreiro electrónico do Posto 7 da Legião Americana de Rochester, uma povoação no estado norte-americano do New Hampshire, anuncia música ao vivo. Um homem deambula pelo recinto de tecto muito baixo e luz amarela. Apanha copos de gin no bar e ensaia notas de "country" no piano electrónico. As mulheres seguem-lhe os passos. Estão excitadas, tentam antecipar a festa deitando moedas para dentro da "juke box" fanhosa.As mulheres do Posto 7 são todas iguais: tem cabelos pintados de louro e queimados das permanentes, t-shirts cor-de-rosa entaladas nas calças justas e homens de bigode e sorriso de cerveja pendurados nos braços. "Alguma coisa me diz que isto não vai correr bem", antecipa, Lucy, 43 anos, que tenta puxar o candidato a namorado para a pista de dança vazia.Mas o homem, mais velho, resiste e tenta cancelar o "date". "Eu fui à guerra. Estive no Japão mas não cheguei ao Vietname. Não vou mentir e dizer que tenho pena porque ouço os meus amigos e sei que não viveram a melhor época das suas vidas no Vietname", diz Bob, tentando explicar que não é por falta de interesse em Lucy que se quer ir embora.O Posto 7 é um dos clubes da Legião Americana, fundada nos anos 20 pelos veteranos da I Guerra Mundial e que hoje agrega os homens que serviram em todos os conflitos em que os norte-americanos participaram. Não se pode dizer que é um salão de festas tradicional - num canto da sala, entre a máquina de pipocas e o bar, há uma vela eléctrica em memória de Moe, que morreu na semana passada. Quando os veteranos precisam de honrar os seus heróis, são eles que mandam no Posto 7. E, na sexta-feira à noite, decidiram oferecer o edifício a John McCain, o Senador do Arizona que cruza o New Hampshire à procura de votos que o tornem o próximo Presidente dos Estados Unidos.A desiludida Lucy está pouco interessada em McCain. Bob não gosta de lembrar "coisas tristes". Por isso, pouco antes das sete da noite - quando Lucy cedeu por perceber que a "soiré" dançante estava atrasada -, decidiram deixar o clube onde centenas de pessoas, sobretudo veteranos, se reuniram para aplaudir John McCain, o mais famoso prisioneiro de guerra dos EUA que passou cinco anos e meio em campos do Vietname do Norte."Está uma noite típica do Arizona", ironizou McCain. "Quando sai da camioneta parecia que o coração ia ficar sem coração". Apesar de andar há um mês no New Hampshire - no Posto 7 fez o 103º comício -, o Senador não consegue habituar-se ao frio que congela a tinta dentro das canetas, nem deixa de se espantar com o metro de neve que cobre os terrenos.John McCain foi a Rochester explicar que, na próxima terça-feira precisa de todos os votos para conseguir ser eleito candidato do Partido Republicano às eleições presidenciais de 7 de Novembro. Apesar de ser um pequeno e pouco povoado território (1,2 milhões de habitantes), o New Hampshire conseguiu o estatuto de estado-estrela do processo eleitoral norte-americano. Porque é aqui que se inaugura a época das primárias, onde a votação é secreta e, por isso, os resultados são considerados uma amostra do apoio que os candidatos poderão receber a nível nacional. Diz uma tradição só quebrada por Bill Clinton que ninguém chega a Casa Branca sem vencer no New Hampshire. (Nas primárias os eleitores escolhem os delegados que, nas convenções dos partidos, vão eleger o nome que vai disputar a presidência; quantos mais delegados um candidato conseguir, mais hipóteses tem). McCain, que optou por jogar todos os seus trunfos no New Hampshire (não se apresentou no "caucus" do Iowa), sabe que se perder neste estado terá poucas hipóteses de bater o principal rival republicano, George W. Bush. Foi essa mensagem que quis passar aos veteranos, que formam uma fatia importante do eleitorado."A Administração Clinton é a primeira na História deste país em que o Presidente e os secretários de Estado e da Defesa não serviram nas Forças Armadas. Meus amigos, comigo isso vai acabar", disse McCain que pediu à população de mais de 60 anos para não se abster, como fez nos últimos quatro anos. O Senador, que foi piloto da Marinha, também prometeu reformar as Forças Armadas, dignificar "a farda e os que servem" e acabar com a pobreza entre os militares que "vergonhosamente, sobrevivem de cupões alimentares". Na sessão, também explicou muito didacticamente que o seu projeto de redução de impostos é "melhor" do que a de George W., porque não acaba com o excedente do orçamento o que é "vital" para as reformas que promete. O Senador fez, pela 103ª vez, o mesmo discurso. Mas, como notaram os jornalistas que acompanham o candidato, a sessão foi "um sucesso". Porque, disseram, McCain tem a capacidade de tornar engraçada uma anedota que já se ouviu dez vezes. Nas perguntas e respostas, o candidato superou-se. "Vim aqui esta noite para lhe dar mais uma oportunidade de me convencer a votar em si", atirou um homem que se apresentou como independente e economista. "Cindy McCain- disse o Senador para a mulher - senta-te ao pé do senhor".Quando os discursos acabaram, o candidato foi envolvido por veteranos ansiosos por lhe contar histórias de guerra ou por ganhar uma assinatura na auto-biografia do ex-prisioneiro de guerra cuja história vai ser adaptada para o cinema. Mas, depois de uma hora no Posto 7, o Senador conhecido por se aborrecer com a conversa dos fãs, estava ansioso por partir. Estava "cansado", explicaram os acessores - na sexta-feira deu quatro entrevistas e participou em cinco comícios, ontem repetiu a dose -, mas "entusiasmado". "Só se houver uma súbita viragem do eleitorado McCain perderá", disse aos jornalistas um dos muitos conselheiros na caravana do candidato. No sábado, as sondagens mostravam-no com 36 por cento das intenções de voto, apenas um ponto atrás de George W. Bush. Quando a caravana partiu rumo a Nashua, para um último jantar de apoio antes do descanso, os veteranos a quem McCain abriu o apetite por líquidos - "os militares são conhecidos por beber muita Coca-Cola, não é?" - correram para a porta do bar. Uma loura agressiva travou-lhes a entrada: "Isto é um clube, vamos dançar, desapareçam para outro lado". As mulheres do Posto 7 não gostaram de John McCain.