Nunca se deve voltar aonde se foi feliz, a menos que lá estejam os Arcade Fire

O regresso da banda canadiana inscrita desde 2005 no quadro de honra de Paredes de Coura foi o ponto alto dos quatro dias do 26.º Vodafone Paredes de Coura. A actuação não só não manchou a estreia de há 13 anos como contribuiu para a renovação dos votos da história de amor então iniciada.

Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Arcade Fire Paulo Pimenta
Fotogaleria
Big Thief Paulo Pimenta
Fotogaleria
Big Thief Paulo Pimenta
Fotogaleria
Big Thief Paulo Pimenta
Fotogaleria
Big Thief Paulo Pimenta
Fotogaleria
Big Thief Paulo Pimenta
Fotogaleria
Dead Combo Paulo Pimenta
Fotogaleria
Dead Combo Paulo Pimenta
Fotogaleria
Dead Combo Paulo Pimenta
Fotogaleria
Dead Combo Paulo Pimenta
Fotogaleria
Dead Combo Paulo Pimenta
Fotogaleria
Dead Combo Paulo Pimenta
Fotogaleria
Dead Combo Paulo Pimenta
Fotogaleria
Dead Combo Paulo Pimenta
Fotogaleria
Yasmine Hamdan Paulo Pimenta
Fotogaleria
Yasmine Hamdan Paulo Pimenta
Fotogaleria
Yasmine Hamdan Paulo Pimenta
Fotogaleria
Yasmine Hamdan Paulo Pimenta
Fotogaleria
Yasmine Hamdan Paulo Pimenta
Fotogaleria
Yasmine Hamdan Paulo Pimenta

Imaginem-se duas cenas de dois filmes diferentes, mas com o mesmo cenário e o mesmo protagonista. A banda sonora transita de uma para a outra, só que numa serve como uma espécie de opening title de uma acção que já decorre e na outra encerra com chave de ouro a narrativa de uma sequela há muito aguardada.

Na primeira há um corpo mutante formado por várias peças que se apresenta a outro pela primeira vez. Siderado pela magnitude da entidade que se expõe, o segundo corpo, magnetizado, é atraído para uma fusão cósmica inesperada e sem retorno. Fisicamente, as duas entidades são forçadas a separar-se, sem que esse vínculo quase espiritual seja quebrado. É essa relação que dá o mote para o segundo filme, um reencontro, que mais uma vez termina com uma despedida – mas neste capítulo a tristeza dá lugar à esperança de um regresso inevitável.

Os dois filmes fazem parte de uma saga chamada Paredes de Coura, com primeiro capítulo realizado há 13 anos; os protagonistas são os Arcade Fire, o segundo corpo é o público e a banda sonora é Wake up, hino para a eternidade desta história de amor num anfiteatro virado para o rio que nos últimos 25 anos serviu de cenário para tantas outras.

Mas na memória colectiva do festival esta é a história mais bela de todas e a que dura há mais tempo, inabalável, e agora com votos renovados depois do reencontro da madrugada de domingo, na 26.ª edição do Vodafone Paredes de Coura, que terminou em paz consigo mesmo, após mais uma aposta certeira na banda canadiana, que escreveu mais umas linhas no quadro de honra do festival.

Voltar aos sítios onde fomos felizes pode ser arriscado. A memória, já adulterada pela nostalgia, eleva as expectativas. A ansiedade de repetir um momento pode ser meio caminho andado para bater de frente com a desilusão. Quando os Arcade Fire entraram para o cartaz da edição deste ano, sabia-se que esta era uma possibilidade. Tinham estado ali em 2005. Quem lá esteve recordava o momento em que uma máquina humana próxima de uma orquestra nómada montou palco no anfiteatro de Paredes de Coura num final de tarde de Agosto. Foi precisamente Wake up a servir de chamamento para uma grande parte de público que não sabia o que esperar dos canadianos. Quais flautistas de Hamelin, hipnotizaram uma multidão que, ao ouvir os coros entoados no início do tema, largou tudo para se plantar frente ao palco. A partir dali, a História trata de contar o resto.

Com novo álbum na bagagem, Everything Now, editado em 2017, longe da genialidade do primeiro, Funeral, não havia nada que indicasse que a banda iria tentar replicar o que aconteceu há mais de uma década. Seguramente o alinhamento não seria o mesmo de 2005. A banda está em tournée a promover o novo lançamento e já tinha passado por Lisboa, para um concerto igualmente memorável num Campo Pequeno esgotado. Em Paredes de Coura repetiram a proeza – foi o único dia em que se venderam todos os bilhetes diários.

Pouco antes da 1h, a hora marcada para o início do concerto, dificilmente se conseguia furar para as zonas mais próximas do palco. Horas antes, enquanto ainda decorria a actuação da libanesa Yasmine Hamdan no palco secundário, já havia quem não arredasse pé do anfiteatro.

Disco sound ao vivo

No topo do palco, uma bola de espelhos do tamanho da vontade que os fãs tinham de reencontrar os canadianos desvendava que o último disco da banda estaria em destaque. E foi ao som da melodia da canção que lhe dá nome que surgiram em palco, recebidos como heróis da casa a que acabavam de regressar cheios de histórias novas para contar. A ovação foi imensa e arrebatadora.

Numa tela suspensa sobre o palco apareceu escrito o tema-título traduzido para português: “Tudo agora”. Estariam os Arcade Fire a pedir para que por momentos fosse esquecido o passado que os une com o público de Coura?

Em boa a hora o fizeram. O novo trabalho, de raiz disco sound, adquire uma grandiosidade ao vivo que o disco não deixa transparecer. É no palco que os temas ganham dimensão. Os Arcade Fire reúnem um par de álbuns superiores, mas como banda visual que também são é impossível não nivelarem o reportório que apresentam ao vivo no grau óptimo. Para se chegar à banda é necessário vê-la, ouvi-la e senti-la.

Marcado o território que é o presente da banda, ofereceram aos fãs um brinde: de uma assentada tocaram Power out Rebellion (lies), de Funeral (2004), e No cars go, do segundo Neon Bible (2007). E então sim, regressou-se ao passado e a 2005.

Um amor correspondido

Win Butler, vocalista e guitarrista da banda, faz uma pausa (antes de voltar ao álbum mais recente com Electric blue, cantado por Régine Chassagne no tom quase infantil e desafinado que a caracteriza) para recordar a primeira vez que os Arcade Fire ali estiveram. Comunica pela primeira vez com o público “Muitos dos que aqui estavam na primeira vez ainda eram miúdos. Nós também éramos. Hoje voltamos.” Sublinha que essa actuação memorável foi uma das primeiras vezes que tocaram na Europa.

Os Arcade Fire mal tinham começado, mas já se percebia que iam fazer, mais uma vez, o grande concerto do festival, apesar do que ali já tinham trazido, nos dias anteriores, Marlon Williams, King Gizzard & the Lizard Wizard, Fleet Foxes, Jungle, Kevin Morby e Slowdive.

O ambiente também ajudou. Das 27 mil pessoas que se calcula que estivessem então no recinto, poucas se desviaram do centro das atenções. O cenário montado no palco permitia a quem estivesse mais atrás acompanhar os movimentos frenéticos dos elementos da banda, que não pararam um segundo. As imagens no ecrã, acompanhando essas trocas de posição, misturaram-se em tempo real com outros materiais audiovisuais trazidos pelo colectivo. Um dos músicos move-se livremente pelo palco. Carrega um bombo que serve para marcar o compasso da performance. É uma espécie de clown que anima a festa de regresso. Não foram raras as vezes em que desceu ao fosso para olhar os fãs nos olhos.

Seguiram-se Put your money on me, Cars and telephones, que Win Butler explica ter escrito numa altura em que a sua família ainda duvidava do caminho que estava a seguir enquanto músico, Intervention, um recado "para Donald Trump", e The suburbs, com dedicatória a Aretha Franklin. “O nosso coração ainda dói por ela, o mundo ficou muito mais sombrio”, disse o vocalista.

Antes da recta final, os Arcade Fire passaram ainda por Ready to startSprawl II (Mountains beyond mountains) – a lembrar uma Heart of glass, de Blondie –, e Reflektor. Terminaram como tinham começado em 2005, com Wake up entoada pela plateia de milhares e milhares de pessoas. Pareciam não querer sair do palco. Quando tudo indicava que a actuação tinha terminado, voltaram a entoar o coro deste hino em conjunto com o público, todos a cappella.

Tinha terminado o reencontro num lugar onde muitos foram felizes e, desfazendo a dúvida que ainda pairava, onde também os Arcade Fire o foram (a química com o público de Paredes de Coura em 2005, disse o vocalista, permaneceu desde então como "uma inspiração"). É de facto uma história de amor, e correspondido. Ainda o público não tinha debandado, Win Butler saiu a trautear Walk on the wild side, de Lou Reed, que ficou no ar, em jeito de despedida, após uma hora e meia de laços retomados e de uma actuação que roubou o protagonismo a outras.

E não tinha faltado competência na despedida do festival: com Yasmine Hamdan, electrónica com guitarra eléctrica a cheirar a Médio Oriente; com Big Thief, indie/folk liderado por Adrianne Lenkerm, vocalista com alma atormentada que encontra na música uma saída para expulsar angústia; com Curtis Harding, que conserva a raiz do significado do termo swag; e com uns inspirados Dead Combo, que contaram com a ajuda do vocalista Mark Lanegan, imagem de marca da Seattle dos anos 1990, que por ali já tinha passado em anos idos e que regressou para vocalizar o que tinha gravado com os portugueses no novo Odeon Hotel.