Crítica

Arcade Fire reivindicaram em Lisboa o estatuto de maior banda rock da sua geração

O fiasco do último álbum espicaçou-os. Em Lisboa os canadianos deram um concerto apoteótico, mostrando que em palco continuam imparáveis.

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Miguel Manso
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Uma euforia total. Uma alegria indescritível. Uma festa sem momentos altos, porque todos foram momentos altos. Foi assim esta segunda-feira, em Lisboa, num Campo Pequeno esgotado, naquele que acabou por ser o primeiro concerto em nome próprio dos canadianos Arcade Fire em Portugal, já que antes apenas haviam tocado por estes lados em festivais.

Há dias, em entrevista ao diário espanhol El País, o cantor Win Butler havia dito que “continuavam a ser o melhor grupo do mundo em palco”. Uma afirmação discutível, mas que tem um contexto. Os canadianos sentiram-se incompreendidos no último álbum, Everything Now, do ano passado. A generalidade da crítica apontou-lhes muitas fragilidades – mais do que justas, diga-se – e comercialmente o desempenho do disco foi fraco. Muitos disseram que seria o fim de uma das bandas dos últimos 15 anos que mais sentimento de pertença gerou junto do grande público. Puro engano. Pelo contrário, fica a ideia de que se sentiram espicaçados pelo ambiente negativo à sua volta, e a desforra é servida agora em palco.  

Sorte daqueles que assistiram na segunda-feira pela primeira vez a um concerto deles. Mas também fortuna para os que não desistiram deles e ao longo dos anos puderam assistir às transformações de um grupo que foi sendo apropriado pelo centro do mercado (nada de novo, chama-se capitalismo), mas que, por ter consciência desse processo, não cessa de tentar reflectir sobre o que isso significa, actuando nos interstícios do sistema e, nesse movimento, mostrando que está desperto e não se rendeu à apatia. Azar para os melómanos mais exclusivistas e que foram desistindo deles, porque não sabem o que perderam esta segunda-feira.

Os Arcade Fire perceberam que tinham de mudar algo também. O alinhamento vai ao último álbum, mas passa em retrospectiva os outros quatro e em relação à última digressão é um espectáculo mais directo. Estão lá ainda as alusões conceptuais e a ironia dos últimos anos – a entrada em palco é feita como se fôssemos assistir a um combate de boxe –, mas agora mais diluídas, porque o que é privilegiado é a dinâmica imparável do concerto, com as canções sucedendo-se umas às outras, na maior parte das vezes sem qualquer interrupção.

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Não há muito espaço para interlocuções, juras de amor mútuo e outros devaneios habituais em concertos desta escala e com este contexto emocional. O que existe é um colectivo de músicos em palco, entusiásticos, fazendo uma festa inacreditável que contagia tudo à sua volta, agarrando literalmente o público pelos colarinhos sem qualquer remissão. Durante duas horas e meia foi assim. De apoteose em apoteose, até aquele momento final em que, indistintos, palco e multidão começam a entoar “whoa-oh, oh-oh-oh-oh, oh-oh-oh-oh”, nesse catártico tema Wake up.

O aparato cénico também ajudou. Nós, que já os vimos nos mais diversos contextos ao longo dos anos (numa igreja, num barracão industrial, em estádios e em festivais), não nos lembramos de um cenário tão ajustado para eles como o do Campo Pequeno. Um palco em forma de ringue, bem no centro do espaço, com o público em redor, possibilitando uma grande proximidade da assistência, que muitas vezes resultou nos músicos imergindo nela, deambulando entre as pessoas. 

Os primeiros 20 minutos de concerto foram uma montanha-russa de emoções, com Everything now, esse hino chamado Rebellion (Lies) com toda a gente aos saltos, Here comes the night time, Haiti e No cars go, com a secção rítmica a galopar, o violino em ascensão, as camadas sonoras em crescendo e as vozes de Win Butler, Régine Chassagne e do público gritando juntas a plenos pulmões. Depois vieram momentos mais dançantes, com o jogo de luzes a transformar o espaço numa discoteca gigante, com Electric blue, em que o falsete de Régine Chassagne assume o protagonismo, Put your Money on me ou It’s never over (Oh Orpheus), e outros mesmo tranquilos, como o enlevo orquestral de Neighborhood #4 (7kettles), do primeiro álbum, Funeral, a fazer-se sentir.

Depois mais alvoroços emocionais aos saltos com canções como Neighbordhood #1 (Tunnels) e Ready to start ou as dançantes Sprawl II (Mountains beyond mountains), Reflektor e Afterlife, para tudo desembocar em transcendência total com Neighborhood #3 (Power out), talvez a canção que melhor personificou o concerto de Lisboa. O som esteve muito longe da perfeição em termos de definição, mas provavelmente já ninguém ouvia, só sentia – uma massa sonora move-se, enquanto um colectivo de músicos comandados por Win Butler grita a redenção, a superação, a possibilidade do encontro para lá das diferenças, num desvario total.

E para o encore ficam We don’t deserve love, Everything now (continued) e a apoteose final com Wake up, com a Preservation Hall Jazz Band, que efectuou a primeira parte, a invadir o palco, para depois o abandonarem todos juntos pelo meio do público, suados, satisfeitos, improvisando ainda uma versão de Rebel, rebel de David Bowie, até desaparecem de vez, perante o júbilo geral.

Às tantas Win Butler disse que se sentia com sorte por estar em palco rodeado de amigos e que se nós estivéssemos também com amigos lhes devíamos dizer também o quanto gostávamos deles. Não parecem palavras de circunstância. Enquanto a maior parte dos grupos alternativos do rock parecem hoje mergulhados na depressão, eles acreditam na celebração colectiva enquanto possibilidade de encontro com os outros. Não são por isso melhores, mas olham a existência de frente, acreditando – utopicamente? – que ainda é possível comunicar para milhares como se fosse apenas para um só. No patamar em que se situam hoje olha-se à volta e não se vislumbra uma outra banda rock capaz de chegar aos corações de tanta gente e fazendo-o ainda com a energia de quem sente que tem de provar a si e aos outros que vale mesmo a pena.

Talvez não exista necessidade de andarem para aí a apregoar que são o melhor grupo do mundo em palco, mas que continuam a ser a banda rock dos últimos 15 anos que mais sentimentos de identificação gera junto das multidões não restam dúvidas. Lisboa pôde senti-lo bem esta segunda-feira. Segue-se o festival Paredes de Coura em Agosto.