Daniel Costa Neves

Dead Combo

Os grandes salões do Odeon Hotel devem estar abertos a todos

"Parece que os nossos discos acompanham a evolução da cidade", diz Tó Trips. Eis então Odeon Hotel, o novo álbum dos Dead Combo, disco em que parecem rodeados de gente em movimento, gente diferente vinda de muitos lugares.

“Estávamos numa sala grande. O que aconteceu agora é que se abriram umas portas muito grandes nessa sala e percebemos que dão para outras tantas salas. A sensação que temos agora é esta: ‘Isto afinal é muito maior do que a malta pensava’”. Pedro Gonçalves está a explicar o mundo que vamos conhecer esta sexta-feira, dia em que é editado Odeon Hotel. Está a falar-nos do que ele e Tó Trips foram descobrindo enquanto gravavam o novo álbum dos Dead Combo, o sexto de originais, o sucessor de A Bunch  of Meninos, lançado em 2014. Há realmente nele muitas salas e corredores a descobrir. Os corpos que os percorrem são os mesmos, com os mesmos gestos, com a mesma personalidade – afinal, já lhes conhecemos a pinta há muito , mas encontram-se com muito mais gente, conversam mais, puxam mais pessoal para a palheta enquanto a guitarra toca, o contrabaixo ressoa, as teclas do piano são pressionadas.

A Bunch  Of Meninos”, editado em 2014, foi o álbum em que, para seguirem caminho, os Dead Combo decidiram que seria necessário voltar ao início e calçar as botas empoeiradas com que haviam dado os primeiros passos, quando eram guitarrista e homem do contrabaixo a aventurarem-se pelas vielas da cidade. Foi o álbum mais descarnado, mais cru dos Dead Combo. Daí para cá, houve muitos palcos e muitos concertos. Daí para cá, reinventaram-se novamente na companhia d’As Cordas da Má Fama, com as quais actuaram ao vivo e editaram um disco, transformando as suas canções pelo contágio com a musicalidade do violoncelo, viola de arco ou violino. Daí para cá, Tó Trips editou a solo (Guitarra Makaka – Danças a um Deus Desconhecido) e com o percussionista João Doce (Sumba) e Pedro Gonçalves trabalhou com Aldina Duarte, produzindo Romance(s) ou Quando se Ama Loucamente.

Daí para cá, Tó e Pedro zangaram-se e andaram de costas voltadas quase um ano – “não tinha nada a ver com música, para variar”, diz Pedro com um encolher de ombros. Pedro: “Somos dois e isto é tipo casalinho. Eram problemas de comunicação, que é o que a gente tem sempre”. Tó: “Andámos no psicólogo e tudo, a obrigar-nos a dizer ao outro o que o outro tem de bom, em vez de dizer só as coisas más”. Pedro: “E pronto, andámos nessas andanças, resolvemos as coisas e decidimos que era fixe gravar um disco e que era fixe ter um produtor”. As portas da sala grande estavam prestes a abrir-se para revelar outras salas, outras portas, novos mundos neste vasto mundo de uns eternos viajantes chamados Dead Combo. Senhoras e senhores, eis o Odeon Hotel.

Há balanço elegante como elegantes eram os salões onde o swing punha multidões a dançar horas a fio, há bateria e percussões a dar vertigem rock ao frémito da guitarra e há negrume eléctrico servido em voz cavernosa. Há cartoons feitos música, naquele frenesim de cores garridas dos cartoons, há melancolia de madrugadas solitárias, quando, pesarosos, pesamos a vida e há cuíca a juntar-se à festa para que o baile seja festa a sério. "O Odeon Hotel é uma metáfora da cidade [Lisboa]. Um sítio onde as pessoas vão e ficam uns tempos antes de partirem novamente. É a cidade actual. Um sítio que abarca pessoas de várias origens sociais, económicas, étnicas”, diz Pedro Gonçalves. “Não sei se é sorte e não é azar”, atalha Tó Trips, “mas os acasos têm dado esta coisa: parece que os nossos discos acompanham a evolução da cidade. O Pedro há muito tempo que queria uma capa com muita malta e surgiu a ideia do hotel, um sítio de passagem onde pára muita gente e que também tem a ver com as mudanças a que assistimos hoje em Lisboa”.

Meninos e meninas, façam favor de entrar. Odeon Hotel foi apresentado esta quinta-feira no Convento de São Francisco, em Coimbra, e passará esta sexta e sábado no Festival Soam Guitarras (primeiro em Oeiras, no Auditório Ruy de Carvalho, depois no Teatro Garcia Resende, em Évora). Não teremos Tó Trips e Pedro Gonçalves sozinhos em palco. Com eles, estarão o baterista Alexandre Frazão, companheiro de longa data, Gui nos sopros e no mellotron e António Quintino no contrabaixo, guitarras e mellotron. Odeon Hotel é álbum de família e é com ela que os Dead Combo partirão pelo país – e além dele, que o contrato discográfico assinado com a Sony Music prevê, proximamente, a edição internacional do álbum.

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Despir a camisola do 'fado-western'

Começou como todos os outros álbuns. “É sempre igual. Um gajo pega nisto [agarra o telemóvel e mostra o arquivo de ficheiros de som], o Pedro tem umas malhas, eu tenho outras: ‘Bora ver esta?’. ‘Fixe’”. Odeon Hotel começou como todos os outros, mas não nasceu como Vol.1, Quando a Alma não é Pequena, Lusitânia Playboys, Lisboa Mulata ou A Bunch of Meninos. Isto porque, desta vez, chamaram alguém para dirigir as operações, leia-se, um produtor – habitualmente, era Pedro Gonçalves a assumir esse papel. Chegou então o americano Alain Johannes (Queens of The Stone Age, PJ Harvey, Arctic Monkeys) e, mal entraram nos estúdios Namouche, onde o álbum foi registado, tornou-se óbvio que algo mudaria. “Chegámos lá e a primeira coisa que ele quis foi montar a bateria”. Ora, os Dead Combo estavam habituados a tratar tudo entre si, leia-se, entre Tó e Pedro, convocando depois convidados para acrescentarem o necessário. Desta vez, não seria assim. Alexandre Frazão esteve lá desde o início a batucar as peles. “A música, à partida, ganhou imediatamente uma força diferente”, diz Tó. “Mudou logo o som da coisa”, concorda Pedro.

A capa do novo álbum mostra-os escondidos entre uma multidão de gente. A mãe de santo, o negociante de arte, a jovem actriz de cinema, o comerciante judeu, o faquir vindo do Oriente, os refugiados de um país em guerra, o jovem casal em lua-de-mel. As roupas que vestem transportam-nos para um tempo, os anos 20 do século passado. Ou seja, mais uma vez, os Dead Combo, que já vimos rodeados de gangsters e pistoleiros, que já conviveram com marinheiros e canalhas de outras eras, cruzam imaginários de tempos idos para falarem deste tempo que é agora. “Por toda a Europa se fala de xenofobia, se ouvem discursos contra os imigrantes. A capa é também contra isso. ‘Não pode ser. Temos que estar juntos e, todos juntos, entender-nos'”, defende Pedro Gonçalves – o vídeo do primeiro single, Deus me dê grana, realizado por André Tentúgal, dá vida em movimento à foto de pose que dá rosto a Odeon Hotel.

A capa, e a forma como, nela, temos que procurar bem para descobrir os dois Dead Combo entre a multidão de pessoas, é sinal de outra coisa. “Tentámos fugir àquela ideia dos dois gajos no meio do nada, que era a nossa imagem”, explica Pedro Gonçalves. “Aquela cena do início, dos gajos do ‘fado-western’, queríamos fugir disso”, continua Tó Trips. “Queríamos despir essa camisola”. Fazendo-o, chegaram a este hotel que é casa de música – “odéon” designava afinal, no mundo grego e romano, o edifício que acolhia as canções ou a poesia. Fazendo-o, chegaram a um sítio onde a música sem palavras dos Dead Combo continua ter aquele trinado com alma que reconhecemos destas paragens, onde rocks, jazzs, latinidades caribenhas e calor mediterrânico caminham lado a lado. Contudo, é aqui mais fervoroso (no sentido rock) e mais ecléctico.

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Há novos mundos neste vasto mundo de uns eternos viajantes chamados Dead Combo. Senhoras e senhores, eis o Odeon Hotel Daniel Costa Neves

Gravado com os saxofones de João Cabrita, com a viola de arco de Bruno Silva (um das Cordas da Má Fama), com a bateria de Alexandre Frazão e as percussões de Mick Trovoada, Odeon Hotel tem uma canção dedicada à Dear  Carmen Miranda (a da melancolia de fim de noite), tem rock’n’roll agitado de marca registada Trips & Gonçalves (Deus me dê grana), tem interlúdio que poderia incluir como convidado uma trompete do swing dos anos 1930, tem a tropical As quica as you  can para instalar um baile dançante à séria, tem a cartoonesca Theo’s  walking, o arremedo blues de The  Egyptian  Magician, dedicado a Zé Pedro, um Faduncho a terminar e, antes dele, um Desassossego que acelera até velocidade mosh em concerto punk.

É álbum dos Dead Combo, é álbum de banda. É o álbum da banda a viver numa cidade sobre a qual “caiu um trovoada gigante que está a mudar tudo”, diz Pedro Gonçalves. “Vemos forças positivas negativas em confronto, mas não me parece que esteja a pender para o lado bom”, diz Pedro Gonçalves. “Parece estar a pender para o lado ‘pessoal que tem dinheiro e o resto não interessa’”. É essa cidade que percorrem, som a som, canção a canção, personagem a personagem.

Diz Tó Trips que este será o álbum “menos português” dos Dead Combo – “se calhar também somos menos portugueses agora”, acrescenta. E explica: “Vejo a malta mais nova e estão-se a ralar para o facto de serem ou não portugueses, são cidadãos do mundo”. Olhou para os Dead Combo e sentiu que, “mesmo sem ser uma coisa pensada”, não precisavam de ter “de uma forma tão chapada na música esse olhar, essa ideia de povo”. Na verdade, não precisam de o fazer. A sua música, 15 anos depois de os ouvirmos pela primeira vez, viajou muito, atracou nos mais diversos portos, partiu para longe sempre com o regresso em vista. Em Odeon Hotel reúnem muito do que viram e trazem muitos daqueles com que foram cruzando caminho. 

Continuam a fazer música sem palavras, mas cheia de histórias. Ou melhor, quase sem palavras. Em Odeon Hotel ouvimo-las pela voz grave e soturna de Mark Lanegan. Canta entre negrume eléctrico versos de Fernando Pessoa: “I  know, I  alone / How  much  it  hurts, this  heart / With no faith  nor  law / Nor  melody  nor  thought”.

Deixando o seu testemunho sobre o trabalho com o duo, escreveu o cantor americano: “Tenho sido desde há muitos anos um devoto da sua música bonita, ensombrada e colorida. Ser convidado a pegar num dos meus poemas favoritos do grande Fernando Pessoa e fazê-lo cantar é verdadeiramente uma das bênçãos da minha vida musical”. A música dos Dead Combo viajou muito. Enquanto tocam no salão principal, o Hotel Odeon está aberto a todos.