Rock multidimensional, fado neozelandês e um filme electrónico no arranque de Paredes de Coura

Foi dos australianos King Gizzard & The Lizard Wizard a actuação mais energética do primeiro dia do festival, marcado também pela surpresa Marlon Williams e pelo cenário cinematográfico dos The Blaze. No fim, Conan Osiris reuniu uma multidão no palco after-hours.

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King Gizzard & The Lizard Wizard, a banda da noite PAULO PIMENTA

Afinal, o Verão estava escondido em Paredes de Coura. Descobrimo-lo no primeiro dia do festival, mal chegámos à vila e ela nos empurrou para baixo, em direcção à praia fluvial do Taboão, onde durante a tarde se aproveitaram todas as sombras e todos os acessos ao rio. À falta de melhor via, arriscou-se na técnica do mergulho: houve-os para todos os gostos, uns mais tímidos, outros mais espalhafatosos, alguns mais artísticos e outros menos bem conseguidos, um pouco à semelhança do que aconteceu com as actuações do arranque da 26.ª edição do Vodafone Paredes de Coura, que começou quarta-feira e se prolonga até sábado.

O termómetro foi oscilando entre o morno, o frio e o quase a ferver, entre um Marlon Williams que se sentiu em casa, uns The Blaze cenicamente belos, mas sonoramente redundantes, e uns King Gizzard & The Lizard Wizard multidimensionais. Pelo palco principal passaram ainda os portugueses Grandfathers’s House e Linda Martini, em noite que acabou com Conan Osirisafter-hours, num palco secundário onde não cabia mais ninguém.

Coube aos Grandfather’s House cortarem a fita do palco principal, com as inerentes vantagens e desvantagens. Tudo o que é novo passa por um período de experimentação e de habituação que pode levar algum tempo a ser assimilado. O rock com recurso à electrónica dos bracarenses foi recebido timidamente pelas primeiras pessoas que pisaram o relvado. Acabaram com semente plantada para que quem os viu continue a seguir os seus passos.

Do dispositivo nacional agendado para o primeiro dia, os Linda Martini eram os que melhor conheciam o território. Não era a primeira vez que ali estavam (foi a quarta passagem pelo festival), mas desta vez actuaram, noite caída, em pleno horário nobre. Já há muito que encontraram a fórmula que lhes garante o estatuto de banda de culto. Com investidas sónicas a roçar o noise, espalharam o seu rock a derivar para o pós-rock num anfiteatro de Coura já muito bem composto em termos de moldura humana. Passaram pelos cinco álbuns e terminaram o concerto junto do público, para onde se lançaram a baixista Cláudia Guerreiro e o guitarrista Pedro Geraldes. Menos expansivo do que o costume, o baterista, Hélio Morais, foi o porta-voz silencioso do statement da noite: trazia gravado no bombo o nome de Phil Mendrix, o icónico músico português que morreu no início da semana

Há fado na Nova Zelândia

Antes dos Linda Martini, tinha já passado pelo palco principal um segredo bem guardado vindo da Nova Zelândia: Marlon Williams, apoiado por músicos que lhe preparam uma cama confortável para se lançar ao seu indie/folk rock abluesado, fez uma actuação consistente. Melancólico e nalguns momentos emocional, não deixa de arriscar: ainda que fosse a sua primeira vez em solo português, foi ganhando confiança ao longo do alinhamento, criando a ilusão de que já conhece o território que explora. Conquistou sem dificuldades o desconhecido. Veio da Nova Zelândia para fazer valer cada milha de distância.

Começou tímido a manejar a guitarra acústica e ganhou poderes quando agarrou a eléctrica, sustentado por um segundo guitarrista com a capacidade de soltar solos com melodias cativantes, que saem reforçadas pelo uso do slide. Os dedos suficientemente flexíveis fazem do bending uma porta aberta para a catarse. Em cima disso, Williams solta a voz para histórias de amor com desfechos variados. Por vezes faz lembrar Anohni, mas em modo bluegrass e sem o grave da voz tão perto do choro.

Em Paredes de Coura, o vocalista-guitarrista neozelandês revelou ter encontrado no fado um refúgio que lhe faz lembrar o lar. Andou nos últimos dias a experimentar a canção portuguesa. Pode parecer uma comparação tirada a ferros, mas When I was a young  girl, do primeiro álbum homónimo, datado de 2015, desfaz qualquer dúvida. Longe desta entrada para a Europa há som feito para lembrar a saudade: aquele tema é uma espécie de fado neozelandês. Do público, houve quem o identificasse como uma alma talhada para tal: “Temos fadista”, ouviu-se. Então, já sozinho em palco, Marlon Williams recebeu em troca uma ovação mais do que merecida.

King Gizzard e o rock de mil cores

De regresso a Coura, tal como os Linda Martini, estiveram os australianos King Gizzard & The Lizard Wizard. Desde a última vez que cá estiveram coleccionaram mais cinco álbuns. Dito assim, pode parecer que a espera para este regresso foi longa, mas passaram-se apenas dois anos. Máquina criativa de composição, cumpriram a promessa e editaram uma mão-cheia de álbuns em 2017.

Foi a eles que foram buscar alguns dos temas do set enérgico e ao mesmo tempo espacial que entregaram. Andam naquela linha estreita onde o rock mais duro e o psicadelismo se encontram. Esta fusão entre uma espécie de garage rock mais descomprometido e um psych rock viajante, aliado a uma precisão matemática de ritmos sólidos e percussão coesa, assegurada por dois bateristas, ganha uma dimensão quase estratosférica quando combinada com o som de uma guitarra em que se conseguem encontrar micro-tons capazes das melodias mais imprevisíveis. Chegaram a este som depois de tropeçarem numa baglama, cordofone turco que, adaptado ao formato de guitarra eléctrica, serviu de ponte para o álbum Flying Microtonal Banana (2017), do qual tocaram a hipnótica Rattlesnake, muito bem recebida pelo público, que ajudou na letra fácil de seguir: basta repetir o título. Da colheita de 2017, passaram ainda por Crumbling castle, de Polygondwanaland; terminaram com People-vultures, do álbum do ano anterior Nonagon Infinity, que, por força do conjunto de discos que lançaram consecutivamente no ano anterior, parece que já saiu há muito.

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O público de Paredes de Coura recebeu muito bem o regresso dos King Gizzard & The Lizard Wizard PAULO PIMENTA

Os australianos são conhecidos pelas actuações explosivas que deixam rasto por onde passam. Se o som que sai das colunas é dinâmico e envolvente, visualmente, em termos de performance, foram mais contidos, à excepção do guitarrista, vocalista e compositor Stu McKenzie, o mais irrequieto.

Da sua discografia vasta e variada, os King Gizzard trouxeram apenas o reportório mais rock e mais directo, mas sempre que puderam desviaram-se para a linha mais psicadélica que se encontra muitas vezes com melodias arábicas e hipnotizantes.

Fica para eles o título de banda que mais empolgou Paredes de Coura na primeira noite, e não fica mal entregue. À segunda visita ao festival, renovaram a confiança de quem já os conhecia e deixaram claro que, apesar da compulsão para editar discos, não são seguramente uma banda de estúdio.

Beleza sem chama

Depois, coube aos The Blaze fecharem o palco principal – que foi, neste primeiro dia, o único em funcionamento até ao after-hours do palco secundário. É sabido que o duo francês composto pelos primos Guillaume e Jonathan Alric não dissocia o som que faz da componente cinematográfica: os singles Virile e Territory marcaram também pelos videoclips realizado pelos próprios. Faltava saber como se passa isso para o palco.

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Os franceses The Blaze transformaram o anfiteatro de Paredes de Coura numa pista de dança de proporções generosas PAULO PIMENTA

A música começou quando ainda estavam escondidos atrás de dois biombos, que logo se transformaram em telas de projecção. Aos poucos, abriram-se para desvendar o duo que parecia fechado numa espécie de caixa. Entra uma batida que contagia a audiência. Ao mesmo tempo, inicia-se a narrativa visual projectada nas telas montadas no palco.

Em termos cénicos, a dupla é mais do que competente. O que dizer sobre o alinhamento? Depois do set fundado nas leis definidas pelo rock dos anos 70 dos King Gizzard & The Lizzard Wizard, a paisagem sonora de Coura deu uma volta de 180 graus e entrou numa espécie de combustão electrónica. É impossível ignorar que o público estava do lado deles. É inegável que o ambiente sonoro nostálgico que espalham chega para nos levar para outra dimensão. Mas o jogo de batida de bombo e prato de choque peca por ser dominante. A música perde-se de mais num ritmo repetitivo que torna a actuação redundante. Os primos Alric ganhariam se dessem mais espaço às melodias mais melancólicas que por vezes seguem na direcção da esperança. Em Paredes de Coura, porém, a reacção do público contrariou esta tese. E o que em certos momentos nos pareceu uma actuação intrigante mas sem chama serviu para transformar o anfiteatro do festival numa pista de dança de proporções generosas até ao fim do concerto, com Juvenile, quando as telas voltaram a fechar-se para passar a ficha técnica.

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Conan Osiris: definitivamente um fenómeno PAULO PIMENTA

Entretanto, a poucos metros dali, começava outro filme, protagonizado por Conan Osiris, que vendeu bolos, borrego e a cura para a celulite a uma plateia que encheu por completo o palco secundário, mesmo não tendo o português nenhum álbum editado em suporte físico. O som do performer (será mais correcto chamar-lhe assim) vai beber a várias influências, vai ao fado, ao flamenco e à electrónica. Fá-lo com alguma crueza sonora, interpretada pelos movimentos de um bailarino sem amarras. Com o sucesso meteórico que atingiu no último ano, também suscitou opiniões divididas. Em Paredes de Coura, pelo contrário, reuniu o consenso.