King Gizzard And The Lizard Wizard

Dois anos e cinco álbuns depois, os sete magníficos australianos estão de volta

Em 2016, assinaram um concerto memorável em Paredes de Coura. O ano passado, deixaram a sua marca na história recente do rock'n'roll ao editarem cinco álbuns que os confirmam como uma força criativa admirável. Na próxima quarta-feira, estão de volta a Paredes de Coura. King Gizzard And The Lizard Wizard, inescapáveis

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Muitos não saberiam o que esperar, porque não sabiam quem eram e o que iriam fazer aqueles sete em palco que, sem apresentações, pegaram nos instrumentos e se aproximaram dos microfones. “Nonagon  infinity  opens  the  door”, disseram uma vez antes de os três guitarristas, baixista, teclista e dois bateristas entrarem em acção. Não pararam nos 25 minutos seguintes, cruzando canções, enxertando excertos de umas noutras, riffs sobre riffs, teclados estelares a iluminar o som, as baterias a complementarem-se naquele space rock vitaminado, naquela torrente de ritmo e de electricidade. 25 minutos depois, o silêncio, um “olá”, o rumor da multidão. Naquela noite de Agosto de 2016, os King Gizzard And The Lizard Wizard apresentavam-se a Paredes de Coura. Com estrondo.

Na hora do regresso, dois anos depois, serão cabeças-de-cartaz do primeiro dia oficial de festival, dia 15 de Agosto, quarta-feira (23h15), o mesmo em que actuam Linda Martini, Conan Osiris, Marlon Williams, The Blaze e Grandfather’s House, e parecem destinados a tornar-se uma daquelas bandas que cria uma relação especial com o público do festival, escalando no cartaz a posição de destaque e agregando mais gente à sua volta, cativada pela surpresa das presenças anteriores – vimo-lo acontecer, por exemplo, com os Thee Oh Sees, Ty Segall ou Cage The Elephant. No caso dos King Gizzard And The Lizard Wizard, porém, há algo mais neste regresso.

Nos dois anos que passaram, a banda australiana transformou-se num nome obrigatório no cenário rock’n’roll contemporâneo, fruto dos concertos explosivos, da vida constante na estrada e de um protagonismo crescente – os pequenos clubes foram trocados por salas emblemáticas como a londrina Brixton Academy. E, o ano passado, a banda que nasceu como encontro entre um grupo alargado de músicos que, no intervalo do trabalho com as suas bandas “a sério”, procurava explorar pelo prazer de explorar, deixou a sua marca vincada e, por agora, inescapável, na história recente da música popular urbana.

2017 foi o ano em que editaram cinco álbuns. O feito chama a atenção, mas o que impressiona não é (só) o número. Podia ser simples consequência de uma banda que reconhece ter dificuldade em filtrar a criatividade – “a maioria das bandas compõe 50 canções e depois desbasta o material até ter doze para fazer um álbum, nós editamos as 50”, dizia o líder, vocalista, guitarrista, compositor e ocasionalmente flautista Stu McKenzie em Dezembro à Loud  And  Quiet. Podia ser um mero número espectacular para encher o olho e causar sensação. Mas, à medida que fomos conhecendo a música, das escalas orientais de Flying  Mictrotonal Banana para o universo de riffs tumultuosos, monstros e andróides de Murder  the  Universe, daí para a temperança soul e jazz de Sketches of Brunswick East (é intencional a piscadela de olho a Miles Davis e ao seu Sketches of  Spain), e desse para o conciso resumo das viagens anteriores em Polygonwanaland e em Gumboot  Soup, tornou-se claro: os King Gizzard And The Lizard Wizard não precisam de filtro e, neste preciso momento, parecem incapazes de errar.

Lançaram cinco álbuns que, por si só, seriam suficientes para uma carreira justamente celebrada. Acontece que o fizeram num mesmo ano, com uma diversidade estética que nunca apaga a marca autoral e uma felicidade criativa contagiante. O que bandas formadas por meros mortais, daqueles que levam o seu tempo a dar forma a ideias e a registá-las em álbum, levariam uma década a fazer, tomou 365 dias da vida dos King Gizzard And The Lizard Wizard. Impressiona realmente – quase tanto como a música que os álbuns guardam.

Nonagon  Infinity, o oitavo álbum da banda, editado em 2016, deixara-os esgotados. Todo o tempo passado a aprimorá-lo nos ensaios, de forma a não perder demasiado tempo no estúdio a gravá-lo, isto enquanto paravam o trabalho para partir para mais uma série de concertos antes de regressar à base escolhida para as gravações, Nova Iorque, teve consequências no corpo e no espírito dos sete australianos - além de Mackenzie, a banda é formada por Ambrose Kenny-Smith (teclas), Joey Walker (guitarra), Cook Craig (guitarra), Lucas Skinner (baixo), Michael Cavanagh (bateria) e Eric Moore (bateria). Extenuados, decidiram que era tempo de acalmar. Para o fazerem, transformaram um armazém abandonado na zona de Melbourne em estúdio e fizeram como nos tempos iniciais. Perseguiram ideias sem pensar muito nelas, pelo puro prazer de tocarem juntos. Entretanto, Stu Mackenzie disse numa entrevista que a banda iria gravar cinco álbuns em 2017 – nunca ninguém da banda pensara em tal coisa, mas, depois de Stu o afirmar e de a declaração começar a propagar-se online, o líder da banda sentiu-se na obrigação de cumprir o prometido.

Há dois anos, em antecipação do concerto em Paredes de Coura, Stu Mackenzie falou ao Ípsilon do seu processo criativo. “Nunca fui um compositor que, de um momento para o outro, inventasse a partir do que quer que me passasse pela cabeça. Ter uma ideia e construir à volta dela. E depois sim, utilizar o que quer que resulte no momento, dentro desse contexto. Todos os discos foram criados contidos em fronteiras determinadas”. Os cinco álbuns que a banda editou em 2017 são um exemplo perfeito disto.

À semelhança de Stanley Kubrick, que pretendia fazer de cada um dos seus filmes a obra definitiva de um determinado género – o cinema de terror em Shining, a ficção científica em 2001 – Odisseia no Espaço, o épico histórico em Barry Lyndon –, os King Gizzard And The Lizard Wizard, centro firmemente ancorado nas formas expansivas do rock’n’roll psicadélico das décadas de 1960 e 1970, definiram uma ideia a explorar e, repentistas (nesse aspecto não poderiam ser mais diferentes do perfeccionista Kubrick), deram-lhe corpo em velocidade supersónica. Nada de especial, são apenas trabalhadores a fazerem o seu trabalho: “[O armazém transformado em estúdio] pareceu-nos uma boa desculpa para fazer montes de gravações”, dizia Mackenzie à Consequence of Sound o ano passado. “Podemos ir para aquele espaço e trabalhar. É como um trabalho das 9 às 17h, é porreiro. Dizíamos uns para os outros: 'Agora já temos emprego, somos pessoas a sério'”.

A descoberta de um cordofone tradicional turco, o baglama, foi o mote para Flying Microtonal Banana. Transpuseram a sonoridade do instrumento para uma guitarra criada por um artesão e deixaram-se contaminar pela sonoridade. Editado em Março, é o álbum em que espiralam em escalas orientais e em que, sob o pano de fundo do ritmo motorika, deixam silvar metais como raitas [instrumento de sopro] magrebinas, criando uma ponte de cores garridas entre Melbourne e o psicadelismo turco de décadas passadas. Três meses depois, fomos presenteados com Murder  of  the  Universe, o álbum em que, numa linha imaginária que liga os Black Sabbath aos King Crimson, desenhada por Philip K. Dick e J.R.R. Tolkien, a banda mergulha no imaginário de ficção científica e do cinema de terror. Narrado pela cantautora australiana Leah Senior, está dividido em três partes: um monstrengo aterroriza a primeira, um monstrengo ainda maior, Balrog, habita a segunda, e, na terceira, um cyborg em crise existencial há-de destruir o universo de uma forma particularmente escatológica. Tendo em conta o precedente, aquilo que descobrimos em Agosto foi uma surpresa. Gravado em parceria com Alex Brettin, dos californianos Mild High Club, Sketches of Brunswick East é todo ele calor soul e brisa jazz, com órgão vintage, flauta esvoaçante e o som de um lounge elegante a navegar em alto-mar.

Por aquela altura, a banda começou a sentir o peso da culpa capitalista. Com tantos concertos, com tantos novos discos, com tanta nova t-shirt alusiva aos novos discos em produção, não estariam os King Gizzard And The Lizard Wizard a exigir que os seus fãs passassem tempo demais a gastar dinheiro neles? Stu Mackenzie achou que sim, a banda achou igualmente. Eis então que Polygondwanaland, inspirada colecção de canções que funciona como resumo das experiências imediatamente anteriores, é anunciado de surpresa a 17 de Novembro. A banda não só o oferece para download gratuito como disponibiliza também os masters e prescinde dos direitos autorais, incitando qualquer pessoa que o deseje a fazer a sua edição do álbum e a disponibilizá-la no mercado. Com quatro álbuns dos cinco prometidos editados, Stu Mackenzie dizia isto à Loud  And  Quiet: “Temos andado atarefados, mas tento pôr isso em perspectiva. Não sinto que trabalhe tão arduamente como um médico, por exemplo”. Gumboot Soup, o quinto álbum de 2017, estava a chegar (foi editado mesmo em cima do prazo, dia 31 de Dezembro). “Estou um ano mais velho, mas é provável que, ao mesmo tempo, tenha varrido 10 anos da minha vida", reflectia Mackenzie.

Na próxima quarta-feira, o reencontro está marcado. Dois anos e uma década de Mackenzie depois, os King Gizzard And The Lizard Wizard regressam a Paredes de Coura. Um reencontro que será um privilégio.