Bem-vindos ao fim do mundo de Marlon Williams

Cria um épico uma ópera-já-não-country sobre a mais antiga emoção humana: o coração quebrado. Corações ao alto, Marlon está agora e para sempre no meio de nós.

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Não há equação que defina com precisão o monumento que é Make Way For Love: é o que acontece à country quando sai dos honky-tonks de beira de estrada e se vai enfiar nos clubes nocturnos onde Sinatra brilhou; é a mais exemplar união entre guitarras-slide baratas e cordas caras; e a ironia em ouvir um rapaz novo a cantar como um crooner de antigamente

Vestido com uns calções brancos, meias pretas e ténis, o magrela de cordões ao pescoço abana-se, não como um deus do sexo possuído pelo ritmo da música, mas como um parolo sem noção do seu ridículo, enquanto desliza pela areia da praia exibindo os seus melhores moves, empurra um desgraçado qualquer e dá cabo do castelo de areia de uma inocente criança. Mais tarde está a jogar básquete, vestido com uma camisola de Oklahoma, rebola na relva, brinca com um cão — enquanto em fundo violinos balançam como borbulhas de ópio tentando acudir a uma dor funda. Há flautas pastoris e os basquetebolistas comem batatas fritas na relva. Se há coisa que se aprende com Marlon Williams, o Elvis de Lyttleton, o Roy Orbison de Christchurch, é que quem vê vídeos não vê corações. Os embrulhos enganam e o rosto mais bonito — é tremendamente bonito — pode encerrar muita dor; a canção mais doce pode tornar-se numa navalha afiada.

É no vídeo de What’s chasing you — segundo tema de Make Way For Love e talvez o melhor exemplo de indie-country-pop que o mundo conheceu — que está em tronco nu na praia, a dançar como um James Brown albino e com escassa auto-consciência; e é no vídeo de Come to Me — de abertura de Make Way For Love — que joga básquete e brinca com um cão e faz um pic-nic na relva com os amigos, como se estivesse a viver um domingo pacato e perfeito.

Mas ouçam as canções: é um homem “destruído pela perda”, “completamente perdido”, “sem saber o que [é]”. Um homem que “não sabia se havia de persegui-la ou fugir”. E que se encerrou em casa e se atirou à guitarra e ao piano e pôs “tudo o que tinha” nas canções. Não estamos a citar as letras, já agora — mas sim o próprio Marlon.

Sejam então bem vindos àquele que será um dos discos a encabeçar as listas de álbuns do ano, bem vindos ao passado da música tal como imaginado por um millenial para quem “a country deixou de ser suficiente”, bem vindos à mais antiga emoção humana, o coração quebrado. Permitem-nos um conselho? Criem um espaço no vosso coração para Make Way For Love, segundo disco a solo de Marlon Williams e pedaço de musicália que vive na duplicidade de ser simultaneamente um objecto-pastiche e um objecto único, alienígena.

Não há equação que defina com precisão o monumento que é Make Way For Love: é o que acontece à country quando sai dos honky-tonks de beira de estrada onde nasceu e se vai enfiar nos clubes nocturnos onde Sinatra brilhou; é a mais exemplar união entre guitarras-slide baratas e cordas caras; e a ironia que haja em ouvir um rapaz novo a cantar como um crooner de antigamente — um Scott Walker, um Roy Orbison — serve apenas para realçar ainda mais a extrema sinceridade que subjaz ao disco. Essa estranha sinceridade de quem está a despejar o coração e, ao mesmo tempo, a observar-se de fora.

E faz sentido que Marlon cante como um crooner do passado, é natural que esta música seja sombria e assombrada — porque há um fantasma em Make Way For Love, que só surge uma vez, no dueto de Nobody gets what they want anymore: Aldous Harding, a ex-namorada do senhor Williams.

Dos três vídeos que Marlon gravou para o disco, o de Nobody gets what they want anymore  é o único em que o humor é triste: no fim acaba no chão de um restaurante, vítima de um motim — os clientes, desagradados com o facto de ele ter trocado os pedidos, perdem o auto-controlo, empurram-no e ele bate com a cabeça no chão.

“Queria que os vídeos funcionassem como contra-ponto ao disco”, diz, ao telefone. “Queria lembrar-me que apesar de tudo sei rir e sei rir-me de mim”, acrescenta, fazendo uma pausa antes de prosseguir: “É o fim do mundo — o fim de uma relação assim é sempre o fim do mundo. Mas não sou apenas a minha dor, entendes? E vou sobreviver. E vou rir”.

Que disco é este que vem com uma voz do passado e uma música que já não ouvimos há décadas cantar uma dor que existe desde o início dos tempos? Que homem é este, pateta de calções na praia a cantar coisas pesadas ao piano? Quem pode ser tão novo e tão sábio em simultâneo?

Marlon Williams nasceu a 31 de Dezembro de 1990, sem fazer ideia que no dia seguinte fariam 37 anos da morte daquele que viria a ser o seu herói, Hank Williams, deus da country. Nascido em Christchurch, Nova Zelândia, passou a infância em Lyttelton e a música andava por ali: “A minha mãe estava sempre a ouvir música — punha a música muito alto, cantava muito e eu comecei a cantar com ela. O meu pai era cantor. Vou buscar esta maneira de cantar ao meu pai”.

Em miúdo fez parte de um coro católico — “não ligo nenhuma a religião mas adorava a música, o espectro de géneros que tinha de cantar. E confesso que até este disco senti que estava a perder isso, essa abertura a diferentes tradições musicais”.

O pai ofereceu-lhe “a primeira guitarra” e pôs à disposição “a sua colecção de discos”. “Um dia eu estava a ouvir uma compilação de Hank Williams e a brincar com a guitarra e percebi que eram três acordes muito simples — e quais os acordes. Percebi que com muito pouco conseguia fazer uma canção. Era um registo que era fácil e que me era natural. E nunca mais olhei para trás”.

Com 17 anos criou os Unfaithful Ways; em 2011 começou a actuar como um duo, ao lado de Delaney Davidson — juntos e apenas em dois anos editaram três discos dedicados à country. Em 2013 lançou-se a solo — e daí resultou, há dois anos, o disco de estreia homónimo. Era, acima de tudo, um disco folky, country, aqui e ali com laivos de rock indie. Mas em I’m lost without you, o quarto tema, surgia — poderosíssima — aquela voz de crooner, a implorar a uma mulher que voltasse. Em fundo as cordas, trazendo à canção a gradiloquência não de uma ópera mas de uma opereta.

Algures entre 2015 e 2018 sentiu-se perdido sem Aldous, com quem um dia passou um mês na “belíssima” cidade do Porto. Pergunto-lhe se não é um pouco cruel fazer Aldous cantar com ele num dueto num disco que é, de uma ponta à outra, sobre ela. Digo-lhe:

— “São as tuas palavras, ela está a cantar as tuas palavras. E a canção está na internet e uma vez na internet nada a pode apagar. Agora ela estará para sempre a cantar as tuas palavras. Não consigo entender se é bonito ou se é cruel”.

— “É possível que haja alguma crueldade, sim”, admite o crooner. “Mas faz sentido”, continua, depois de reflectir: “Antes de mais o disco dela do ano passado [Party] era sobre nós; e depois esta é uma relação que começa na música, que se desenrola mais no Skype que em casa, porque somos músicos e andamos em digressão, pelo que faz sentido que acabe numa canção”.

A estranha relação de Marlon e Aldous “já existia antes de existir”: ambos são de Lyttleton; ambos têm uma paixão por folk americana de pendor solene; ambos adoravam a música um do outro antes de se conhecerem. O que me leva à seguinte bisbilhotice:

— “Alguma vez ponderaste teres-te apaixonado pelo talento dela para escrever canções — um talento que também tens?”

— “Estás a acusar-me de narcisismo, não estás? De me ter revisto nela”.

— “Bom... Acusar é muito forte, mas é esse o sentido, sim”.

— “Ouve, não podes saber muito sobre o amor se achas que nos apaixonamos por uma coisa específica numa pessoa, que observámos com muita atenção e da qual estamos cem por cento certos. Apaixonamo-nos tanto pela imagem que criamos da pessoa como nos apaixonamos por aquilo que conhecemos da pessoa, como nos apaixonamos pelo processo de nos apaixonarmos. Dou de barato que seja narcísico, mas não foi obrigatoriamente egoísta e foi sincero”.

Depois disto o bisbilhoteiro que faz perguntas e escreve dá por si a pedir desculpa, nem sabe bem do quê. Marlon parece zangado: “Não me fechei um mês em casa sem ver ninguém, com canções a saírem de mim em catadupa, porque criei uma ilusão na cabeça; fi-lo porque separar-me me deixou tão atordoado, tão perdido que não conseguia perceber quem era, como é que se vivia, do que é que gostava, como é que se conversava. Tudo o que sei fazer é fazer canções e se fiz canções foi porque não sabia que mais fazer e tentei  ser honesto. Tentei ser brutalmente honesto, mesmo que me doesse ou lhe doesse”.

Honestidade é, talvez, isto: “People tell me that I dodged a bullet”, canta em Love is a terrible thing, acompanhado apenas por um piano, antes de atirar o remate: “But if only it’d hit me”. Honestidade é, também, isto: “Didn’t make a plan to break your heart”, canta, sobre um fundo de piano e guitarra western; “but it was the sweetest thing I’ve ever done”. A guitarra sobe, a bateria entra, chega uma segunda e ainda mais trágica guitarra: não deve ser fácil ser Aldous Harding e ouvir isto.

Isto já não é country porque “a country já não era suficientepara estas canções”. A voz é encorpada, gongórica, solene — há algo de teatral mas ao mesmo tempo é reconfortante. “Gosto de fazer parte dessa tradição mas ser crooner, para mim, é uma ferramenta. É uma forma de me proteger, de me distanciar um pouco das canções — mas toda a gente tem isso, mesmo quem não canta assim”.

Williams gosta das vozes dos crooners, de Roy Orbison a Scott Walker, que é uma “presença” no registo vocal. “Essas vozes — são doces mas cantavam tragédias amorosas. Vêm do tempo em que o amor era suposto durar para sempre, há algo de nostálgico numa voz assim. E é deslocado no tempo — quem canta assim hoje? É nostálgico e anacrónico e traz más notícias com uma carícia”.

As palavras foram a última coisa do disco — ele tinha “medo de que não fossem as palavras certas, fossem exageradas ou de menos”. O disco foi uma febre, saíam-lhe canções por todos os poros — queria “abordar o fim de uma relação amorosa de todos os ângulos” mas não precisou “de muita auto-consciência para criar: as canções nasciam com facilidade”; gravar, mesmo tendo em conta que os arranjos fogem ao que lhe é habitual, também não foi complicado — gravou-o com a sua banda habitual e conhece “aqueles tipos tão bem que até consegui[u] esquecer como é que o disco nasceu”.

Mas depois veio o temido momento de rever as palavras — foi aí que se apercebeu que este estranho monumento sónico não era, no fundo, sobre uma rapariga — era sobre ele. “É o meu ciúme, as minhas inseguranças — que desconhecia que tinha. E percebi que o disco era uma espécie de auto-definição, de traçar dos meus limites enquanto agente vivo que opera sobre o mundo”.

Deve ter corrido bem, esse processo de revisão, porque saca uma mão-cheia de frases que dão vontade de escrever num post-it e colá-lo na porta do frigorífico. No último disco dos National que (perdoem-me) me pareceu bem escrito mas (perdoem-me) aborrecido, havia uma frase em Day I die, canção sobre a separação de um casal, que era assim: “They day I die/ where will we be”, como se apesar de ter havido uma separação e o casal já não seja casal a entidade-casal ainda andasse por aí, como uma pedra esquecida no sapato ou o borboto de uma camisola antiga. Quase no fim de Make Way For Love, na penúltima canção, o tal dueto, há um momento semelhante — é quando Williams canta: “What am I going to do/ when you’re in trouble/ and you don’t call out for me?”. Make Way For Love pode então encerrar com a faixa título, que parece saída dos anos 50 — a voz é um eco distante, as cordas ao fundo tão doces; tudo isto parece um sonho intangível e só uma coisa é certa: este épico de dor e redenção acabou de se aninhar nos nossos corações como só os discos maiores conseguem.