Crítica

Da euforia à melancolia, como na internet, eis os Arcade Fire

Já não são a banda rock alternativa mais querida dos melómanos exclusivistas. São banda de grande público, onde a confusão entre quem são e o que se espera que sejam se vai intensificando. Ao quinto álbum os canadianos continuam a desafiar-se mas lançam o seu álbum menos inspirado.

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Estão aqui algumas das canções mais festivas da banda, mas não é alegria, é profunda melancolia Guy Aroch

Há mais de uma década os canadianos Arcade Fire foram talvez o grupo que mais beneficiou da cultura da internet, com publicações a endeusarem-nos, blogues a partilharem avidamente as suas canções e os internautas a identificarem-se com a sua música e atitude nos concertos.

Treze anos depois da estreia com Funeral (2004) a ideia que vinga em muitos corredores da internet que os divinizaram é a que eles já eram. Nada de novo. A retórica utilizada é idêntica a tantos outros casos semelhantes: ter-se-ão domesticado por imperativos de mercado, com o romantismo inicial libertador a dar lugar ao mero calculismo económico.

O que é curioso nesta assunção é que ela também poderia ser utilizada contra a própria internet. Depois dos anos iniciais em que parecia ser terreno propício para todas as liberdades e causas cidadãs, tem-se vindo a revelar também campo para as mais diversas entropias, para além das tentativas disciplinadoras ou vigilantes por parte de Estados e terreno propício para muitas multinacionais imporem as suas normas financeiras.  

Não há inocência. Toda a gente sabe que nas sociedades tardio-capitalistas em que vivemos aquilo que é considerado diferente ou à margem hoje é rapidamente assimilado, digerido e devolvido amanhã para o centro do mercado. O que podem fazer grupos como os Arcade Fire neste contexto? Têm de estar conscientes destes processos, protegendo-se deles até onde isso é possível, actuando nas frestas destas lógicas e continuando a fazer aquilo em que acreditam. É isso que os canadianos têm tentado fazer.

Não sem algum desconforto, diga-se. Isso já era perceptível no álbum anterior, Reflektor (2013), com toda a estratégia de comunicação, com a utilização de máscaras por exemplo, a passar por interrogar as noções de autêntico ou falso, de encenação ou real. Mas aí os momentos de duplicidade e de ironia continham diversas camadas de leitura e eram servidos por um conjunto alargado de canções que respiravam vitalidade.

No novo álbum nem sempre conseguem o mesmo feito. Ao longo dos anos provaram as diferentes facetas do êxito: do sentimento de pertença dos primeiros anos até à possível sensação de infidelidade provocada por quem os seguiu inicialmente. Tudo coisas vulgares. Mas dir-se-ia que os Arcade Fire não estão a saber lidar com isso. E a questão é que não se responde ao cinismo da internet com mais cinismo. Não se critica um objecto tornando-se nesse mesmo objecto, num jogo de espelhos de onde ninguém sai ileso. E é essa a sensação com que se fica do novo álbum, como se tivessem ficado presos na armadilha da qual queriam afastar-se.

Não foi por acaso que parodiaram há dias a publicação digital Stereogum, através de uma crítica caricatural, ao mesmo tempo que o novo álbum constitui também uma reflexão sobre o excesso de informação, a voragem consumidora, a velocidade de actuação, a solidão e alienação no meio da aparente comunicação ou o culto narcísico de muitas avenidas da internet.

Every song that I’ve heard is playing at the same time, it’s absurd”, canta Win Butler logo no tema-título inicial, enquanto em Creature confort descreve as aspirações de quem cresceu na idade do YouTube (“God, make me famous / If you can’t, just make it painless”). O que é curioso é que, do ponto vista musical, trata-se de um disco da era da internet, expondo inúmeras influências (funk e ‘disco’ dos anos 1970, pós-punk e pop electrónica dos anos 1980, passando por linguagens como o dub-reggae), ao mesmo tempo que vai da exaltação à depressão com rapidez, parecendo reproduzir a forma sôfrega como a internet aborda a maior parte dos temas sem conseguir focar-se muito tempo em nenhum.

Produzido pela banda, com a colaboração de Thomas Bangalter (Daft Punk), Steve Mackey (Pulp) ou Geoff Barrow (Portishead), combina estilos e texturas muito diferenciadas, nesse sentido aproximando-se da diversidade do álbum anterior, no qual contaram com a ajuda de James Murphy (LCD Soundsystem). Claro que a questão não é a maior aposta na dança, nesse sentido fazendo lembrar outros grupos que exploraram o cruzamento do rock com linguagens rítmicas (dos Clash aos Talking Heads, dos New Order aos LCD Soundsystem), nem o paradoxo que isso pode gerar: apesar da visão sombria do mundo das palavras, estão aqui contidas algumas das faixas mais soltas do grupo do ponto de vista sónico. 

É o caso da jovialidade pop de Everything now, ou a festividade funk-disco-rock de Signs of life, enquanto Creature Comfort é um daqueles temas épicos que faz uso das características basilares do grupo – camadas sonoras em crescendo, coros colectivos e arranjos elaborados – e Peter pan e Chemistry são dois devaneios reggae-dub anódinos. Em Electric blue é a voz de Régine Chassagne que está no centro, rodeada por sintetizadores circulares e um manto atmosférico de pop electrónica, e Put your Money on me sobe em progressão num jogo de sobreposições.

Mas, claro, também existe espaço para a melancolia, como na balada We don’t deserve love, embora seja talvez Infinite content a canção-chave do disco. Começa numa toada rock enraivecida, para de seguida, de repente, transitar para uma doce lengalenga acústica, como se quisessem captar a experiência de estar vivo neste tempo onde nem sempre são perceptíveis as fronteiras entre o que pode conduzir à glória ou ao falhanço.

Tudo isto é feito de forma competente, mas esforçada, genérica, sem grande convicção. O que é outra contradição: estão aqui contidas algumas das faixas mais festivas do grupo, mas é uma celebração auto-consciente, da era da internet, quando toda a gente partilha fotos de sorriso cuidadosamente arranjado. Não é alegria, é profunda melancolia.

Claro que se pode ser, em simultâneo, conceptual e físico, num equilíbrio instável entre exaltação e recolhimento, mas tem de se o ser com total segurança. Não é o que se respira aqui apesar de este não ser um mau álbum. É apenas o disco menos inspirado dos canadianos, o que neste caso é significativo. Parecem enfadados por já não serem a banda rock alternativa mais querida dos melómanos exclusivistas. Apetecia dizer-lhes que não vale a pena irem por aí. O importante era não espelharem confusão entre quem são e o que se espera que sejam. Mas nem sempre é isso que se vislumbra.