Paredes de Coura Um festival a arder no lume brando dos Arcade Fire

Os Arcade Fire passaram a ser os favoritos de todos. A culpa é deles, eles é que têm nome de incêndio. Houve um acontecimento por dia nesta edição de Paredes de Coura, para mais tarde recordar. Ou dois: anteontem também houve Pixies. Por Inês Nadais (textos) e Paulo Pimenta (fotos)

Os Pixies ainda não tinham actuado (nem os Roots, nem os Queens of the Stone Age) e já havia um concerto do ano (e não, já não era o dos !!!). Mais: um concerto da década, tanto quanto se vê bem daqui para 2010. Foi com os Arcade Fire: pela segunda vez consecutiva na 13ª edição do festival, houve um acontecimento histórico no palco principal. Afinal, é possível: há um concerto melhor do que o melhor concerto de Paredes de Coura. Não acontece assim tantas vezes, ouvir o som da história a fazer-se. Às vezes acontece: teria acontecido em qualquer lado onde os Arcade Fire fossem tocar pela primeira vez para alguém (foi a primeira vez para mais de 25 mil pessoas, no caso, embora a organização prefira guardar os números definitivos para hoje que é o dia seguinte do festival). Por sorte, foi em Paredes de Coura, onde não houve os Humanos para fazer número mas houve números sobrehumanos. Números grandes como os Arcade Fire: muitos em palco a convergir para um som em combustão, um som que às vezes não parece ir a lado nenhum mas vai. Foi assim no brainstorming que se seguiu ao monumental Power out: cada um a tocar para si, podiam ter ficado horas e horas à deriva, e muitos com eles, apesar da urgência que era rever os Queens of the Stone Age e os Pixies, e de repente percebe-se que, afinal, aquilo tudo vai ter a outro lugar cosmogónico chamado Rebellion.
Quem não tinha percebido com o disco porque é que toda a gente andava a falar neles percebeu anteontem com o concerto: a banda de Win Butler e Régine Chassagne não é deste mundo. Os Arcade Fire são ao mesmo tempo da ordem do cântico dos cânticos e da marcha fúnebre, da canção de engate e do hino nacional: às vezes parece que estão quase a morrer (ou que há alguma coisa à volta deles que está quase a morrer, eles limitam-se a bater em latas) e outras vezes parece que estão a acabar de nascer, às vezes parece que saem das entranhas da terra e outras vezes parecem que vão disparados para o infinito e mais além.
Em Paredes de Coura, foram épicos - épicos ao ponto de parecerem capazes de moverem montanhas - e comunitários, como se a música deles viesse de um sítio que é simultaneamente muito pequeno (e por isso tão familiar) e descomunal. Entraram com Wake up, instalaram-se com Haiti e Crown of love - pelo meio ainda mostraram Cold wind, faixa encomendada pela série televisiva Sete Palmos de Terra - e às tantas já era noite e ainda era dia (acontecem milagres em Power out, a música em que uns Arcade Fire que parecem vir de um tempo antes do tempo, ou pelo menos antes da electricidade, contam como saem à rua para ir buscar luz e arrancam coisas aos corações dos homens, para nos limitarmos a ser literais) e, visto de baixo, o palco parecia um sítio incrível, daqueles mundos imaginários onde um violino desgovernado c