Editorial

Para quem fala Mário Centeno?

À primeira vista, podemos ser levados a pensar que são recados para os partidos à esquerda do PS que suportam o Governo. Mas são muito mais do que isso. São recados para o próprio PS e para o Governo.

A semana que hoje começa será determinante para o que resta da actual legislatura em termos económicos. O Governo tem de entregar o Programa de Estabilidade em Bruxelas até ao final do mês e, nesse sentido, deverá aprovar e apresentar o documento final no Parlamento até ao fim desta semana. Ficaremos, então, a conhecer o que espera o Governo que aconteça à economia portuguesa até 2022. E que política pretende prosseguir, nomeadamente até às legislativas de 2019. Mas até que o documento esteja definitivamente fechado, as negociações entre Partido Socialista, Bloco de Esquerda e Partido Comunista prosseguem.

Nada de novo. É o procedimento habitual. Este contexto serve apenas para isso mesmo. É o contexto necessário para se ler o artigo de opinião do ministro das Finanças que hoje publicamos. São mais de 7000 caracteres em que, na sua esmagadora maioria, Mário Centeno enumera os sucessos registados pela economia portuguesa desde que assumiu o comando das Finanças. Desde a recapitalização da banca à descida do desemprego e da factura com juros ou à polémica sobre a carga e a pressão fiscal. Estão lá todos os indicadores económicos que permitem ao Governo fazer o auto-elogio da política seguida.

Mas é nos caracteres que escapam à esmagadora maioria do artigo que está a sua parte mais importante. É no espaço que escapa à análise de 2017 que Mário Centeno traça o caminho. “Não podemos perder mais uma oportunidade”, lembra o ministro das Finanças, adiantando que temos de estar preparados para cenários adversos e que não podemos voltar a entrar em défice excessivo. E Centeno lembra também o que todos sabemos. Nesse aspecto, Portugal não tem uma memória feliz.

Mário Centeno garante ainda que o Governo continuará a apostar na Saúde e na Educação, desde que assegurando “margem fiscal e orçamental” para enfrentar futuras crises e, assim, “os resultados conquistados não sejam efémeros”.

Mas é nos últimos caracteres que o ministro diz tudo. Quase em jeito de ameaça, Centeno diz que não colocará em risco o sucesso alcançado.

À primeira vista, podemos ser levados a pensar que são recados para os partidos à esquerda do PS que suportam o Governo. Mas são muito mais que isso. São recados para o próprio PS e para o Governo.

O futuro dirá se Mário Centeno teve a força para impedir que, como no passado, os sucessos alcançados se esfumem.