Dalas pagou o preço do fosso racial na América

Cinco polícias foram abatidos a tiro num protesto contra o racismo institucional norte-americano. Um dos atiradores, antigo militar de 25 anos, "queria matar pessoas brancas”.

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Uma bandeira americana na vigília em nome dos cinco polícias mortos na emboscada em Dalas Carlo Allegri/Reuters

O departamento da polícia de Dalas opera de uma forma diferente daquela que se estigmatizou para os agentes de autoridade norte-americanos. A marcha de protesto da tarde de quinta-feira foi exemplo disso. Ao longo das suas quase quatro horas, não se sentiu um momento de tensão entre manifestantes e agentes, mesmo que, em teoria, o protesto fosse dirigido contra toda a classe policial, que nos últimos dois anos se tornou o exemplo mais flagrante das desigualdades raciais na América.

Centenas de pessoas marcharam e discursaram por uma convicção antiga, pela qual as autoridades americanas — e a sociedade, em geral— se comportam segundo ideias racistas, profundamente enraizadas, e que vem daí o número desproporcional de negros mortos por balas da polícia. Os protestos moviam-se em nome dos dois homens negros abatidos pela polícia esta semana, mas nasciam da mesma onda de reivindicação que explodiu com a morte de Michael Brown em Ferguson, Missouri. 

Dalas não é Ferguson, mas acabou por pagar na quinta-feira o preço da fenda criada entre a polícia e a comunidade negra americana. A quinze minutos das 21h locais — 2h45 em Portugal continental — um número ainda incerto de atiradores abriu fogo de espingarda automática contra polícias estacionados na intersecção entre a Main Street e a Lamar Street, onde aguardavam a passagem da marcha de protesto. Dois agentes caíram imediatamente ao chão. Seguiu-se um terceiro. E um quarto. Morreram cinco durante a noite.

Quinta-feira tornou-se o dia mais mortífero para a polícia americana desde o 11 de Setembro. Para além dos cinco agentes abatidos, sete ficaram feridos e alguns com gravidade. Nas chamadas ao serviço de emergência, diziam estar a sofrer disparos desde o alto dos edifícios, de atiradores furtivos que provavelmente estariam posicionados em vários lados. Por essa altura, os 800 manifestantes de Dalas já estavam em fuga, capturada, como muito do ataque, num mosaico imperfeito de dezenas de vídeos de telemóvel.

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Desconhece-se ainda muito sobre a emboscada. A polícia não quer revelar quantas pessoas julga terem estado envolvidas, mas sabe-se que três foram detidas depois dos primeiros disparos e que revelaram pouco nos interrogatórios. Um quarto homem, possivelmente o único atirador, ficou encurralado num parque de estacionamento, onde disparou sobre a polícia durante toda a noite. É deste homem, que morreu já na manhã de sexta-feira com uma bomba enviada por um robot da polícia, que se retiram as pistas sobre o que motivou o ataque.

O atirador era Micah Xavier Johnson, 25 anos, veterano da guerra no Afeganistão. Ao longo do impasse no parque de estacionamento, Johnson disse que não pertencia a nenhum movimento, agia só e em nome de um sentimento de vingança. “Disse que estava zangado com as mortes recentes”, revelou o chefe da polícia de Dalas, David Brown, ele próprio negro, como Johnson. “Disse que estava zangado com as pessoas brancas. Disse que queria matar pessoas brancas, especialmente polícias brancos.”

Essa palavra “raça”

Esta é a América pós-Michael Brown, que debate com acrimónia a existência de desigualdades raciais institucionalizadas, disputada entre os muitos que dizem senti-las na pele e os que afirmam que elas não existem num país em que o Presidente é negro. Mike Rawlings, presidente da Câmara de Dalas, atacou o assunto numa grande vigília organizada na tarde desta sexta. “Não vamos tentar contornar o facto muito real de que nós, como cidade, como Estado, como nação, lutamos com dificuldades raciais. Sim, é essa palavra, ‘raça’, e temos de a enfrentar sem rodeios.”

A tragédia paralisou as acções de campanha de Hillary Clinton e Donald Trump, os presumíveis candidatos à Casa Branca. E fez com que Barack Obama, desde Varsóvia, tivesse de responder novamente pelo fosso racial americano, algo que já fizera na quinta-feira, quando disse que sentia “a raiva, frustração e pesar” da comunidade negra pela morte de Arlon Sterling e Philand Castile, os dois homens mortos pela polícia: “Não há justificação possível para este tipo de ataques ou para qualquer tipo de violência contra as forças de autoridade", disse na Polónia.

“Ontem dizia que todos os americanos se devem preocupar com as disparidades no nosso sistema criminal”, afirmou, no dia de abertura da cimeira da NATO. “Também disse que o trabalho da polícia é extremamente difícil e que a vasta maioria cumpre-o de forma notável. Indiquei também o nível a que devemos apoiar estes agentes, que trabalham todos os dias para nos proteger e às nossas comunidades. Hoje é uma recordação violenta dos sacrifícios que fazem por nós.”

Polícia exemplar

O clima pacífico em que decorria a marcha antes de a intersecção da Main Street com a Lamar se transformar num campo de batalha não acontece por acaso. O departamento policial de Dalas preparou-se para a América pós-Michael Brown antes de o jovem ter sido sequer baleado por um polícia em 2014 e da onda de grandes protestos contra o racismo enquistado na polícia norte-americana.

Em muitos sentidos, a polícia de Dalas é uma “polícia modelo”. O major que comanda a unidade de relações públicas é Max Geron, especialista em práticas de controlo de manifestações e estudioso da resposta aos movimentos Occupy Wall Street, de 2011. O chefe do departamento, David Brown, chegou em 2010 prometendo treinar os seus agentes em estratégias de pacificação, quando polícias por todo o país investiam em armamento pesado.

As estatísticas comprovam-no. Segundo dados recolhidos por Albert Samantha, repórter em justiça criminal no BuzzFeed, a polícia de Dalas recebeu 147 queixas em 2009 por casos de uso de força excessiva. Em 2014, este tipo de processos caiu para 53, um mínimo histórico. Acontece algo de semelhante com o número de pessoas mortas por polícias: de 23 pessoas em 2012 para apenas 11 em 2015.

Nas conferências de imprensa ao longo de quinta e sexta-feira, era David Brown quem aparecia ao lado de Mike Rawlings. Numa das últimas vezes que falou aos jornalistas, Brown discursou em nome do seu departamento e da polícia americana: “Estamos a sofrer. A nossa profissão está a sofrer. Os polícias de Dalas estão a sofrer. Não há palavras para descrever a atrocidade que ocorreu na nossa cidade. Tudo o que eu sei é que isto tem de parar… esta divisão entre a polícia e os nossos cidadãos.”

“Na maioria dos dias não sentimos apoio. Não vamos fazer de hoje a maioria dos dias. Precisamos do vosso apoio para vos protegermos de homens como estes”, concluiu.