Cartazes são um fait divers mas Sócrates tem "um peso grande" na campanha

Cartazes do PS com figurantes foram “um disparate e uma aselhice”, mas Costa recusa revelar de quem foi a responsabilidade. E insiste na teoria da maioria absoluta para que o resultado não condicione a formação do Governo

António Costa preside ao comité que representa as autoridades locais e regionais da UE
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António Costa preside ao comité que representa as autoridades locais e regionais da UE Foto: Enric Vives-Rubio/arquivo

Se a polémica com os cartazes não passa de um fait divers, há “casos de outra dimensão” que têm complicado a campanha. “Ter um antigo líder do PS sob investigação criminal com as acusações que são feitas, obviamente tem um peso grande. E aí, o que o PS tem que fazer, por muito que nos custe do ponto de vista afectivo, de todos os pontos de vista, é manter uma disciplina muito grande de separação total entre aquilo que é a actividade política e aquilo que é a actividade judiciária”, admite António Costa.

O líder socialista participou esta segunda-feira no programa Opinião Pública da SIC e recusou comentar as medidas de coacção de José Socrates porque quer que os portugueses tenham a “confiança e a certeza” de que se o PS for Governo “agirá em relação à justiça respeitando escrupulosamente o principio da isenção e independência”, justificou Costa.

Sem querer explicar se a prisão de Sócrates prejudica ou não a campanha, preferiu dizer que tal como não deseja nenhuma interferência da política na justiça, também não deseja nenhuma interferência da justiça na política. Diz que teria “medo de viver num país” em que um juiz entendesse que devia alterar a medida de coacção de algum preso “porque o calendário pode prejudicar ou beneficiar este ou aquele”.

“Eu quero que a justiça se sinta totalmente confortável para julgar este caso como eu me sinto totalmente confortável para fazer a minha acção política”, afirmou António Costa. “Esta garantia é importante para que os cidadãos saibam e acreditem que se algum dia algum político cometer alguma ilegalidade responderá perante a justiça como qualquer outro cidadão.”

Pouco antes, também na SIC mas durante uma iniciativa denominada Redacção Aberta, em que António Costa esteve na redacção daquele canal de televisão para responder a perguntas de jornalistas e técnicos, o secretário-geral voltou a insistir na necessidade de o partido ter maioria absoluta. “Para haver mudança de política é preciso que quem ganhe as eleições tenha a possibilidade de governar com o seu programa”, justificou, para defender uma “solução estável e maioritária” socialista.

Um argumento que já faz escola na coligação de direita e no PS: das eleições legislativas tem que sair uma maioria absoluta para que não haja problemas na formação do futuro. “O país já tem crise suficiente. A pior coisa era o PS ganhar as eleições e ficar dependente do PSD e do CDS para governar”, dramatizou o líder socialista.

É preciso “criar condições para que o Presidente não venha a impedir um PS vencedor de formar Governo”, avisou Costa. “As pessoas têm interpretado as declarações do Presidente como condicionando a existência de maioria parlamentar para aceitar a viabilização e um Governo. Eu entendo que não devemos entrar em querelas constitucionais e, portanto, devemos garantir que as coisas sejam claras e só há uma forma de ser claro, de não haver dúvidas, de ninguém ter ansiedades, ou de no dia 5 de Outubro ninguém saber o que fazer: é haver uma maioria e é por isso que nos vamos bater”, acrescentou.

Sobre a polémica dos cartazes, António Costa contornou as sucessivas perguntas sobre a sua autoria e recusou “alimentar a campanha com esse fait divers”. Mas também soube ser directo: “Os cartazes foram um disparate, uma aselhice; o PS pediu desculpa, não os afixou.” Apesar da “aselhice na escolha dos rostos” – que Costa viu antes do ok final e “pressupôs” que fossem casos reais –, o que “verdadeiramente interessa”, tentou o líder socialista explicar, é o “fundo da história: as 600 mil pessoas que estão efectivamente desempregadas, mas que pode não ser nenhuma daquelas. São as 350 mil pessoas - nenhuma daquelas – que forem efectivamente obrigadas a emigrar. Ou as mais de 350 mil pessoas em situação de desemprego de longa duração e essa existem efectivamente”. E tentou virar o cenário, questionando o jornalista da SIC sobre os jornalistas daquela redacção em situação de precariedade, a recibos verdes ou em estágio – porque “o combate à precariedade é tão ou mais importante que o combate ao desemprego”.

Não haverá Governo-sombra
Questionado várias vezes sobre se vai anunciar algum convite para futuros ministros antes das eleições para o eleitorado saber em quem vota além de Costa, o líder socialista acabou por dizer que “não é tradição em Portugal a apresentação de Governos–sombra” e que também não o tenciona fazer. “O PS já apresentou uma liderança, uma estratégia, contas feitas, um programa e uma equipa renovada. É o que temos e de grande vantagem em relação a outros”, descreveu, anunciando depois que nos próximos dias irá apresentar a quantificação dos diversos compromissos do seu programa.

Costa deixou essa promessa depois de questionado sobre um futuro Ministério da Cultura, que prometeu criar e sob o qual ficará a tutela da RTP, e o aumento do orçamento do sector – que também terá mais dinheiro e será reforçado ao longo da legislatura, mas sem falar numa “cifra certa”. Reafirmou a intenção de aumentar o salário mínimo e prometeu que com o PS “não haverá cortes nas pensões” e tentará diversificar as fontes de financiamento da Segurança Social através do IRC, imposto sucessório e uma taxa às empresas que abusam da precariedade.

Sobre o GES, classificou de “enorme imprudência” a forma como as autoridades acompanharam o processo, disse que o governador do Banco de Portugal fez um “favor ao Governo quando garantiu que não havia perigo” para os clientes e contribuintes. Mas não quis comentar o processo de venda por uma questão de “prudência e responsabilidade” na gestão do assunto.

PCP e Bloco competem para saber qual é mais “anti-PS”
Acerca de uma união à esquerda para colmatar um eventual falha da maioria absoluta, António Costa tentou deixar uma mensagem apaziguadora ao responder às perguntas dos espectadores. Aliás, esforçou-se por provar que é um político que tem sabido construir pontes e consensos. Recusou o conceito de só PS, PSD e CDS terem acesso ao Governo. O problema, frisa, é que à esquerda do PS o cenário é conflituoso.

“Não aceito excluir à partida o PCP, o Bloco ou  qualquer partido à esquerda de qualquer tipo de negociação. Agora, eu confronto-me é com a realidade: quer o PCP quer BE já fizeram declarações públicas recusando qualquer entendimento com o PS. E mais: fazem uma espécie de concurso para saber qual deles é o mais anti-PS.” Uma atitude que Costa classifica de “disparate” e “penalizadora para muitos eleitores”. Mês que haja maioria absoluta, o PS empenhar-se-á em acordos de concertação social e compromissos alargados no Parlamento, prometeu. “Todos são bem-vindos e tenho esperança que o PCP e o BE um dia evoluam na sua posição.”