Assis sentiu-se empurrado para a “periferia política” do PS

Cabeça de lista do PS ao Parlamento Europeu afirma que a hora tardia para que foi agendada a sua intervenção no congresso tem uma "leitura política".

Foto
Francisco Assis deixou de fazer parte dos órgãos nacionais do PS Miguel Manso

Francisco Assis abandonou o Congresso que consagrou António Costa como secretário-geral por discordar da nova orientação política do partido e por recusar uma tentativa de Carlos César, o novo presidente do PS, de o colocar na “periferia política”.

Assis, que no período de apenas três meses passou de eleito do PS para liderar a lista do partido às eleições europeias à condição de simples militante de base, deixou o congresso agastado e politicamente desiludido. A “nova orientação do PS para a esquerda” desagradou-lhe. E a “gestão política do tempo das intervenções” dos delegados que se inscreveram para discursar no congresso foi a gota de água que o fez regressar a casa a meio da reunião magna do PS. Ainda assim, poupa António Costa às suas críticas. “Tenho estima pessoal por ele, não o quero envolver nisto”, afirma.

Há muito que o eurodeputado assistia com “reservas” à actuação do PS na Assembleia da República e ao papel desempenhado pelo seu líder parlamentar, Ferro Rodrigues. No decorrer do primeiro dia dos trabalhos do congresso, ficou para ele provado que há no partido uma “nova orientação”. Que se afirma ao nível do discurso político, agora mais afastado do centro e mais próximo da esquerda onde se situa o Bloco, mas também na composição do novo Secretariado Nacional do PS. “Há aqui uma linha, um caminho, que é legítimo, mas que não é o que eu defendo”, afirma Francisco Assis.

Para Assis, este desvio do PS para posições mais à esquerda contraria a natureza dos “compromissos que se alcançam em termos europeus”. Esses compromissos, sublinha Assis, levam os partidos da família política do PS ao contacto com “o centro-direita”. A definição programática do PS de Costa revelou uma “visão distinta”. Numa recente entrevista ao jornal online Observador, defendera que, “se ninguém tiver maioria absoluta, é desejável que exista uma coligação [à direita]”, por não conseguir ver como se poderá “fazer uma coligação à esquerda”. Ora, quer António Costa quer o seu líder parlamentar recusam esta estratégia.

Francisco Assis esperava poder manifestar no congresso a “visão distinta do PS” que tem vindo a defender. Inscreveu-se para a poder apresentar. Mas o momento que lhe foi atribuído para o fazer desagradou-o. “Toda a gente sabe que o período depois de jantar é menos importante”, nota, mas foi para esse período que a sua participação ficou agendada. “Não se trata assim quem há apenas três meses foi escolhido para liderar a lista do PS nas eleições europeias”, diz. Até porque Ferro Rodrigues teve oportunidade de dirigir “um ataque violentíssimo” à sua defesa de uma coligação pós-eleitoral com o PSD, no caso de as legislativas do próximo ano não promoverem uma maioria.

“A gestão política do tempo das intervenções privilegiou algumas pessoas em detrimento de outras”, acusa Assis. A hora que lhe coube para discursar implica uma “leitura política”, nota. Houve “uma tentativa de me colocar numa periferia política”, acrescenta. Por isso abandonou o Congresso e fica de fora dos órgãos nacionais do PS. Algo em que já tinha pensado. “Há sempre uma altura para sair. Já participo nos órgãos nacionais do partido há 26 ou 27 anos”, afirma. Mas a sua saída não é obra de uma decisão reflectida. Assis, um dos esteios da liderança do PS de Seguro, afastou-se. Por divergências ideológicas e por se sentir despeitado pelo PS de Costa.