Dez anos a fazer teatro com os pés bem assentes na terra

Parecia impossível, mas não foi: as Comédias do Minho festejam a sua primeira década de actividade com uma festa no Porto, desta sexta-feira a domingo, e outra em Lisboa, de 17 a 20.

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Chão junta um coro de mulheres e três músicos dos Mão Morta Celeste Domingues
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Chuva, criação de Tânia Almeida com bailarinos amadores de Vila Nova de Cerveira Celeste Domingues
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Uivo é uma viagem a uma terra de lobos Celeste Domingues

Havia outras maneiras de festejar o aniversário: com foguetes, por exemplo, como é de rigor no Alto Minho das grandes explosões no céu de Agosto onde esta história começou há dez anos, ou então mais discretamente, soprando as velas e pronto. Mas não, as Comédias do Minho tinham mesmo de andar com a casa às costas, explica João Pedro Vaz, o director artístico que, não tendo assistido à fundação da única companhia de teatro do país criada e mantida por cinco municípios altamente periféricos (Melgaço, Monção, Paredes de Coura, Valença e Vila Nova de Cerveira), toma conta dela desde a morte de Isabel Alves Costa, no Verão de 2009. Era a única maneira de estar a altura da utopia – sem aspas – que isto tem sido, para ele, para o resto da equipa fixa e, já agora, para a comunidade de 60 mil habitantes que é a verdadeira razão de ser das Comédias do Minho.

"É mesmo de viver uma utopia que se trata. Estou nas Comédias do Minho há tanto tempo que até parece normal, mas eu sei que não é normal: nós saímos à rua e há 60 mil pessoas que não só têm interesse no que nós fazemos como têm interesse em fazer connosco", explica Luís Filipe Silva, um dos cinco actores residentes que há dez anos se mudaram de Lisboa para aquilo que então parecia ser o fim do mundo (com dilúvios de proporções bíblicas e tudo).

Por dois fins-de-semana, isso que parecia impossível – uma experiência de teatro de igual para igual com o território, mas num regime de permanência e não apenas para animar o interior por uns dias, eventualmente até com foguetes, e depois continuar tudo como dantes – vai ao Porto e a Lisboa mostrar como foi possível. A festa dos dez anos das Comédias do Minho faz-se a partir desta sexta-feira, e até domingo, nas salas do Teatro Nacional São João (TNSJ) e depois, de 17 a 20, no São Luiz, onde o programa alargado inclui, além dos cinco espectáculos que estarão no Porto, a exposição Esta casa tem dez anos, o lançamento do livro A Metamorfose das Paisagens – 10 anos de Comédias de Minho (2004-2013), a projecção de um documentário sobre a companhia e dois arraiais minhotos. "Ir a Lisboa e ao Porto", justifica João Pedro Vaz, "é uma emancipação desassombrada do próprio território: a malta vai de autocarro fazer a festa ao centro, sem complexos".

Utopia também é isso: poder bater à porta do TNSJ e do São Luiz e entrar. Tal como, ao longo destes dez anos, foram entrando em juntas de freguesias e salões paroquiais, casas do povo e quartéis de bombeiros, os espaços não convencionais que esta companhia militantemente itinerante (faz parte das missões das Comédias do Minho circular pelas inúmeras freguesias dos cinco concelhos fundadores, assim como trabalhar com as escolas e com a comunidade, sobretudo através dos grupos de teatro amador da região) tem frequentado.

"Um projecto cultural e artístico fundado por um conjunto de autarcas no interior mais profundo já é um gesto inédito. Mais inédito ainda é que com o tempo tenha acabado por juntar artistas profissionais e amadores, associações, jovens, agrupamentos de escolas e todo o tipo de agentes locais – e que todos participem nisto com uma dedicação e às vezes até uma comoção invulgares. À medida que vamos avançando, vão-se abrindo portas de confiança, e portanto hoje em dia é virtualmente possível chegarmos às cinco câmaras municipais que nos financiam com a ideia mais doida e eles não acharem que endoidecemos", diz João Pedro Vaz.

O programa Comédias do Minho, 10 Anos, continua, faz por exibir, através dos cinco espectáculos criados para o efeito, a singularidade desta experiência de proximidade com o território: no autocarro, além da própria companhia, viaja uma parte da comunidade, que não só participa nos espectáculos como ajudou a levantá-los: "Os artistas amadores que trazemos connosco, e com os quais trabalhamos regularmente, não são figurantes: são co-criadores. Levá-los ao TNSJ e ao São Luiz também é um gesto político: diz-se por aí que os artistas profissionais merecem palcos 'como deve ser' e que os amadores podem fazer as suas coisas em chãos de tijoleira. As Comédias do Minho têm sido o contrário disso: fazem os seus espectáculos profissionais em chãos de tijoleira e agora levam os amadores a palcos 'como deve ser'." É uma discussão que interessa à companhia, sobretudo agora que "o paradigma do trabalho com a comunidade passou a ser muito praticado": "Questioná-lo é uma coisa que fazemos muito, internamente, e às vezes de forma bastante auto-mutiladora. Quisemos que o programa também tivesse essa linha de tensão explícita."

Um sítio idílico

Embora sem a pretensão de resumir dez anos de uma actividade invulgarmente intensa – além dos espectáculos profissionais, normalmente com encenadores e coreógrafos convidados, a agenda dos actores das Comédias do Minho inclui o trabalho continuado com os grupos de teatro amador e com as escolas –, as cinco criações com que a companhia festeja os seus cinco anos exibem as marcas desse enraizamento no território. Chão, que João Pedro Vaz criou com um coro de mulheres de Paredes de Coura e três músicos dos Mão Morta, tem o apoio da Associação Cultural Recreativa e Desportiva de Padornelo; Triatro, o auto popular de Rui Mendonça, reúne uma quantidade quase inumerável de colectividades de Valença; Chuva, de Tânia Almeida, faz-se com bailarinos amadores de Vila Nova de Cerveira; Uivo, viagem de Gonçalo Fonseca a uma terra de lobos, é o reencontro da companhia com o grupo de teatro Os Simples e com o Coro de Parada do Monte; e Volta, de Luís Filipe Silva, põe num palco "como deve ser" sete mulheres da Universidade Sénior de Monção. 

Se isto é o que a companhia foi até agora, isto é também o que vai continuar a querer ser quando for grande. Há condições para pensar no futuro: os cinco municípios fundadores têm assegurado sem sobressaltos uma parte do financiamento, entretanto reforçado pelo apoio da DGArtes (até 2016) e pelo mecenato da Ventominho. "2015 há-de ser muitas coisas que ainda não sabemos. De certa forma, estes dez anos encerram um ciclo, mas o território não vai sentir ressaca nenhuma. Há uma coisa que nos falta fazer: festas, feiras e romarias, os nossos grandes concorrentes. O público das Comédias do Minho circula entre o Festival do Alvarinho e a dança contemporânea; interessa-nos fazer a mistura final", diz João Pedro Vaz. Não está sozinho. Para os actores residentes, "até quando?" é pergunta que nem sequer se põe, garante Tânia Almeida: "As Comédias do Minho são um sítio idílico, não me vejo a viver noutro."