Congresso do PSD sem barões e à espera de algum descontentamento

O conclave social-democrata que começa esta sexta-feira no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, será de aclamação ao líder, mas conta-se com alguns focos de descontentamento. Cabeça de lista às europeias só deverá ser anunciado na próxima semana.

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O XXXV congresso do PSD decorre este fim de semana em Lisboa Rui Gaudêncio

O que se vai passar no Congresso do PSD? Nada de importante – é a resposta mais ouvida. Será um congresso de aclamação do líder Pedro Passos Coelho e de reforço da coesão da coligação no Governo.A ausência da esmagadora maioria de barões que não integram o inner circle de Passos Coelho fez esvaziar as expectativas de um verdadeiro debate político em torno das duas correntes mais nítidas do PSD: os liberais, conotados com a actual direcção, e os social-democratas, em que pontuam os ditos barões com assento semanal nas televisões de onde não poupam críticas à acção do Executivo. Nem sequer deverá ser apimentado pelo anúncio do cabeça de lista às europeias.

O candidato da coligação PSD/CDS – tudo indica que será Paulo Rangel - deverá ser anunciado na próxima semana, depois da primeira reunião da nova comissão política eleita. É o nome que Passos Coelho levará ao congresso do Partido Popular Europeu, a 6 e 7 de Março em Dublin, assim como apresentará o posicionamento do partido sobre as eleições aprovado esta semana na comissão política.

Além de legitimar a coligação pré-eleitoral com o CDS para as autárquicas, o XXXV congresso será mais um momento em que Passos Coelho e Paulo Portas vão dar um sinal de coesão na coligação. O líder do CDS e Nuno Melo (vice-presidente) estarão no encerramento da reunião magna no domingo. Já amanhã Nuno Magalhães, líder da bancada centrista, vai sentar-se na primeira fila para ouvir o seu congénere, Luís Montenegro.

Sem Rui Rio, Manuela Ferreira Leite, Marcelo Rebelo de Sousa, Pacheco Pereira e outros ex-dirigentes presentes – alguns, se por lá passarem, ficarão em silêncio  –, as expectativas de algum contraditório político incidem nas hipóteses Morais Sarmento ou Santana Lopes.

Mas não se pense que o congresso será “uma monumental chatice”, como disse António Capucho. Haverá “escaramuças” que alimentem o congresso, asseguram alguns militantes, referindo em particular a ala dos autarcas, que não deverá calar críticas ao mapa judiciário que manda fechar 20 tribunais, ao encerramento de outros serviços ou aos estrangulamentos financeiros. Poderá haver ainda alguma lavagem de roupa suja relativa às autárquicas e ao processo que levou à expulsão de Capucho.

Há alguma preocupação de que apareça um PSD profundo que sustente o regresso à social-democracia e à defesa do Estado social. Isso mesmo já sublinhou o ex-líder Luís Marques Mendes, que deverá estar apenas de passagem no congresso. “O partido está carente de um debate de valores e reconciliar-se com a social-democracia”, afirmou no seu comentário televisivo.

Por isso, há quem acredite que Passos Coelho faça um discurso sem triunfalismos e de reconciliação com dois dos grupos mais afectados pela austeridade: funcionários públicos e pensionistas. O PÚBLICO apurou ainda que o relatório do FMI sobre a 10ª avaliação deverá estar no discurso do primeiro-ministro, sobretudo a questão da sustentabilidade da dívida.

No Coliseu dos Recreios, onde o partido volta a fazer congressos 12 anos depois, espera-se ainda os ricochetes do chumbo do Tribunal Constitucional à proposta de referendo à co-adopção, que dividiu a própria bancada parlamentar. Luís Montenegro desvaloriza: “Não tenho essa expectativa mas ouviremos sobre todas as matérias”.

Expectativas baixas
Do lado da direcção, são três as grandes linhas que se esperam dos discursos: os auto-elogios em relação aos resultados da governação, cumprimento do memorando e a performance económica. A continuação do discurso bipolar em relação ao PS, em que Passos Coelho pede consensos e Marco António destrói essa possibilidade. E os ataques aos críticos internos porque, como diz um militante de peso, o lado purga vai estar muito presente.

O discurso sobre o pós-troika também não poderá faltar, em qualquer dos registos possíveis, ou todos: um programa cautelar se for preciso, uma saída limpa como convém ao calendário, ou a terceira via de que falou do dirigente do Banco Central Europeu no Lisbon Summit, referindo-se a uma “monitorização reforçada”. E talvez alguém lembre, como fez Paulo Portas no congresso do CDS, que a saída da troika acontece exactamente uma semana antes das eleições europeias.

Mas os congressos servem também para alguns rearranjos nos órgãos partidários. Na comissão política, é esperado que Passos Coelho tenha um cuidado especial com o equilíbrio regional das distritais. Na comissão permanente, não são expectáveis muitas alterações, mas os nomes só serão divulgados sábado à noite.

Passos Coelho tem o hábito de ser reservado e só nessa altura deverão ser conhecidos. Certa é a substituição de Manuel Rodrigues na vice-presidência (deixou a função quando entrou para secretário de Estado). Marco António deverá continuar como coordenador da comissão permanente.  

“Programa conservador”, diz Pacheco
Pacheco Pereira, um dos “barões” que não vai ao congresso mas aceita falar ao PÚBLICO, “tem pena e preocupação pelo estado actual em que o partido se encontra” e declara que o “país precisava de um PSD diferente”.

“O partido funciona com uma direcção e um aparelho que pouco tem a ver com aquilo que é o seu programa como um partido reformista, social-democrata. Basta ler os documentos fundamentais do PSD que estão na base da sua identidade para ver que a actual linha política não tem nada a ver com os factores genéticos que o partido que Sá Carneiro fundou”, afirma o antigo líder parlamentar.

Com críticas directas a Pedro Passos Coelho, o comentador político insurge-se contra a actual direcção, acusando-a de aplicar “um programa muito conservador, mais próximo de uma certa corrente conservadora e uma de uma certa ideia de sociedade em que o elemento fundamental é um discurso em economês que pouco tem a ver com a dignidade da pessoa humana”.

Pacheco Pereira enaltece os valores do seu partido para, uma vez mais, carregar nas críticas ao líder do seu partido. “O PSD é um partido com características e fronteiras que procura a valorização da equidade do trabalho, que procura um estado que tenha um papel retributivo em relação àqueles que têm menos condições e estes é que são os seus factores genéticos”, aponta.