A invasão em Brasília contada pelos vídeos dos bolsonaristas

Centenas de apoiantes de Bolsonaro captaram imagens da destruição. Obras de valor incalculável foram destruídas ou furtadas. Polícia já identificou mais de 1500 pessoas.

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Danos provocados pelos apoiantes de Bolsonaro Reuters/UESLEI MARCELINO
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Um dos invasores com a camisola de Kaká após ser detido pela polícia Reuters/UESLEI MARCELINO
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Reuters/ADRIANO MACHADO
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Polícia tenta conter manifestantes Reuters/ADRIANO MACHADO
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Congresso foi o primeiro edifício a ser invadido Reuters/GEORGE MARQUES

É uma invasão “em directo”: com telemóvel em riste, milhares de apoiantes do ex-Presidente brasileiro Jair Bolsonaro invadem o Congresso, o Planalto e o Supremo Tribunal Federal, publicando nas redes sociais cada segundo de destruição e caos. Uma teia de auto-incriminação que será muito útil às autoridades e permite reconstruir o fio do tempo da invasão aos três edifícios mais importantes para a democracia brasileira. Quem são estas pessoas e quais os estragos causados?

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Muitos dos invasores viajaram propositadamente de autocarro até à capital do país. Nas horas que antecederam a invasão, uma apoiante de Bolsonaro publicou no TikTok um vídeo – entretanto apagado – que mostra a viagem de pessoas oriundas de Mato Grosso do Sul, trajecto superior a 1000 quilómetros.

“Estamos aqui corajosos para enfrentar mais uma luta. Estamos a fazer inveja para aquele pessoal que não tem coragem”, diz uma das passageiras neste grupo.

Pelo menos 80 autocarros descarregam passageiros junto ao quartel-general do Exército, local onde está montado desde 30 de Outubro um acampamento de apoio a Jair Bolsonaro. Pelas 13h (16h em Portugal Continental), os bolsonaristas começam a marcha de oito quilómetros até à Praça dos Três Poderes.

Chegados ao destino, começam as provocações com a polícia. A linha de agentes de autoridade é frágil e quebra poucos segundos depois dos primeiros confrontos.

Na rede social Instagram, um dos directos mostra um polícia a ser arrancado do cavalo, com apoiantes de Bolsonaro a agredir violentamente o agente e o animal. Muitos polícias preferiram manter-se à distância dos confrontos, trocando palavras com os invasores e captando fotografias e vídeos do incidente.

Uma maré "amarela e verde" começa a subir a longa rampa que leva ao Congresso pelas 15h (18h em Portugal Continental). Este é um dos momentos mais eufóricos da tarde e um dos mais partilhados nas redes sociais pelos bolsonaristas, à semelhança do que tinha sucedido na invasão do Capitólio norte-americano por apoiantes de Donald Trump, a 6 Janeiro de 2021.

“Estou a subir a rampa. Olha que coisa mais linda, primo”, exulta um dos invasores. A sensação de impunidade contagia a multidão, com alguns a começarem a destruição do lado de fora do edifício: vidros são partidos, extintores esvaziados e as primeiras pilhagens começam a ser registadas.

Do lado de dentro

Assim que as multidões entraram no Congresso, pouco ou nada havia a fazer para conter as emoções. Os vídeos e imagens captados mostram a escala de destruição deixada pelos invasores.

Múltiplas obras de arte com valor histórico para o país foram pichadas, destruídas ou furtadas, na invasão que chegou ao Salão Verde, local onde estão guardados os presentes oferecidos aos Presidentes. As salas deste espaço ficaram alagadas, com os invasores a recorrerem às mangueiras de incêndio espalhadas pelo edifício.

Um relógio de D. João VI, oferecido pelo rei francês Luís XIV e levado para o Brasil em 1807, foi danificado durante a tentativa de insurreição. Um quadro do pintor Di Cavalcanti foi esfaqueado por diversas vezes. Nem uma bola assinada por Neymar - que durante a campanha demonstrou apoio a Jair Bolsonaro - escapou às multidões enraivecidas.

A invasão continuou no plenário do Senado, com os apoiantes de Bolsonaro a ocuparem secretárias e a destruírem púlpitos e documentos.

A fúria chegaria, por fim, às salas do Supremo Tribunal Federal, pelas 15h55 (18h55 em Lisboa). Foram gritadas continuamente palavras de ordem pelos apoiantes de Bolsonaro, incitados pelas acusações do ex-Presidente, que contesta o resultado eleitoral que deu a vitória ao adversário Lula da Silva.

Mais de duas horas após o início da invasão, a polícia mobilizou um efectivo de peso para repor a ordem no local. Ainda no interior do edifício, os bolsonaristas que transmitiam os acontecimentos em directo garantiam não recuar. "Acabou a palhaçada. Agora, só saímos daqui de dentro com o exército. Intervenção militar é o que a gente pede. Não vamos sair daqui", garantia uma apoiante de Bolsonaro no Instagram.

As imagens e vídeos seguintes mostram centenas de pessoas deitadas no chão, aguardando a detenção pelos agentes de autoridade. Os suspeitos foram depois encaminhados para autocarros e conduzidos até às esquadras para interrogatório.

Mais de 1500 pessoas foram identificadas pela invasão deste domingo, sendo que este número pode subir nas próximas horas. Já foram recebidas mais de 13 mil denúncias sobre pessoas que estariam nos edifícios governamentais.

O acampamento que serviu de ponto de encontro para os manifestantes, em frente ao quartel-general do Exército, está a ser desmantelado pela polícia.

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