Dos telhados verdes às ruas pintadas de branco: como adaptar as cidades à subida da temperatura

A altas temperaturas sentidas em Portugal são um aviso para a necessidade de as cidades se adaptarem para minimizar o efeito das ondas de calor. Plantar mais árvores e incluir ribeiras no planeamento urbano são algumas das alternativas.

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Aumentar o número de espaços verdes também é um contributo importante para “refrescar” as cidades Nelson Garrido

Em Portugal, subsídios públicos para a construção de telhados verdes não existem, pelo menos para já. Para a investigadora Helena Freitas, da Universidade de Coimbra e directora do Parque de Serralves, é uma medida que “já deveria de estar a ser apoiada”, mas tendo em conta que ainda não faz parte do pacote de apoios governamentais, “mais tarde ou mais cedo tem de existir”. Sara Cruz, professora e investigadora de engenharia de planeamento de território e ambiente na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), pensa da mesma forma. E questiona: se existem incentivos para a colocação de painéis solares, porque não incluir os telhados verdes?

Na Europa, em países como a Dinamarca, França ou Alemanha, já se começam a ver telhados que substituem as telhas por plantas. Mas em Portugal os exemplos mais conhecidos resumem-se a construções em edifícios não residenciais, como o telhado da Estação de Metro da Trindade, no Porto.

“O telhado da Trindade não é um telhado verde. É mais um telhado estético que, se fosse pintado de verde ou tivesse relva artificial, fazia o mesmo efeito”, defende o arquitecto e professor na Universidade Portucalense Luís Paulo Pacheco.

Ainda assim, se este tipo de construção servir o propósito que defende, a vantagem é clara: por um lado, retém dióxido de carbono e água e, por outro, impede que o sol se reflicta na superfície e, consequentemente, diminui a temperatura. A necessidade de encontrar soluções para minimizar as chamadas ‘ilhas de calor’ nas cidades é cada vez mais importante, especialmente quando se registam picos de calor muito elevados, como acontece esta semana com todo o território continental a registar temperaturas superiores a 35 graus. Utilizar plantas com a superfície mais clara, que não precisem de rega e com raízes menos profundas, como as dunares, é essencial para que o processo exista, esclarece a botânica Helena Freitas.

No entanto, destaca Sara Cruz, estas decisões devem ser projectadas e avaliadas com cuidado para que não se convertam em exemplos negativos, como é o caso do edifício residencial Bosco Verticale, na cidade italiana de Milão, que recebe queixas dos moradores sobre a entrada de insectos e abelhas dentro dos apartamentos. No fundo, um telhado verde não pode ser construído apenas porque está “na moda”, explica Luís Paulo Pacheco, para acrescentar que é necessário que tenha uma dupla valência como, por exemplo, armazenar água que depois será utilizada para consumo doméstico, purificar o ar ou servir para plantar ervas aromáticas para consumo. “É importante não criarmos a ilusão de que, se fizermos telhados verdes, está resolvido o problema”, aponta.

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O Bosco Verticale em Milão, Itália Stefano Rellandini/Reuters

E por isso mesmo, às vezes basta optar por alternativas mais fáceis como pintar o telhado de branco ou utilizar telhas que reflictam mais luz solar. Da mesma forma também podem ser criadas paredes verdes com recurso a plantas trepadeiras, que têm maior capacidade de absorção de calor do que uma estrutura de betão.

O arquitecto destaca também a selecção de materiais mais frios para a construção das casas, como a madeira, cortiça ou esferovite, mas realça que a temperatura do edifício depende essencialmente da incidência directa do sol que deve atingir a habitação somente no Inverno.

Pintar o asfalto de branco

Um dos materiais responsáveis pelo sobreaquecimento das cidades é o asfalto, que, além de aquecer o ar na superfície, pode atingir temperaturas até 65 graus Celsius no Verão. Para controlar o fenómeno, umas das alternativas mais sugeridas pelos especialistas passa por pintar este pavimento com cores mais claras, que reflectem mais luz solar. No fundo, funciona como as casas brancas no Sul de Portugal, explica a botânica Helena Freitas.

A ideia já foi aplicada na cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, que resultou numa diminuição até cinco graus. Ainda assim, Sara Cruz mantém um certo cepticismo e explica porquê: “Se pintássemos a rua de uma única cor, estávamos apenas a lidar com a temperatura, mas não estávamos a aumentar a sombra. Se colocássemos árvores, estaríamos a aumentar a sombra e a ter alguma purificação do ar.”

“Equipar botanicamente a cidade” através da plantação de árvores, nomeadamente de espécies africanas ou mais resistentes ao calor, como acácias, sobreiros e azinheiras, é outra alternativa apontada por Helena Freitas, assim como a criação de mais parques urbanos e a plantação de árvores. A todas estas, Luís Paulo Pacheco acrescenta a construção de corredores verdes entre as avenidas de carros que, além de criarem sombra, armazenam água e descontaminam o ar através de absorção de dióxido de carbono.

Quando a água é a solução para o calor

Em relação às denominadas “cidades inteligentes”, a opinião de Helena Freitas, que entre 2015 e 2016 foi deputada à Assembleia da República, é clara: é um erro orientar estas cidades apenas para a tecnologia. “Não tenho qualquer dúvida de que as funções baseadas na natureza são essenciais para fazermos a transição ecológica e é muito importante que elas sejam incentivadas”. Como solução, sugere a água, nomeadamente a reabilitação das ribeiras e charcos nos centros das cidades, que, além contribuírem para a diminuição da temperatura, são espaços de convívio e lazer. “As zonas húmidas, além de promoverem o ciclo da água num ambiente urbano, são da maior importância para colocar um tampão na atmosfera da cidade”, destaca.

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Corredor verde junto à estação de metro da Trindade, no Porto Nelson Garrido

Na cidade do Porto, os jardins de Serralves e Parque da Asprela já incluem charcos e ribeiras à superfície. Contudo, estas soluções ainda continuam a ser interrompidas, tendo em conta que as cidades ainda são movidas pela lógica construções em massa com cimento e betão armado. “Agora tentámos voltar para trás e trazer as ribeiras que estão todas entubadas para a superfície. É o oposto do que se fez nos Aliados”, sinaliza Sara Cruz, aludindo à obra dos arquitectos Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto, que retiraram as árvores do Jardim dos Aliados.

Serviços à distância de 15 minutos

Outra das medidas defendidas é a regeneração urbana e consequente aposta nas cidades policêntricas, onde todos os serviços estão à distância de 15 minutos. Desta forma, os habitantes passam a deslocar-se a pé ou de bicicleta, o que diminui o número de veículos em circulação e contribui para a redução do efeito da ilha de calor.

A alternativa tem tudo para ser eficiente, mas “é necessário ser-se realista” e perceber que a grande maioria das cidades portuguesas só será policêntrica “daqui por muitos anos”, uma vez que depende de vários aspectos, incluindo a localização das actividades económicas e o próprio sistema de transporte, aponta Sara Cruz.

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Proximidade dos serviços motiva a circulação a pé ou de bicicleta Rui Gaudêncio

Em cidades como Lisboa, a solução passa também por alterar o tipo de urbanismo e substituir os relvados pelos prados de sequeiro, que não precisam de manutenção ou de ser regados como acontece no Parque da Bela Vista. De acordo com a Câmara Municipal de Lisboa, a medida poupa cerca de seis milhões de litros de água por ano, o que, simplificando, é o equivalente a quase três piscinas olímpicas.

Sara Cruz encara esta alternativa com bons olhos e reforça que a ideia deveria de ser ampliada ao restante território. Mas acrescenta: “Estas soluções são adoptadas facilmente quando há ganhos económicos. É mais fácil convencer os autarcas com soluções quando eles vêem um ganho.”

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