Que cuidados devemos ter durante uma onda de calor?

O resumo é simples: beber água, água, água; usar protector solar; evitar sair nas horas de maior calor e ter cuidado sobretudo com idosos e crianças. Para se ter uma boa noite de sono durante as noites tropicais, há que ter em conta o equilíbrio térmico logo pela manhã, dizem especialistas.

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Os termómetros vão ultrapassar os 40 graus Celsius em várias partes do país Getty

Portugal vai enfrentar uma onda de calor e há que ter cuidados redobrados, sobretudo com crianças, idosos e pessoas com complicações de saúde. A exposição a temperaturas elevadas durante vários dias consecutivos tem vários riscos associados, desde a desidratação ao golpe de calor, passando pelo agravamento de doenças crónicas. É importante manter-se hidratado e proteger-se do sol. Há também que ter cuidado com o risco acrescido de incêndios.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que as ondas de calor são dos fenómenos naturais mais perigosos, mas raramente recebem a atenção devida porque o número de mortes que delas resultam nem sempre são evidentes. Entre 1998 e 2017, mais de 166 mil pessoas morreram por causa das ondas de calor – incluindo 70 mil que morreram na Europa durante a onda de calor de 2003. Com as alterações climáticas (que torna as ondas de calor mais frequentes e mais intensas), o problema agrava-se.

Que cuidados de saúde devemos ter? Como se pode manter a casa fresca poupando recursos? O PÚBLICO falou com a médica de medicina geral familiar Marina Gonçalves, da Unidade de Saúde de Ruães (Braga), com o director da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira, e também resumiu algumas indicações da Direcção-Geral da Saúde (DGS), da Protecção Civil e da OMS.

Beber mais água, mesmo sem ter sede

“Água, água, água”, resume a médica Marina Gonçalves. “Acima de tudo, é fundamental respeitar a parte da hidratação e beber mais água, mesmo quando não se tem sede.” No caso dos idosos é preciso insistir que bebam mais água do que o normal, porque “à medida que a idade avança, o reflexo da sede vai diminuindo e é muito fácil um idoso desidratar-se sem sentir sede”. Uma boa forma de avaliar o estado de desidratação é observar a cor da urina: “Quanto mais escura e mais alaranjada estiver, é sinal de que não estamos a beber água suficiente”, diz.

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Hugo Delgado

Manter-se hidratado não implica beber apenas água, mas deve evitar-se a ingestão de bebidas muito açucaradas e de bebidas alcoólicas. Segundo a Protecção Civil, “pessoas que sofram de epilepsia, doenças cardíacas, renais ou de fígado ou que tenham problemas de retenção de líquidos devem consultar um médico antes de aumentarem o consumo de líquidos”.

Manter a pele protegida do sol

“Temos de esclarecer que quando há uma onda de calor obviamente há um aumento da temperatura, mas muitas vezes também as radiações solares são mais agressivas”, diz a médica Marina Gonçalves. “Além de pensarmos no risco evidente de desidratação, temos também de pensar na parte das queimaduras”, alerta. Assim sendo, é importante usar sempre protector solar e evitar ter a pele exposta ao sol. “Uma pele queimada desidrata mais rapidamente e leva-nos a maior risco de desidratação.”

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PAULO PIMENTA

A DGS recomenda a utilização de “protector solar com factor igual ou superior a 30, renovando a sua aplicação de duas em duas horas e após os banhos na praia ou piscina”. Já as crianças com menos de seis meses “não devem estar sujeitas a exposição solar, directa ou indirecta”, alerta ainda a DGS.

Ainda que ir à praia pareça ser uma boa solução para dias quentes, a médica Marina Gonçalves pede cautela. “Seria uma excelente ideia evitar ir à praia” nos dias de calor excessivo, diz, já que o risco de queimaduras e de desidratação é maior. A ir à praia, o ideal é que seja apenas nas primeiras horas da manhã (até às 11 horas) ou ao fim da tarde (depois das 17 horas), diz a Protecção Civil. “Mantenha-se à sombra, use chapéu, óculos escuros e cremes de protecção solar.”

Evitar sair de casa nas horas de maior calor

Se possível, o ideal é manter-se num lugar fresco e evitar estar no exterior nas horas de maior calor, das 11h às 17h. “A ter de sair, que seja para espaços com ar condicionado e, dentro de casa, tentar mantê-la sempre fresca”, aconselha a médica Marina Gonçalves. Tente ficar à sombra e usar roupas largas durante os períodos de maior calor.

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Segundo a DGS, é também importante “escolher as horas de menor calor para viajar de carro” e não ficar dentro de viaturas estacionadas e expostas ao sol. Também não deve deixar animais fechados dentro do carro.

Fazer exercício de manhã ou à noite

Uma das recomendações das autoridades de saúde é evitar fazer grandes esforços físicos em locais muito quentes, incluindo actividades de lazer no exterior e actividade desportiva. Para quem faz exercício físico, o ideal é que o faça de noite ou de manhã muito cedo. “Ou mesmo não fazer, porque o risco de desidratação é mais elevado”, alerta Marina Gonçalves.

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PAULO PIMENTA

“Sempre que trabalhar ou tiver alguma actividade no exterior, faça-o acompanhado”, lê-se também no site do INEM, “porque em situações de calor extremo poderá ficar confuso ou perder a consciência”.

Prestar atenção às pessoas mais vulneráveis

A DGS recomenda que se preste cuidados redobrados com grupos vulneráveis, como “crianças, idosos, doentes crónicos, grávidas, pessoas com mobilidade reduzida, trabalhadores com actividade no exterior, praticantes de actividade física e pessoas isoladas”. Quem tem idosos a viver em casas que não tenham forma de as manter frescas ou de garantir que estão a ingerir líquidos suficientes, deve ponderar tirá-los de casa durante três ou quatro dias para um ambiente mais fresco, diz a médica Marina Gonçalves. Também é importante não se esquecer de cuidar dos seus animais e garantir que têm sempre água disponível.

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ISABEL INFANTES/REUTERS

Em caso de necessidade, pedir ajuda

Há vários sinais de alerta de que alguém pode estar a ter problemas relacionados com o calor: pessoas com tonturas, com a boca seca, que não urinam há muito tempo, que têm cãibras, dor de cabeça ou um mal-estar generalizado. A DGS diz ainda que “os doentes crónicos ou sujeitos a medicação ou dietas específicas devem seguir as recomendações do médico assistente” ou da Saúde24 (808 24 24 24).

Segundo a OMS, se alguém estiver tonto, ansioso, com muita sede e dores de cabeça, o melhor é procurar ajuda. O mesmo se tiver espasmos musculares dolorosos durante mais de uma hora. Se estiver inconsciente ou com a pele quente e seca e com delírios ou convulsões, é preciso chamar uma ambulância de imediato (ligar para o 112).

Como enfrentar as noites tropicais?

A preparação para as noites quentes começa logo de manhã. O conselho é do director da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira, explicando que o importante nestas situações é “gerir o melhor possível a nossa habitação para que ela não aqueça e assim conseguirmos prevenir e garantir um conforto térmico” durante a noite. “Quem mais tem de ter isto em atenção são os grupos considerados vulneráveis”, avisa, como as crianças, os idosos e pessoas com doenças.

Quando a noite cair, abrir as janelas para deixar entrar uma brisa é uma opção a considerar, mas Francisco Ferreira nota que só se deve fazer se lá fora estiver, de facto, mais fresco do que no interior. Tomar banho antes de ir para a cama para se refrescar também é uma hipótese, mas não é a melhor ideia dada a situação de seca meteorológica que vigora no país, aponta.

Manter a casa fresca poupando recursos

Para evitar que o calor entre em casa, deve fechar-se as persianas e os vidros logo pela manhã, depois de se proceder a uma renovação do ar durante breves momentos, nota Francisco Ferreira. Esta é a primeira coisa a fazer de forma a reduzir ao mínimo os consumos de energia ao longo do resto do dia por meio dos sistemas de climatização.

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Manter os estores fechados durante o dia é uma boa forma de manter a casa fresca, sobretudo nas cidades, que são das zonas que mais sentirão os efeitos do aumento do calor, consequência das alterações climáticas Helder Olino

A ventoinha é o recurso mais simpático a nível financeiro e também ambiental, já que o consumo energético é relativamente “suportável”, sugere Francisco Ferreira. Já com o ar condicionado, a história é outra. Aqui deve ter-se em conta a temperatura que se selecciona, sendo mais do que suficiente “colocarmos na ordem dos 24 graus, 25 graus Celsius” e adaptarmos o nosso vestuário, refere. Assim gasta-se menos energia e o contraste climático é menor ao sair de casa.

Porém, poupar energia acaba por ser difícil quando se tem em conta o “aspecto dramático” que Portugal enfrenta no que ao isolamento térmico das casas diz respeito, admite o director da Zero. “A maior parte da nossa construção não tem, infelizmente, as características de conforto térmico que seriam adequadas para lidar quer com o frio quer com o calor”, sublinha. A solução passa assim por conjugar medidas de prevenção com os sistemas de climatização.

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Paulo Pimenta

Não brincar com o fogo

Numa situação de onda de calor, urgem também cuidados redobrados relativamente à prevenção de incêndios. Numa resposta enviada por escrito ao PÚBLICO, a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil lista algumas medidas, entre as quais se incluem a proibição de fazer queimadas e de “utilizar fogo para a confecção de alimentos em todo o espaço rural”, excepto em lugares autorizados. Proibidas estão também as desinfestações de apiários, o lançamento de balões com mecha acesa e o uso de certas máquinas, como destroçadoras corta-mato e motorroçadoras.

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